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Chrigel Glanzmann (Eluveitie): «“Ategnatos” cresceu de forma muito orgânica e baseia-se em intuição»

Olhando para trás cerca de 15 anos, de um projecto de estúdio a uma banda importante na cena folk metal, os suíços Eluveitie tornaram-se num dos maiores e mais amados colectivos no seio desse panorama. Questionado se algum vez imaginou que isso poderia acontecer, o mentor e vocalista Chrigel Glanzmann diz que sim acompanhado de um riso. «Ficar conhecido não é a razão pela qual toco música – no fim, isso não importa e nunca me importou. Criei Eluveitie para combinar os dois géneros musicais que mais gosto e que toco do coração. Foi esse o objectivo desde o primeiro dia – trabalhar arduamente, avançar e chegar o mais longe possível. Foi o que fizemos, e é claro que não fazes ideia do que vai acontecer, mas podes ter esperança, apontar a algo e trabalhar duro pelos objectivos que queres alcançar. Sempre acreditei nisto e em Eluveitie. Nunca tive dúvidas.»

O lado folk tradicional sempre foi um elemento muitíssimo importante para a banda e até tem álbuns acústicos na sua discografia, sendo “Evocation II” (2017) o mais recente nesse campo, mas, com a novidade em “Ategnatos”, os helvéticos regressam às lides do death metal melódico! Hoje, os discos totalmente folclóricos são vistos por Chrigel como «projectos especiais de Eluveitie» e isso «não quis dizer que os desenvolvimentos fossem para aí, tendo apenas a ideia de se fazer algo especial». «Quando estava a trabalhar no “Evocation I” [2009] tornou-se claro que isto podia ser um ciclo de dois álbuns e também se tornou evidente que algum dia iríamos lançar a segunda parte. Nunca pensámos que estávamos a mudar o nosso estilo e nunca olhámos para isto como um regresso às raízes. Olhamos para nós como uma banda metal.»

No comunicado que os Eluveitie e a Nuclear Blast fizeram chegar à imprensa anteriormente ao lançamento do disco está escrito que somos todos arquétipos. Três mil anos depois, e vivendo nós num mundo industrializado comandado por um capitalismo gélido, será porventura cada mais vez mais difícil estar em contacto com as nossas origens ancestrais. Pessoalmente, Chrigel não acredita nisso, tendo mais a ver se «queres fazer isso ou não». «Quando começámos a trabalhar no “Ategnatos”, tivemos uma abordagem diferente, especialmente ao nível lírico e conceptual, porque através de um simples verso podes ver que o álbum é sobre mitologia celta, mas desta vez contemplámos alegorias e parábolas ancestrais através de um ponto-de-vista moderno. Não falamos apenas de temas ancestrais, mas contemplamos essas imagens enquanto indivíduos.» Acabando por se tornar numa «experiência intensa, quase espiritual», o suíço conta que «o notável disto tem a ver com o quão incrível são estes antigos versos». «Algumas parábolas ancestrais no álbum têm mais de dois mil anos – muitas ainda são verdade hoje em dia e aplicam-se à nossa sociedade e vida moderna, não perdendo a sua importância e validade. Isso foi o mais surpreendente.» À data é sabido que, para o conceito de “Ategnatos”, criou-se uma ponte entre mitologia/filosofia e crítica ao mundo moderno mas, «honestamente, o plano inicial nem era esse», confessa Chrigel. «Originalmente só queríamos contemplar histórias e parábolas ancestrais. Basicamente, o resultado disso é o álbum e este aspecto crítico à sociedade, mas nem era esse o plano, apenas se desenvolveu assim.»

Ambos os álbuns acústicos mostraram uma grande dinâmica entre vozes masculinas e femininas, algo que se transportou para “Ategnatos” de uma forma muito boa e natural. «Honestamente, acho que estamos perto daquilo que um pensamento ou sonho pode ser», responde o helvético sobre a proximidade da banda em relação à dinâmica sonora que sempre almejou. «Há mais vozes femininas no “Ategnatos” do que alguma vez tivemos num álbum metal, mas nem consigo dizer porquê – não foi uma decisão, nem foi um plano. A música deste álbum cresceu literalmente de forma muito orgânica e baseia-se em intuição no que diz respeito ao processo criativo. Gostamos que seja assim!»

Ainda sobre as dinâmicas e estéticas sonoras adjacentes ao que os Eluveitie nos têm habituado desde 2002, podemos eventualmente achar que se despíssemos as canções de “Ategnatos” de toda a distorção e peso, poderíamos ter um álbum folk acústico como os que lançaram antes. Muitos músicos dizem que se uma música pesada for despida para acústico e continuar a soar bem, então é porque foi bem criada. Então, será isto a prova de que uma canção foi bem feita? «[risos] É uma boa teoria, mas sinceramente não sei se é verdadeira. Se estivermos a falar de edição e efeitos fortes, então sim – se tirarmos isso tudo e a canção continuar a soar bem, então está bem feita», responde Chrigel, admitindo porém que «não é disso que se trata» em alguns detalhes. «Peguemos, por exemplo, na faixa “Threefold Death”. Não acho que esta canção soasse bem se lhe tirássemos todo o metal. Não acho que essa ideia diga muito sobre a qualidade de uma canção, porque acho que este é um bom tema metal, mas não funcionaria como uma canção folk acústica. De certo modo ainda concordo [com a teoria]; contudo, para mim não tem a ver com a qualidade da composição, mas se faz parte da ideia dos Eluveitie. Sempre quisemos criar a nossa música de maneira a que seja 100% metal mas 100% folclore tradicional ao mesmo tempo. Sempre tivemos o cuidado de podermos tirar todos os elementos folk de uma música de modo a que continuasse a ser uma boa e funcional canção metal, e vice-versa», conclui.

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Álbum: “Ategnatos”
Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 05.04.2019
Género: folk/death metal
Nota: 3.5/5

Depois de fechado um ciclo de dois álbuns acústicos (2009 e 2017), os Eluveitie voltaram à distorção e ao death metal folclórico com “Ategnatos”, um trabalho que nos define a todos como arquétipos e que visa criticar a sociedade moderna através de parábolas e alegorias ancestrais afectas à mitologia celta. Apesar da faceta metal – que inclui growls de Chrigel Glanzmann e riffs bem esgalhados – que lançou os suíços para a ribalta, especialmente com o segundo álbum “Slania” (2008), “Ategnatos” vive muito das flautas, das gaitas e da sanfona (hurdy-gurdy) que em tempos fora explorado por Anna Murphy (Cellar Darling). Igualmente importante, em “Evocation II” (2017), os Eluveitie elevaram a voz feminina a patamares mais promissores e de foco central, sendo assim algo que foi naturalmente transportado para “Ategnatos” ao termos Fabienne Erni a executar o papel de vocalista mulher como nunca antes se ouviu num álbum dos helvéticos. Apesar de crítico, “Ategnatos” é exuberante e extremamente cativante, como se pode ouvir, por exemplo, na faixa “Black Water Dawn”. Mais catchy ainda, devido principalmente ao refrão cantado por Erni, será, porventura, “Breathe” que está presente na fase final do álbum. Posto isto, garante-se que os Eluveitie juntaram de forma profissional e artística o melhor dos dois mundos sonoros e históricos que mais amam: metal e folclore.

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