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Garmarna “Förbundet”

“Förbundet” surge quando mais necessitamos de ritmos xamânicos num chamamento à união das tribos.

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Editora: Season of Mist
Data de lançamento: 06.11.2020
Género: folk / electro
Nota: 4.5/5

“Förbundet” surge quando mais necessitamos de ritmos xamânicos num chamamento à união das tribos.

Na mitologia sueca, Garmarna identifica uma espécie de lobos ou cães-de-guarda nas portas do inferno, uma figura simbólica do imaginário colectivo e das lendas da música tradicional autóctone recuperada pelo quinteto do multi-instrumentista, compositor e arranjador Stefan Brisland-Ferner para um repertório inspirado por histórias de faca e alguidar, e fábulas do folclore escandinavo animado por bruxas, trolls, sereias, fadas, duendes e demais personagens.

Trinta anos depois da sua fundação, os Garmarna assinam pela Season of Mist, uma editora conotada com uma das melhores na metalurgia da última era, que agora se insurge no universo da dark folk, ainda que este projecto não se deixe rotular por tonalidades monocromáticas. Segundo Stefan, o porta-voz dos Garmarna, citado à letra, troca essa classificação por qualquer coisa mais elementar e intrínseca: «Não pensamos na música como géneros mas mais como emoções, cores, elementos.» Na muche.

À data em que lançavam “Vittrad” (1994) e “Gods Musicians” (1995), as primeiras gravações que os puseram na boca do mundo da world music como a next big thing, o rótulo era punk-folk-electrónico. O mundo mudou, mas o novo “Förbundet” oferece mais do mesmo. Já na passagem do milénio, curiosamente um ano após se terem apresentado no Festival Inter-Céltico do Porto, em 1998, um dos principais diários nacionais presente no MIDEM dedicado à Suécia, o maior certame internacional da indústria musical do passado, dava notícias de que o país nórdico com uma população de apenas nove milhões de habitantes era o maior exportador de discos do mundo per capita, e sublinhava entre os showcases apresentados: «Destacaram-se apenas os Garmarna, um grupo que parte das raízes e instrumentos da música tradicional para fazer uma música tão enérgica quanto o rock, fazendo-se mesmo valer de breakbeats. O que prova que a abordagem dos Hedningarna deixou escola.» Para quem não acompanhou estas andanças, Hedningarna foi um dos projectos pioneiros na reinvenção da folk escandinava a recorrer à música electrónica. A nova criação dos punk-folk-rockers electrónicos começa justamente num registo upbeat apadrinhada pelo convidado Anders Norudde, dos Hedningarna, a dedilhar uma espécie de hurdy gurdy sobre uma balada folk de 1700. E assim segue em modo festivo até meio do álbum.

Apesar da tal influência folclórica do passado, o sétimo título na discografia dos suecos nasce duma inspiração mais soturna. É um álbum pesaroso marcado pela perda e pela saudade, entre a beleza poética da vida e a melancolia da despedida. “Dagen Flyr”, “Ur Världen Att Gå” e “Avskedet”, três das principais músicas do disco, contêm a mensagem de abandono e tristeza que contagia os 40 minutos do alinhamento. “Vägskäl” descreve-se pela terrível experiência a que todos os seres vivos se encontram predestinados no entroncamento da existência com a morte – é profundo, são lágrimas de luto tão cintilantes e comoventes como a voz de Emma Härdelin, a violinista e vocalista para a qual apontam todos os holofotes, num registo muito próximo do de Liz Frazer dos The Cocteau Twins.

Para quem não conheça as origens do projecto, resumindo, o que fizeram foi acentuar a tónica na electrónica, com uns efeitos simples e mais pesados do que anteriormente, de onde se desprende uma atmosfera moderna em sintonia com os dias que correm e com a nova editora. O resultado é causa de entusiasmo por estas bandas, e o sentido da saudade, tão tuga, paira a sério na faixa cinco “Ur världen att gå”, que à semelhança de “Dagen Flyr” assimila as influências da tradição coral da Estónia, o país vizinho na fronteira do Báltico. O resto são vagas nas marés destes cantadores de histórias ancorados no folk rock e numa sonoridade ancestral, bárbara, e pagã, com amostras electrónicas de batidas sobre uma variedade exótica de instrumentos acústicos.

Para os acólitos da world music este pode ser um álbum normal, mas os Garmarna permanecem no som da frente tão intemporais quanto Madredeus. Já para os recém-chegados ao futuro do Lança-Chamas, do mestre António Sérgio, um dos influencers mais entendido em fusões, a par de Fernando Magalhães, a nova essência da Season of Mist é um grande disco para se ouvir na Hora do Lobo. Surge quando mais necessitamos de ritmos xamânicos num chamamento à união das tribos.

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