#Guitarrista

Artigos

Como os Ghost se tornaram na cara da nova geração do heavy metal

Pressão. Controvérsia. Um exército de inimigos. Parece que nada consegue tirar os Ghost do seu caminho. Neste artigo fala-se sobre como o mentor dos Ghost, Tobias Forge, conquistou o mundo… e venceu.

Publicado há

-

(Autoria de Merlin Alderslade, editor da Metal Hammer UK)

Pressão. Controvérsia. Um exército de inimigos [haters]. Parece que nada consegue tirar os Ghost do seu caminho. Neste artigo fala-se sobre como o mentor dos Ghost, Tobias Forge, conquistou o mundo… e venceu.

«Paris, tell me… Did that make your asses wobble?» Certamente não é um «Scream for me, Hammersmith!», mas, de alguma forma, inexplicavelmente, este dandy glamouroso, de bigode e salpicado de maquilhagem a agitar-se num fato [tux, tuxedo] e luvas de cabedal tem 9000 pessoas na palma da mão, como se fosse Bruce Dickinson em 86. A Hammer esteve no concerto no Le Zenith, na capital francesa, testemunhando Ghost a dar o seu mais recente sermão.

A Cidade do Amor até podia estar congelada naquela noite fria de Fevereiro, mas os imparáveis suecos ​​aquecem tudo em grande estilo – fogo, canhões a vapor, confetti, um espectáculo de luzes deslumbrante e mudanças de roupas suficientes para deixar Lady Gaga tonta são apenas alguns dos ingredientes que reafirmam o seu estatuto como uma das principais atracções metal em 2019.

Tudo isto faz com que um set de duas horas voe rapidamente, guiado com mestria pelo Daddy, que usa bigode, acima mencionado. Cardinal Copia, mestre de cerimónias dos Ghost, fez erguer algumas sobrancelhas confusas quando foi revelado no ano passado, quebrando uma série de oito anos de Papas Emeritus que lideravam Ghost desde o início. Mas tornou-se o coração pulsante de uma banda que continuou a evoluir, a crescer e a adaptar-se contra todas as expectativas.

Copia está a um mundo de distância do homem de olhos azuis, cabelos escuros, calmo e pensativo com quem passámos o tempo duas horas antes, agora vestido com calças de ganga e um hoodie, decididamente sem bigode e a fazer menos gestos.

Quando a Hammer falou pela última vez com Tobias Forge, o artista havia sido recentemente (alguns podem dizer forçosamente) desmascarado como o mentor residente de Ghost – o seu próprio Feiticeiro de Oz, a trabalhar nos bastidores e atrás da máscara para ajudar a orquestrar uma das histórias de sucesso mais improváveis dos últimos tempos.

Logo após a nossa última conversa, os Ghost lançaram o seu último álbum, “Prequelle” – um clássico instantâneo repleto de ameaça lúdica e pop-rock dos anos 80 – e estão praticamente na estrada desde então.

«Ei, se queres rockar, tens de rockar», minimiza Tobias sobre a sua agenda incansável. «É preciso muito esforço, muitas rodas dentadas a girar, para fazer tudo isto funcionar.» Não está a brincar.

Um roadie cansado informaria mais tarde que precisa de quase quatro horas para arrumar o cenário monstruoso de Ghost todas as noites – um cenário imponente, de várias plataformas e estilo capela que lembra o tipo de cenário que os Maiden fizeram sua casa durante décadas. «Mas depois de a máquina estar a funcionar, não vais querer parar», acrescenta Tobias. «Nalgum momento teremos que relaxar um pouco, mas ainda não estamos lá. Se queres ser comparativo, olha para todas as grandes bandas; mesmo que o tenham conseguido num tempo diferente, estatisticamente são precisos cinco discos, cerca de 10 anos, para se ir do nada para algo e para algo grande.»

«Ei, se queres rockar, tens de rockar.»

Tobias Forge

E isso, aí mesmo, resume Tobias Forge. A razão pela qual os Ghost foram um triunfo não é por causa de óptimas músicas, um bom concerto e um gimmick esperto – a história do metal está repleta de bandas que nunca o conseguiram, apesar de se gabarem de todas essas coisas.

A diferença é que Tobias é um homem com um plano. Pode não ser o artista torturado ou arrogante que o rock’n’roll adora colocar num pedestal, mas é um líder: um embaixador da marca com uma mente calculista e perspicaz nos negócios, que sabe exactamente o que é preciso ser feito para imortalizar o legado de Ghost

Está a jogar e está a ganhar. E se olharem com esforço suficiente, as sementes foram semeadas logo no início.

«Podes encontrar todos os detalhes na minha colecção de discos», diz com um sorriso malicioso – e não está errado. Antes de Cardinal Copia, havia Papa Emeritus I, II e III – uma linha de frontmen que não apenas permitiu aos Ghost criarem uma narrativa profunda, mas também mudou a fórmula e a imagem para cada ciclo de álbuns. Soa familiar? Devia – é o que as estrelas do rock’n’roll fazem há décadas.

«Sempre fui um grande fã de Kiss», continua. «A maioria dos fãs de Kiss consegue dizer qual é a era [da banda] pela foto, pelo o que eles vestem. Consegues dizer: ‘Isto é ’75, isto é ’76, é na Primavera, é no Outono, é “Rock And Roll Over”, é “Destroyer”.’ Então imaginei que, para que esta banda mature, precisamos de criar dinastias. E assim também haverá nostalgia. Como eu venho do heavy metal, sei o quão importante é a nostalgia, e a atenção hoje em dia é tão curta, por isso precisas de criá-la rapidamente. Precisas que as pessoas sejam capazes de dizer: ‘Eu estava lá quando aquilo aconteceu.’ É por isso que tivemos Papa Emeritus I, desde o início.»

É um nível meticuloso de visão de futuro que fez surgir trunfos, mas, surpreendentemente, és pressionado a encontrar alguém que apoiou Tobias a seguir esse caminho há dez anos.

Antes de 2010, foi com os respeitados death metallers suecos Repugnant que o nativo de Linköping teve o seu maior sucesso – o seu amor pelo lado teatral do rock surgiu através de um borrifo de corpsepaint e uma gota de sangue falso aqui e ali.

Uma série de EPs e splits e um álbum bem-recebido, “Epitome Of Darkness”, de 2006, garantiram que uma pequena parte do folclore do heavy metal fosse garantida, mas foi o que aconteceu a seguir que mudou tudo.

Canalizando o seu amor pelos principais pilares da NWOBHM, como Angel Witch e Demon, Tobias compõe o que se tornaria “Stand By Him” – um hino irrepreensível de rock-rock a um mundo de distância do barulho gutural de “Epitome…”.

Chamou o ex-colega dos Repugnant, Gustaf Lindström, para o ajudar a gravar e mais músicas seguiram rapidamente na mesma veia – «Sempre gostei de bandas da NWOBHM que tinham sensibilidade à melodia e à pop», diz.

Mas ainda faltava algo. As músicas que Tobias estava a compor seguiam uma fórmula estabelecida desde os anos 70. Precisava de algo diferente. Algo divertido. Algo… metal.

Decidindo que esse novo projecto deveria ter uma imagem que o afastaria das suas influências – uma banda que, nas palavras de Tobias, deveria «soar como Angel Witch, mas parecer-se com Death SS» -, começou a esboçar algumas ideias. Um rabisco ficou na retina – a imagem de uma personagem parecida com um papa, estampada em corpsepaint repulsivo. Nasceu Papa Emeritus.

«E logo que foi confirmado que ele seria um papa… Bem, quando um papa morre, tens um novo!», acrescenta Tobias a rir. Logo depois do Papa, veio a ideia dos Nameless Ghouls – músicos de suporte anónimos e mascarados que se acrescentariam à mística da banda.

Em 2009, o projecto tinha uma imagem, algumas músicas e um nome: Ghost. Mas demoraria um tempo até que as coisas começassem a avançar e até que o grande plano de Tobias tomasse forma.

«Entre 2008 e 2009, talvez houvesse 20 pessoas que conheciam Ghost», diz Tobias, que acabou a liderar a banda por defeito depois de dar a conhecer, sem sucesso, o espectáculo a vários nomes da cena do metal.

«Os tipos de In Solitude, os de Tribulation, os de Watain… Eram as únicas pessoas que sabiam disto! Mas eu sabia que, naquele momento, seria capaz de chamar à atenção, porque isto iria deixar toda a gente [entusiasmada]. Os Repugnant eram populares, mas nada do que eu já fizera teve um impacto tão imediato sobre as pessoas. Era do tipo, ‘Ghost! Quero saber mais!’. Eu sabia que haveria algum tipo de burburinho.»

«Entre 2008 e 2009, talvez houvesse 20 pessoas que conheciam Ghost.»

Tobias Forge

Um «borburinho» é um eufemismo. Quando as primeiras músicas de Ghost foram finalmente divulgadas – no MySpace -, as coisas começaram a mudar muito, muito rapidamente. As plataformas metal foram incendiadas com entusiasmo e ofertas vieram à tona.

«Entrei rapidamente em contacto com o Will da Rise Above», nota Tobias, que acabaria por aceitar um acordo com o respeitado selo de Lee Dorrian. Um álbum, “Opus Eponymous”, foi gravado, e o metal underground esperou ansiosamente que a sua nova banda favorita fosse lançada. E, no entanto, mesmo nesta fase, Tobias não tinha muita certeza de quão longe as coisas iriam.

«Originalmente, pensei que Ghost se tornaria mais numa banda de teatro/instalação, como Sunn O)))», revela. «Tocaríamos no Roadburn, concertos arthouse, cinco datas no London Scala, esse tipo de coisas.»

Portanto, uma espécie de banda de eventos. Apareciam para dar uns concertos especiais e como residentes.

«Exactamente», confirma. «Nunca pensei que seríamos a banda que tocaria em festivais de metal, que tocaria à luz do dia, que tocaria com outras bandas.»

«Nunca pensei que seríamos a banda que tocaria em festivais de metal (…).»

Tobias Forge

Começaram a surgir mais ofertas. De repente, os Ghost – com nem um concerto sequer – foram convidados para digressões, para tocar em festivais e dar entrevistas. Para Tobias, havia uma decisão directa a ser tomada: manter o projecto como uma atracção cultural, permanecer no underground e tornar-se na referência favorita ‘Oh, nunca ouviste falar deles?’ ou dar um salto para o desconhecido e alcançar a grandeza.

Para um homem que passara anos a esconder as suas grandes ambições, agora era a hora de afundar ou nadar. E, realmente, só havia uma opção.

«Não tinha outra hipótese», afirma categoricamente. «Na altura, eu já tinha 29 anos, então era do tipo: ‘Este é o comboio e está a sair agora.’ Podes optar por ficar, ficar sentado e fazer perguntas a vida toda, ou podes ir em frente.»

Tobias entrou no comboio e não parou. “Opus Eponymous” foi lançado a 18 de Outubro de 2010 e, dentro de três anos, concertos íntimos tornaram-se em espectáculos lotados perante 5000 pessoas, e, logo depois, a banda era vista a dar suporte a toda a gente, de Metallica a Foo Fighters e Iron Maiden.

Ganharam um Grammy com “Cirice” (e foram indicados para mais dois); foram defendidos por todos, de James Hetfield a Phil Anselmo; o seu mercado tornou-se obscenamente um grande negócio, com t-shirts a serem vendidas rapidamente em concertos e o logótipo de Ghost a ser estampado em tudo, desde bugigangas a butt-plugs e máscaras da Peste Negra personalizadas.

Tobias manobrou aquele esboço rápido de um tipo assustador num chapéu de Papa para uma máquina da qual Gene Simmons se orgulharia, tudo sustentado numa história em que os fãs salivam enquanto esperam pelo próximo capítulo.

E se ainda houver alguma dúvida de que este é o bebé de Tobias, precisam apenas de olhar para a lista de vítimas repleta de nomes que se lhe cruzaram, como os ex-colegas de banda descontentes que tentaram entrar com uma acção contra Tobias em 2017, depois de alegarem que lhes foi negada a sua parte legítima no pote que é Ghost.

O processo foi aberto em Outubro do ano passado, e os seus ex-colegas foram condenados a pagar os custos legais de Tobias (cerca de $145000). Houve também o incidente com Sister Imperator, em que a matriarca dos Ghost e estrela de uma série de episódios teve de ser rapidamente substituída após uma misteriosa discussão.

«Posso controlar muito e influenciar muito, mas não posso controlar tudo. Aceitar essas coisas é uma grande luta para mim.»

Tobias Forge

«De repente, tens uma actriz que decide começar a criar problemas e fica desempregada», diz Tobias. «Bem, então tens de fazer o que fazem em qualquer novela… Um acidente de carro.» Já agora, isto não é alegórico.

Literalmente, Tobias mandou fazer um novo episódio revelando que a Sister tinha tido um acidente de carro e precisava de cirurgia reconstrutiva. A nova actriz foi convidada com tanta suavidade que muitos fãs de Ghost assumiram que era a mesma pessoa com um corte de cabelo diferente. Não é eficiente?

«É assim que se resolvem as coisas», minimiza. «Mas isso não foi planeado no início, porque trabalhámos com a mesma actriz durante três anos e, de repente, as coisas desmoronaram. Mas precisas de dar um murro, morder o dedo e propor outro plano… Acidente de carro. Boom.»

É compreensível que Tobias não revele o que realmente aconteceu entre ele e a actriz original – afinal, este é um homem que passou anos a segurar as suas cartas junto ao peito. O que é bastante impressionante quando tudo aconteceu sob o nariz de uma das fanbases mais fanáticas do metal moderno. Basicamente: não traias o chefe.

Embora o plano-mestre de Tobias possa parecer defendido a ferro, admite, pelo menos, que há espaço para aprimoramentos ao longo do caminho, revelando recentemente que a personagem de Cardinal Copia poderia existir por mais cinco anos e vários álbuns – algo novo para Ghost, que até agora mudou o seu protagonista em todos os discos.

«É apenas por causa do potencial de vir a ser um ‘Papa’ ou um Papa Emeritus IV», explica, antes de acrescentar: «Se ele alguma vez se tornar num Papa Emeritus.»

Então, será que há vários finais planeados para Cardi C?

«Absolutamente. Tudo isto é um movimento orgânico, e esse é um dos maiores paradoxos para mim, como maníaco por controlo. Para fazer parte deste mundo, não posso controlar tudo. Posso controlar muito e influenciar muito, mas não posso controlar tudo. Aceitar essas coisas é uma grande luta para mim.»

Admite também que ser o cérebro de uma máquina tão grande e em constante evolução como Ghost teve um sério impacto na sua vida pessoal. Fazer parte de uma banda de sucesso é uma coisa, mas ter esse sucesso quase inteiramente nos seus ombros é algo completamente diferente.

«É muito difícil fazer isto sem baixas», reflecte. «Isto afecta o teu ambiente, a tua equipa, os teus pais, os teus filhos… Tenho dois filhos, 10 anos de idade. Eram bebés quando tudo começou. A minha família teve que suportar muito para que isto acontecesse.»

Também teve que encarar a realidade de que estar numa grande banda de rock significa que se atrairá a atenção de alguns inimigos – e os Ghost têm um exército deles. […] Situações recorrentes parecem ser acusações de serem uns vendidos, raiva pelo tratamento de Tobias para com os seus ex-colegas e, mais comummente, se os Ghost pertencem ao nosso mundo (e, para ser justo, é difícil descrever “Prequelle” como um verdadeiro disco de heavy metal).

«Notei isso», diz Tobias. «Notei isso no início. Acho que é a mesma discussão de sempre. ‘Ghost é uma banda metal?’ ‘Somos um clone dos Mercyful Fate?’ É a mesma coisa de sempre. Mas agora, essas pessoas dizem que o novo disco não é tão bom porque não é tanto um clone do Mercyful Fate! Ok…»

Por que é que achas que Ghost irrita tanta gente?

«Porque estamos sempre presentes, o tempo todo. Estamos a ser empurrados para a frente das pessoas, e estamos a esfregá-lo. Não falavam de nós se não tivéssemos sucesso. Isso preocupa-me? Na verdade, não. Uma coisa é se dizem mal de mim, especialmente se é alguém que eu conheço – isso pode magoar-me profundamente. Quando estás no início da carreira, especialmente nos dias de hoje, passa-se muito tempo a perceber o que está a acontecer, porque é preciso ganhar força sobre tudo o que está a acontecer com a banda. Então, percebi que havia muita ‘controvérsia’, muitas opiniões contraditórias. É surpreendente que não entendam que quanto mais falam sobre nós, mais tráfego há sobre a nossa banda. Mais do que teríamos se não tivessem falado!»

Mais uma vez, está aqui: a sensação irritante de que Tobias é o mestre dos fantoches do moderno do metal, mexendo as cordas por cima de uma performance na qual todos continuamos a desempenhar o nosso papel – seja os media, os seus fãs, os seus críticos ou os poucos que tentaram frustrá-lo, é o que se quer e o comboio Ghost prossegue.

«É surpreendente que não entendam que quanto mais falam sobre nós, mais tráfego há sobre a nossa banda. Mais do que teríamos se não tivessem falado!»

Tobias Forge

«Há alguns meses, com base apenas em metadata, um website fez uma lista das maiores bandas de metal», revela Tobias quando um PR informa que o nosso tempo acabou. «Estávamos em quarto lugar! Bem lá em cima. E isso é graças a essas pessoas que continuam a odiar. Por isso, não tenho nada além de óptimos sentimentos por elas.»

Está para sair e acrescenta: «Foi assim que todas as bandas fizeram as suas carreiras. Achas que o Lars fugiria sempre que as pessoas falavam sobre os Metallica? Que se foda.»

Odiado, adorado, mas nunca ignorado. Neste Verão, os Ghost tocaram mais uma vez diante do público dos Metallica – algo que Tobias chama de «exercício de relações públicas» – antes de mais datas globais e, eventualmente, um novo álbum que revelará o próximo capítulo do seu grande plano. Consegue-se imaginar que as pessoas terão muito a dizer sobre isso. E consegue-se imaginar que Tobias Forge vai gostar disso a cada segundo.

Consultar artigo original em inglês.

Facebook

Destaques

Notícias

Artigos

Mundo das Guitarras © 2021