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Essence Of Datum “Spellcrying Machine”

“Spellcrying Machine” trata-se de uma das maiores lufadas de ar fresco de 2019.

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Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 30.08.2019
Género: prog metal / melodic death metal
Nota: 4/5

Ao seu terceiro álbum, os bielorussos Essence Of Datum lograram não só assinar com a Season of Mist, como lançar o disco mais tecnicamente competente da sua curta carreira. O trio dedica-se em exclusivo a tocar death metal técnico instrumental. Apenas e só. Ainda que ambicioso, parece simples, de facto, mas nada poderia estar mais afastado da verdade. “Spellcrying Machine” faz-nos lembrar muita coisa, de riffs que poderiam ter sido compostos por Yngwie Malmsteen, passando pela virtuosidade de monstros como Jason Becker e, até, fazendo recordar alguns clássicos de meados dos 1980s, caso de Europe. Contudo, a base assenta no death metal progressivo. E há black metal. Assim como baladas e momentos serenos, na ausência de melhor termo. Bem como traços de avantgarde, com pinceladas de Cynic e Dream Theater pelo meio. Já não parece tão simples, certo?

É preciso entrar dentro de certas bolhas para percebermos o que se passa nelas. Tomemos o caso dos Animals As Leaders, banda cimeira de metal progressivo instrumental – cedo percebemos que as suas criações não se adequam a qualquer ouvido ou estado de espírito. É verdade que há temas que brilham quase sozinhos, caso de “Ka$cade” ou “Physical Education”, mas também não é menos verdade que os norte-americanos se dedicam mais a quebrar barreiras, a experimentar e a redefinir o conceito de música progressiva do que propriamente a fazer música para fãs. Não é o caso dos Essence Of Datum, que não estão interessados em escrever tratados musicais, muito menos em agradar a pseudo-elites que debatem durante horas quão dotado músico xyz de facto é, relegando para segundo plano o que a música lhe faz sentir. Os Essence Of Datum pegam em estruturas de death metal técnico e deixam-se ir consoante lhes apetece, sem pressões, sem quererem reinventar a roda, de forma relativamente modesta, mas claramente segura.

A inicial “Synthetic Soul Extractor” faz-nos lembrar Savatage e Dream Theater, mas só inicialmente; a meio, a descarga de blast-beats com riffs de black metal épico, que depois regressa ao rol das bandas apontadas no início, só engrandecem o trabalho apresentado. “Shikari Algorythm”, que lhe sucede, consegue a proeza que é misturar tonalidades de Obscura com Theory In Practice, tal é o virtuosismo de Dmitry Romanovsky, homem por trás das guitarras e espantosamente desconhecido no meio. O disco, aliás, parece Romanovsky e seus acompanhantes – é assim tão relevante o trabalho deste instrumentista. “Pendulum” vem a seguir, com um delicioso riff inicial a fazer lembrar Alice Cooper e que, logo de seguida, embarca numa viagem pelo universo dos Sadus e dos Cacophony em simultâneo. É, é de doidos. “Vitality” é o tema mais refreado do disco, consistindo numa balada onde constam exclusivamente guitarras semiacústicas e que serve de fronteira entre os primeiros três temas e os três que se lhe seguem. Pode ser considerado ainda como um limpa-palato, algo que se toma entre pratos para desabituar a boca do sabor dos alimentos que se acabaram de ingerir e dar lugar a novos sabores que estão para vir.

“Spellcryer” inicia com uma guitarra calma, reverb moderado, para passar logo após para uma descarga de black metal nórdico e death metal melódico, reentrando novamente em modo de guitar hero. É uma salada estranha, mas que sabe particularmente bem, algo a que não estamos habituados mas que assimilamos rapidamente. A penúltima “Binar” regressa ao andamento dos Obscura – veloz, muito técnica e catchy – e “Cavum Atrum”, o sétimo tema, é um compêndio das seis faixas anteriores, com uma carga épica de black metal mais pronunciada e que acaba o disco com chave de ouro. É fácil de perceber por que motivo a Season of Mist pegou nestes três músicos de Minsk, apostando numa faceta menos vulgar do metal extremo devido à sua qualidade e inspiração. A produção poderia ter dado um pouco mais de relevo ao trabalho da viola-baixo. Fora esse ponto (que, neste caso, é importante) está bom e não mexe mais. Agora, é mandá-los para a estrada para ver como se saem e como soam. Até lá, “Spellcrying Machine” trata-se de uma das maiores lufadas de ar fresco de 2019.

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