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Epica: «Fizemos o álbum que tínhamos em mente com a qualidade que precisamos de ter»

Entrevista aos Epica.

Foto: Tim Tronckoe

Com “Omega” a ser lançado cerca de cinco anos depois de “The Holographic Principle”, tal não significa que os Epica tenham parado – antes pelo contrário, seguiram-se digressões, o EP “The Solace System” e o lançamento especial de covers da série anime “Attack on Titan”. Em entrevista concedida à Metal Hammer Portugal, o guitarrista Mark Jansen falou sobre o período mais calmo para que a banda pudesse repor energias: «A pausa foi muito necessária porque estávamos muito cansados, a bateria estava simplesmente vazia, e dissemos que se fôssemos gravar imediatamente, a qualidade do álbum iria sofrer. Portanto tomámos a decisão de fazer uma pausa, e foi a melhor decisão porque quando regressámos estávamos completamente recarregados e as ideias eram mais frescas do que antes. Fizemos o álbum que tínhamos em mente e com a qualidade que os Epica precisam de ter. Foi muito bom ter esta energia renovada e foi muito prazeroso trabalhar com as baterias cheias e com uma muito boa onda.»

“Omega” termina uma trilogia e o título que é dado a este novo trabalho geralmente conduz-nos a pensar no final de algo. No entanto, há faixas como “Gaia”, “Code of Life” ou “Freedom – The Wolves Within” que nos guiam a novos começos e a renascimento em vez de fim e morte. Habituados a letras de Epica com conceitos sobre futuro e distopia, Mark realça o ciclo da vida: «O amanhã é incerto, mas isso é para toda a gente. Acredito que tudo funciona em espirais. Coisas que podem parecer fins, não o são de facto, porque fins não são possíveis neste sistema em que vivemos. Acredito verdadeiramente que tudo à nossa volta anda em círculos – como a órbita do planeta, as estações do ano, vida e morte – e mesmo que ande num círculo e que possa ser interpretado como um fim, acredito que é só um corpo que deixamos para trás e a essência do que realmente somos fica para sempre, isso não morre. É a minha crença espiritual pessoal, é por isso que regressa a várias letras. E também acho que é uma mensagem que as pessoas gostam de ouvir. Claro que há pessoas completamente ateístas e dizem que depois da morte não há nada, que está acabado, e tudo bem, mas não é nisso em que acredito. Regressa tudo ao início mas num nível acima na próxima vez.»

Em boa hora o assunto foi trazido à conversa porque precisamos de falar em particular sobre uma faixa presente neste disco: “Kingdom of Heaven Part 3 – The Antediluvian Universe”. Quando a primeira parte foi composta, uma das avós de Mark faleceu e o músico finalizou-a em sua memória. Por sua vez, a composição da terceira instalação foi partilhada com o outro guitarrista, Isaac Delahaye, e pasmemos: a sua avó faleceu. Mais: a avó sobrevivente de Mark encontrou também a sua última morada na mesma semana.

«É o ciclo da vida», conforma-se. «Ela fez 89 anos, portanto estou mais agradecido do que triste porque nos últimos dois anos consegui visitá-la várias vezes e consegui passar muito tempo com ela. Para mim, o círculo está completo, e dedicar tal música à minha avó é perfeito – e o Isaac sentiu o mesmo. É mesmo assustador e é demasiada coincidência para ser apenas pura coincidência. Acho que estas coisas acontecem porque têm de acontecer.»

Será que vai haver uma quarta parte? Mark destapa o seu sentido de humor: «Parece-me que está terminado. E ficámos sem avós… [risos] Três partes e está feito, mas nunca se sabe, pode haver uma qualquer razão para uma próxima parte. Deixo sempre as oportunidades em aberto, mas parece-me terminado.»

Três é a conta que deus fez, dizemos deste lado, tentando-se encontrar a melhor maneira para traduzir o ditado português para inglês. E entra a numerologia que Mark tanto gosta. «Três é o número de deus. Desde pequeno, e não sei porquê, tenho uma atracção pelos números 3, 6 e 9. Quando trabalho numa música, se tiver a parte seguinte à terceira chamo-lhe seis em vez de quatro, porque não tenho boa impressão do número quatro. É um hábito estranho. [risos] Os números são muito pessoais, tens uma ligação com um certo número.»

Falar-se da pandemia é inevitável, e o holandês não escapou ao assunto mais comentado do mundo. A razão para isso é mais do que um capricho da actualidade ou uma forma de encher chouriços numa conversa que, diga-se, estava a correr muito bem. Foi por uma nesga que as gravações com a Prague Philharmonic Orchestra e o coro foram possíveis a tempo. «Um dia depois da gravação do coro, foi proibida a presença de várias pessoas numa sala – encaixou-se perfeitamente», recorda. «Às vezes é preciso ter-se sorte, e há uma boa energia à volta deste álbum. Mesmo que tenhamos tido de gravar as partes vocais – as minhas e as da Simone [Simons] – em estúdios diferentes, funcionou muito bem. Se não fosse assim, iríamos ter um stress extra porque nessa altura ainda não sabíamos que as digressões iam ser adiadas. Felizmente correu tudo bem, e as digressões tiveram mesmo de ser adiadas porque a pandemia durou mais tempo do que as pessoas pensavam – honestamente, fui uma das pessoas que achou que isto ia durar, porque a minha intuição dizia-me que isto não ia embora numa questão de semanas. As coisas correram como correram, e agora temos de esperar pacientemente até tudo acabar para regressarmos às digressões. Ainda pode demorar, as mutações [do vírus] são mais pesadas do que se esperava, mas é algo fora do nosso controlo e não há necessidade de stressar – é esperar e ver. A única coisa que eu disse à banda é que queria que este álbum saísse em Fevereiro, porque, para mim, não faz sentido adiar o lançamento para se juntar à digressão. Também lhes disse que, nestes tempos pesados, as pessoas procuram por algo que as faça sentir bem, e música é uma dessas coisas. Felizmente, toda a gente concordou.»

Os Epica são conhecidos não só pelos portentos discos de metal sinfónico que criam mas também pelos gloriosos concertos e pela conexão especial com os fãs. «Do que mais sinto falta é a energia de um concerto, uma energia que não alcanças doutra maneira», diz Mark. «Mas como não é possível, o lançamento de um álbum também é algo que procuro. Pessoalmente não estou a sofrer com a situação… É uma pena que não haja concertos e a ligação com os fãs, mas não sinto falta disso de uma maneira em que sofra por isso. Sei que, eventualmente, vai ser possível outra vez e vai ser ainda mais satisfatório do que antes, porque depois vou saber quão bom é fazê-lo novamente em vez de o fazer a toda a hora, o que se torna uma rotina e não percebes quão bonito é. Isto faz com que todos os músicos compreendam quão bonito é o que temos quando for possível novamente, quão agradecidos podemos ser quando tudo puder voltar a acontecer.»

Dezoito anos de Epica, mais sete passados em After Forever, Mark Jansen já soma uma carreira bastante considerável e repleta de sucessos. Por fim, estará o músico holandês a viver o sonho? «O que quer que aconteça a partir de agora, mesmo que nunca mais toquemos um concerto – esperemos que isso não aconteça! –, já vivi o sonho e estou feliz com tudo o que conseguimos. Não há nada sobre o qual pense que não aproveitei a oportunidade. Tocámos em todos os grandes festivais com que sonhava quando era criança, portanto estou completamente satisfeito, mas, claro, espero verdadeiramente que, no futuro, possa ser possível tocar outra vez, porque adoro fazer isto e não me importo de o fazer durante mais uns 10 ou 20 anos. [risos]»

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