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Earth Drive “Helix Nebula”

Trata-se de uma viagem pelos caminhos das estrelas e do heavy psych, com qualquer coisa de introspectivo e alguma espiritualidade adjacente.

Editora: Raging Planet
Data de lançamento: 13.03.2020
Género: psychedelic rock / metal
Nota: 4/5

Trata-se de uma viagem pelos caminhos das estrelas e do heavy psych, com qualquer coisa de introspectivo e alguma espiritualidade adjacente.

No ano em que completam 13 anos de existência, os Earth Drive editam “Helix Nebula”, desafiando as leis da gravidade e os mais supersticiosos. No activo desde 2007, gravaram a primeira demo “Take it Down” em 2010, e três EPs entre 2012 e 2015. O salto dá-se em 2015 com o terceiro EP “Planet Mantra”, e a entrada no catálogo da Raging Planet, a editora independente que resiste há mais de 20 anos a hastear o slogan “In Rock We Trust”. Um caso de estudo no underground nacional. Dois anos depois apresentavam “Stellar Drone”, o aclamado álbum de estreia pela imprensa especializada.

Em 2020, depois de uma catrefada de quilómetros de estrada entre os principais festivais e clubes de rock de referência do circuito nacional, os Earth Drive seguem viagem pela esfera celeste com o GPS apontado à NGC 7293, a 700 anos-luz do Montijo, até à morada da “Helix Nebula”, ou Nebulosa da Hélice. A astronomia é uma ciência muito antiga. A humanidade sempre se sentiu desafiada pelo apelo da cosmosfera. Até Richard Branson trocou a indústria da música para se dedicar à Virgin Galactic e ao turismo espacial.

O álbum abre com o instrumental “Cosmic Eye”, ou O Olho de Deus, como a tal nebulosa é igualmente conhecida, tema que antecede “Helix Nebula”, que dá título ao álbum. O segundo tema espelha de imediato a atmosfera de Valada em noites de Reverence, com o stoner-rock psicadélico a ecoar por entre a copa do arvoredo, ressoando na memória. Meia dúzia de minutos é quanto duram as duas primeiras faixas, o tempo suficiente para se perceber a proposta do quarteto da Margem Sul composto por Hermano Marques (guitarra), Luís Silva (baixo), Sebastião Santos (bateria) e Sara Antunes (voz). Trata-se de uma viagem pelos caminhos das estrelas e do heavy psych, com qualquer coisa de introspectivo e alguma espiritualidade adjacente. Com o aeroporto em fase de projecto, a viagem, com tudo incluído, fica pelos 37 minutos e picos. Holy Drone!

“Holy Drone” é o terceiro tema, um curto instrumental, tal como o tema de abertura, a fazer a ponte que liga “Helix Nebula” ao próximo – “Spectra”. Ao longo de todo o álbum, os Earth Drive optaram, e bem, por inserir subtilmente uns quantos instrumentais, funcionando como interlúdios, o que resulta num belo efeito e demonstra algum cuidado com o alinhamento e na forma de compor. “Cosmic Eye”, “Holy Drone”, “Nagarjuna”, “Anulom Vilom” e “Phantalien”, como é o caso, asseguram algum equilíbrio e distinguem este registo dos anteriores, sem descaracterizar a sonoridade que constrói a imagem de marca da banda. É tudo muito bem doseado e distribuído harmoniosamente, todos eles com diferentes características, uns mais shoegaze ou psicadélicos, outros mais etéreos e atmosféricos.

“Spectra”, “Axial View” e “Dharma Throne”, quarto, quinto e sexto tema respectivamente, são um pouco homogéneos, mas é aqui que os Earth Drive mais concentram o peso do legado stoner-rock, soltando uma densa e colorida fumarada. Hermano Marques vai construindo, ao longo destes três temas, sucessivos padrões ornamentais, arranjos simétricos e melodias mutantes sobre os ritmos pesados impostos pelo baixo e bateria. “Spectra” aproxima-se de um certo hard-rock dos anos 1970, com a voz aveludada de Sara a murmurar, quase baladeira, embalada pelo baixo de Luís e pela guitarra de Hermano, que se insinua delicada e cristalina no início para depois groovar caleidoscopicamente com todo o tipo de pedal que houver à mão e ao pé. A pedalada vai aumentando com “Axial View”, e agora Sara faz lembrar Goldfrapp de “White Horse” numa versão com psicadelismo, glam e hard-rock. Isto só vai abrandar depois da riffalhada bruta de “Dharma Throne”, quando Sebastião desatar à pancada nas peles duma bateria tribalista e galopante como se o mundo fosse acabar já a seguir.

De seguida, “Nagarjuna”, “Anulom Vilom”, e “Science of Pranayama” assinalam a passagem para o lado mais espiritual e esotérico de “Helix Nebula”. O primeiro refere-se a Nagarjuna, filósofo e budista indiano, enquanto “Anulom Vilom” identifica uma técnica respiratória conhecida dos praticantes de Yoga, e “Science of Pranayama” alude à prática segundo a qual o controle do prana é conseguido através do controle respiratório. Três mantras numa cadência tântrica que recuperam o tom meditativo e introspectivo iniciado em “Cosmic Eye”.

O final do álbum é surpreendente, com os três minutos de “Amazon”, um instrumental bem focado e sedutor que aponta para o imaginário da cinematografia western spaghetti ou para o desert-rock, e consequentemente para aquela gaffe do ex-ministro Mário Lino. Segue-se “Phantalien”, um instrumental fantasmagórico e maléfico como os discos de vinil com mensagens do Demo quando tocados de trás para a frente. Há quem guarde o melhor para o fim, e temos por último o tema “Space God” em que os Earth Drive melhor se refugiam da terra mais que batida dos territórios stoner, para enveredar por caminhos mais alternativos em que Sara se reinventa com um desempenho inigualável, muito próximo de Courtney Love nas Hole da era “Live Through This”. Já em “Spectra” isso transparece.

Os Earth Drive souberam dar descontraidamente a volta ao difícil segundo álbum, trilhando novos caminhos e descobrindo algumas saídas para um género como o stoner-rock psicadélico em fase de esgotamento. No entanto, há aqui umas boas guloseimas para os admiradores de Kyuss, Tool ou Acid King. “Helix Nebula” é simultaneamente luminoso e crepuscular, para além de acrescentar valor ao repertório produzido até à data pela banda, que entra agora numa toada mais calma e polida.

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