Pioneiro da cena NOLA, nos próximos tópicos, o carismático vocalista dos EyeHateGod, Mike Williams, fala sobre o novo álbum “A History... EyeHateGod: «Se não consegues rir às portas da morte, há algo de errado contigo»
Foto: cortesia Century Media Records

Pioneiro da cena NOLA, nos próximos tópicos, o carismático vocalista dos EyeHateGod, Mike Williams, fala sobre o novo álbum “A History of Nomadic Behavior”, a morte que lhe bateu à porta mas que foi embora, a paixão pelo punk rock, teorias da conspiração, a disfuncionalidade humana e o desprezo pelo termo sludge metal.

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Ficamos sempre felizes por lançarmos um álbum
«Lançamos um álbum quando queremos – não damos ouvidos às editoras ou aos fãs. Os fãs querem um novo disco mas depois ao vivo querem ouvir as músicas antigas. Fazemos isto por nós. Demorou sete anos, mas só porque estávamos a escrever e chegámos a um ponto em que estávamos satisfeitos. Não lançaríamos um disco só porque sim. Queremos lançar algo com o qual estejamos felizes e entusiasmados. Mas claro, temos estado ocupados nos últimos sete anos. Temos os nossos projectos paralelos e estivemos em digressão desde 2017. Voltámos à estrada quatro meses depois da minha cirurgia, portanto estivemos em digressão entre Abril de 2017 e Março de 2020. Foi muito tempo na estrada…»

Estava preparado para morrer
«Estava mesmo mais para lá do que para cá, estava praticamente morto. Mas não acho que haja razão para se ter medo da morte. Não entendo as pessoas que têm muito medo da morte, porque vai acontecer a todos. Só temia que os médicos e cientistas não descobrissem nada que me ajudasse a lidar com a doença, mas felizmente não tive de passar por isso, e ainda aqui estou e agora estou muito saudável.»

Venho da cena punk rock
«Envolvi-me no punk quando era um miúdo, em 1978. Já ando nisto há muito tempo. Claro que muita cena do punk rock é política, mas há muita que não é. Provavelmente, isso está-me no sangue, aconteça o que acontecer, mas não tenho que me sentar a escrever letras políticas. Tudo o que tem acontecido é uma coincidência com as letras. Há certas frases ou palavras destacadas sobre as quais as pessoas podem fazer relação com 2020. Alguém me disse isso, e talvez haja letras subliminares que soam bem e que eram sobre como nos sentíamos quanto à tensão dos últimos quatro anos [mandato Trump nos EUA], especialmente 2020. Mas muitas das letras foram escritas antes disto tudo acontecer, alguma são de 2015.»

Somos marginais
«Punk rock foi uma coisa que me atraiu quando era miúdo porque era para os marginais, párias e para as pessoas que não tinham sentimento de pertença. Todos nos sentíamos uma família neste tipo de música. Diria que todos na banda são marginais à sua maneira. Moldou-me a vida porque me fez pensar, fez-me abrir a mente. Há bandas que te fazem pensar duma certa maneira, seja a nível lírico ou musical – essas bandas fizeram perceber que a música não tem de ser uma coisa, pode ser muitas coisas.»

Nada me choca
«Não posso generalizar e dizer que toda a gente não está a pensar. Há pessoas que têm o cérebro morto e deixam que a imprensa faça o quer com os seus cérebros, mas também há pessoas muito conscientes e que tentam manter-se longe dessa mentalidade. Ando no punk rock desde 1978 – já nada me choca. Estas pessoas que acreditam na anti-ciência e naquelas teorias – que se comem bebés, cenas do QAnon… É ridículo, mas já não me choca. Há sempre uma parte da população que não é instruída e não quer ser instruída, são muito felizes por fazerem o que lhes mandam fazer e por pensarem o que lhes mandam pensar. Algumas dessas pessoas procuram por uma espécie de orientação, algum tipo de líder, e por isso acreditam nestas teorias ultrajantes que podem ser provadas erradas muito facilmente, mas continuam a querer criar uma ideia própria.»

A Internet não ajuda
«É principalmente daí que vem tudo. No outro dia estava a ouvir um podcast e disseram que estas pessoas sempre existiram, mas agora, com as redes sociais, podemos vê-las a disseminarem estas ideias ridículas – algumas são muito perigosas. Algumas das coisas que dizem são tão ultrajantes! Se fores uma pessoa inteligente… [interrompe] Mas há muitas pessoas inteligentes que acreditam nestas coisas, é muito estranho! É quase como uma histeria em massa. Para além do Trevor Noah e do John Oliver, também gosto muito da Vice – acho que têm as melhores notícias, é muito informativo, dizem a verdade. Acho que a malta do riso só quer o melhor para as pessoas, que sejam livres. A tua etnia e a orientação sexual não importam, isso nem devia ser assunto, não devíamos tentar negar nada a essas pessoas porque são simplesmente humanos. Mas depois há o outro lado que é racista e odioso.»

Somos disfuncionais e bactérias
«Se não houvesse caos e desordem, não haveria calma e dias perfeitos. Há um equilíbrio para tudo. Essas coisas acontecem quando acontecem, alimentamo-nos disso, especialmente ao vivo – gostamos do caos dos concertos. Somos disfuncionais porque somos seres humanos, estamos juntos há muitos anos – o Jimmy [Bower, guitarra] e eu estamos juntos há mais de 30 anos. Há sempre discussões, mas somos irmãos e no fim fica tudo bem. Temos humor negro porque é assim que ultrapassas as coisas. É engraçado gozar com a morte. Se não consegues rir às portas da morte, então há algo de errado contigo. Tens de te rir do absurdo de seres humano. Os humanos são criaturas absurdas, são basicamente bactérias neste planeta. Há quem não compreenda, que acha que é especial, que é o escolhido, mas somos bactérias. Daqui a uns milhares de anos, este planeta será um deserto. Já nem estaremos aqui, vamos morrer de qualquer coisa, mas é assim que é, é o ciclo da vida. Nascemos, morremos, planetas nascem, planetas morrem.»

EyeHateGod não é uma banda de metal
«Esta banda começou quando éramos muito novos – tínhamos acabado de sair da adolescência, estávamos no início dos nossos vintes. Regressando ao punk rock, eu estava lixado com a sociedade e rebelas-te. Isso colou em EyeHateGod. Nem nos considero uma banda de metal. Nem ouço metal. O último metal de que gostei foi provavelmente Iron Maiden e Judas Priest nos anos 1980. Ouço muita música esquisita. É bom tocar música agressiva. Não tocamos cenas melosas, nem lançamos álbuns com músicas pop – embora também fosse engraçado.»

Detesto o termo sludge
«EyeHateGod é uma banda de rock n’ roll, e se isso é algo roubado ao Lemmy, tudo bem. Desde que o rock n’ roll começou nos anos 1950, é um tipo de música de rebelião. As pessoas querem pôr rótulos em tudo – grunge e até punk, algo de que não consegues fugir. O termo sludge foi criado depois de já sermos uma banda. Tens de te lembrar que esta ideia vem de 1986. Ninguém usava a palavra sludge, ninguém sabia o que nos chamar. Portanto, dizerem que tocamos sludge, acho que está tudo bem, as pessoas podem chamar-nos o que quiserem, não quero mesmo saber, mas pessoalmente não nos chamamos assim e nem gostamos desse termo.»