#Guitarrista

Artigos

Dimmu Borgir e o manual de como se mudar o tabuleiro do black metal

Vamos, desde já, descomplicar: os Dimmu Borgir são os Metallica do black metal. Inovadores, revolucionários, visionários, super-estrelas.

Publicado há

-

«Achamos que black metal é uma arte que serve para libertar, não para restringir.»

Silenoz

Vamos, desde já, descomplicar: os Dimmu Borgir são os Metallica do black metal. Inovadores, revolucionários, visionários, super-estrelas.

Em meados dos anos 1990, com “For all tid” e “Stormblåst”, enquanto toda a Noruega estava a ressacar dos homicídios, suicídios e incêndios, os Dimmu Borgir faziam um estilo de black metal que mais ninguém, pelo menos no seu país, estava a fazer. Não nos estamos a esquecer dos Cradle of Filth em Inglaterra, mas enquanto a banda de Dani Filth tinha uma ala melódica direccionada ao gótico e ao vampirismo, a de Shagrath e Silenoz era mais virada para um imperativo majestoso, uma ligação mais profunda a Satanás do que a HP Lovecraft. Havia rivalidade entre as duas bandas? O guitarrista Silenoz diz que não. «Fizemos uma digressão com eles em 1997, por isso conhecíamo-nos mais ou menos. (…) Talvez tenha a ver com termos adquirido o [ex-baterista de Cradle of Filth] Nick Barker. De fora, podia ter parecido que havia alguma rivalidade.»

Naquela altura, ainda antes de “Enthrone Darkness Triumphant” (1997), os Dimmu Borgir viram aquilo de que os Emperor eram capazes e transferiram a grande importância das guitarras de Ihsahn e Samoth para o seus teclados ao cargo de Stian Aarstad e, mais tarde, Mustis. Por outras palavras, os Dimmu Borgir deram ao black metal um sentido glorioso mais amplo, divino e, talvez, menos noctívago do que qualquer um dos seus pares seminais, como Emperor.

Revolucionaram, inovaram, tiveram visões artísticas que outros não tiveram ou, se tiveram, não conseguiram concretizar. Depressa se tornaram uma banda adorada pela Europa fora, especialmente em países como Alemanha, Polónia e Holanda, zonas em que promoveram fortemente o referido disco de 1997, que inclui hinos como “Mourning Palace”, “Spellbound (By the Devil)” e “In Death’s Embrace”.

A partir daí foi sempre a subir – talvez nem tanto em criatividade musical nalguns momentos, mas certamente em popularidade. Em 2001 lançavam “Puritanical Euphoric Misanthropia”, um daqueles álbuns que pode ser incluído nas listas de discos que mudaram paradigmas. Para além de músicas típicas de Dimmu Borgir, como “Kings of the Carnival Creation”, os noruegueses forçaram a barra de ferro com experimentalismos industriais em faixas como “Puritania”. Acusados de terem arruinado o black metal, ainda que se tenham tornado mais famosos do que nunca, Silenoz diz que o compreende de um ponto de vista: «É como quando um futebolista muda de equipa, de repente é um Judas. As pessoas sentem-se muito próximas de certas bandas, ou até de estilos de vida. Querem a banda para si, assim como querem o futebolista para a sua equipa. Geralmente, isso vem de pessoas que não olham para nós como black metal, mas dizem que arruinámos o black metal. É um oxímoro.»

Anos mais tarde, em entrevista à extinta Ultraje aquando da promoção de “Eonian” (2018), a opinião de Silenoz não mudou muito. «Dimmu Borgir é o tipo de banda que recebe reacções mistas a cada novo álbum, muito raramente alguém nos diz: ‘Está bom, está OK.’ Ou amam o disco incondicionalmente ou odeiam de morte, sem meio-termo. Felizmente, o amor costuma ultrapassar largamente o ódio. [risos] É natural perdermos alguns fãs, mas também o é quando ganhamos. O mais importante para nós é ficarmos satisfeitos com o nosso trabalho. Qualquer banda pensa nos fãs quando compõe música – se te disserem ‘tocamos só para nós mesmos’, então estão a mentir, pelo menos as bandas grandes. Claro que temos de pensar nos fãs, mas o principal é conseguirmos produzir um trabalho final que foi realizado conforme esperávamos.»

«Ou amam o disco incondicionalmente ou odeiam de morte, sem meio-termo.»

Silenoz

Provavelmente perderam fãs ligados estritamente ao black metal e ganharam outros vindos dos mais variados espectros. Prova e dicotomia disso passa pelo facto de álbuns como “Abrahadabra” (2010) terem sido arrasados na imprensa ao mesmo tempo que a banda enchia arenas a tocar ao lado de orquestras e coros. Por exemplo, por mais que “Gateways” fosse um single obrigatório nesses concertos e por mais que até funcionasse muito bem ao vivo, não escapou ao rótulo de ser considerada nas redes sociais uma das músicas mais irritantes daquele ano. Nada disto parou Dimmu Borgir – pelo contrário, estavam cada vez maiores. E talvez a partir deste momento, o paralelismo inicial feito com Metallica não seja assim tão parvo.

Para vislumbrarmos Dimmu Borgir em Portugal (pela última vez) temos de regressar a 2007, quando por cá passaram com Amon Amarth, agora também uma das bandas mais populares e bem-sucedidas do universo metal. Sem querermos atirar foguetes antes da festa, 2021 vai pôr termo a uma longa espera. Será a primeira vez para uns, a segunda ou a terceira para outros e duvidamos que haja alguém nesta comunidade que nunca tenha ouvido falar da banda.

O que os Dimmu Borgir nos vão trazer, para além de êxitos como “Progenies of the Great Apocalypse” ou “The Serpentine Offering”, é excelência num cenário diabolicamente idílico, a concretização em forma adulta da visão que começaram a ter em 1993. Até lá, nada melhor do que se terminar com as palavras do próprio Silenoz: «Sabes, nós olhamos para o black metal da mesma forma que o Ihsahn dos Emperor, achamos que é uma arte que serve para libertar, não para restringir. É algo que te deve afastar da mentalidade do rebanho. Na minha opinião, os ‘puristas’ têm a mesma mentalidade dos religiosos. A meu ver, isso é o exacto oposto do que o black metal deve representar. Sou um gajo old-school. Quando me apetece ouvir black metal, regresso aos discos dos anos 90, pois é deles que recebo inspiração, são os melhores discos, mas isso não significa que quero soar a eles na minha música! Sinto-me bastante realizado por, desde o início da banda, termos seguido o nosso próprio caminho. Caso existisse um manual de regras, já as teríamos quebrado há muito tempo. Sim, recebemos uma descasca enorme e muito ódio de muita gente, mas tratam-se de pessoas que nunca hão-de chegar a lado algum. De qualquer forma, o que nos interessa é fazer aquilo que achamos ser a coisa certa a fazer para nós mesmos. Ao fazê-lo, vamos criar reacções de uma forma ou de outra. Tenho orgulho de, a cada novo álbum, criarmos tantas opiniões diferentes e celeuma, raramente há um ponto de equilíbrio – ou adoram ou odeiam. Os que adoram ultrapassam largamente os que odeiam; logo, não poderia estar mais feliz e orgulhoso do meu trabalho.»

Facebook

Destaques

Notícias

Artigos

Mundo das Guitarras © 2021