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Ghost Bath: «Tudo se reúne numa única ideia: ódio pelo eu»

Dennis Mikula sobre a criação de “Self Loather”, a auto-aversão e o ambiente que o rodeia e influencia.

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Foto: Austin Scherzberg

«Imaginei este disco final da trilogia a ser mais pesado, mais devastador, negro e vicioso. É, de longe, o disco com mais ódio.»

Em parte resultado da pandemia, como com tantas outras bandas, “Self Loather” é o quarto álbum dos depressivos contemporâneos Ghost Bath, representando uma trajectória em frente a nível musical e a continuação da exploração da antipatia pelo eu na ala lírica. Sendo a peça final da trilogia que começou com “Moonlover” (2015) e que seguiu com “Starmourner” (2017), “Self Loather” pode ser descrito como o álbum mais destrutivo, ainda que contemplativo, de Ghost Bath.

Embora tal possa ter a ver com o facto de todos os membros terem contribuído – mesmo que o fundador Dennis Mikula permaneça como visionário primordial –, o encanto inquestionável de “Self Loather” está patente nas próprias músicas. Desde a força crua da inaugural “Convince Me to Bleed” e da melancolia castigadora de “Sanguine Mask” até ao grandioso terror de “Hide from the Sun” e do groove lento de “Unbearable”, isto é Ghost Bath de hoje e para amanhã.

«“Self Loather” sempre fez parte da minha visão criativa», diz o vocalista/guitarrista Dennis Mikula através da Nuclear Blast. «Imaginei este disco final da trilogia a ser mais pesado, mais devastador, negro e vicioso. É, de longe, o disco com mais ódio. As três emoções humanas básicas que quis captar foram tragédia (“Moonlover”), êxtase (“Starmourner”) e temor/ódio (“Self Loather”). Ao mesmo tempo, todas expressam depressão e mágoa. Creio que neste disco encontrámos o nosso som. O título original era “Sunloather”, e, embora eu odeie o sol, reparei que não se adequava à temática de tudo o que se estava a formar. Há algo que odeio mais do que o sol. Então, tomámos a decisão de renunciar ao prefixo cósmico e substituí-lo com a verdadeira natureza do álbum – o Eu.»

Formado por Mikula sob um manto de mistério e intriga – rumores iniciais davam conta de que se tratava de uma banda chinesa –, Ghost Bath emergiu em 2012 como um projecto a solo e, mais tarde, soube-se que afinal tinha fundações no North Dakota, EUA. Por mais que os boatos da origem chinesa dessem azo a um certo burburinho, o que importa é que Ghost Bath é black metal contemporâneo e depressivo, em que as temáticas da desconfiança, reserva e nojo em relação à própria pessoa coabitam com o poder e a reverência da natureza. “Self Loather” não é diferente dos seus antecessores nesse aspecto, mas a reclusão aumentada (devido aos confinamentos) e o ambiente à volta de Mikula tiveram um impacto ainda maior.

«O nosso ambiente teve certamente um grande impacto neste novo disco», assegura Mikula. «Moro no North Dakota, numa pequena localidade, e, assim, o isolamento e a solidão sempre foram grande parte da minha vida. Nunca me enquadrei em grupos ou ideologias ou mesmo culturas. Com os confinamentos, os protestos e o caos geral nos EUA durante a criação deste álbum, creio que sacámos isto tudo desse isolamento e tempos desligados, sendo forçados a olhar para dentro e a focarmo-nos na introspecção e auto-reflexão. É isto que é maioritariamente iluminados nas faixas.»

«Assim que este álbum for lançado, pertence a quem o ouvir. Não serei eu a dizer aos outros o que devem ou não sentir.»

O processo de composição de “Self Loather” começou nos últimos meses de 2018. Ao contrário de álbuns anteriores, em que Mikula foi o único empreendedor na hora da criação, o novo trabalho de Ghost Bath é mais um esforço em conjunto. Enquanto algumas músicas foram escritas a solo em retiro, outras geraram-se na sala de ensaio com os membros que até ali se podiam deslocar ou mesmo através da Internet. O resultado é uma variedade de estilos, temperamentos e expressões.

«Acredito que cada faixa neste disco tem o seu lugar», frisa Mikula. «Se não estivéssemos contentes com alguma faixa, [então] não entraria no álbum. Escrevemos mais faixas do que as 10 presentes em “Self Loather” e só ficámos com o que se encaixava melhor. Cada faixa é intensa, única e dinâmica. “Sinew and Vein” explora uma onda assustadora, enquanto faixas como “Flickering Wicks of Black” são implacáveis e energéticas. E mesmo com tamanha variação, todas se reúnem numa única ideia: ódio pelo eu.»

Quanto ao que os Ghost Bath pretendem retirar deste “Self Loather” passa por infundir toda esta criação e audição nas próprias experiências de vida no seio da banda. Assim, Mikula não exige que toda a gente chegue ao mesmo destino, ainda que tudo seja determinado pelo ódio, depressão e auto-aversão que falará a muitos fãs.

«Assim que este álbum for lançado, pertence a quem o ouvir. Não serei eu a dizer aos outros o que devem ou não sentir», atira. «Posso explicar o que senti quando o fiz, mas isso não ajudará ninguém nas suas próprias experiências de vida. Se outros conseguem conectar-se ao ódio, à depressão e à auto-aversão que senti enquanto criei esta peça de arte, então suponho que foi um trabalho bem feito. Seria um falhanço se outros não sentissem nada enquanto ouvem este álbum.»

“Self Loather” tem data de lançamento a 29 de Outubro de 2021 pela Nuclear Blast.

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