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Der Weg Einer Freiheit: uma caminhada pela noite dentro

Nikita Kamprad sobre o ritmo da noite, Chopin, ataques de ansiedade e uma nova experiência de gravação.

Foto: Mario Schmitt

«Adoro dormir e sonhar, e sonhos são importantes para mim porque há liberdade neles.»

Experimentalistas do black metal vanguardista e contemporâneo, os Der Weg Einer Freiheit nunca pararam de quebrar barreiras desde que se fundaram em 2009. Com o novo álbum “Noktvrn”, a atitude não é diferente e estão dispostos a prosseguir a expansão das mentes e das perspectivas.

Composto entre o final de 2019 e Setembro de 2020, o quinto álbum da banda alemã apresenta o som geral do black metal que a inspira desde sempre, incorporando-se ainda influências no compositor clássico Frédéric Chopin.

«Sempre quis fazer um álbum sobre a noite e os sonhos, e sou um grande fã de Chopin e das suas peças nocturnas», diz o multi-instrumentista Nikita Kamprad através da Season of Mist. «Para mim fazia sentido que este álbum tivesse um título que se ligasse à temática. Neste momento, à minha esquerda está um piano e algumas pautas de Chopin. Certo dia, provavelmente olhei para aquilo e quis homenagear este grande compositor. É por isso que quisemos escrever o título de uma maneira um pouco diferente, com um ‘k’ em vez de um ‘c’ e um ‘v’ em vez de um ‘u’, para o tornar mais especial. Também escolhemos o ‘v’ em particular porque é o nosso quinto álbum e é o número romano para cinco. É apenas algo especial que fizemos com o nome, embora à primeira não tivéssemos a certeza sobre a inscrição porque pode ser vista como genérica, especialmente no black metal. Temos razões que são mais profundas do que aquilo que vês à superfície – não foi porque quisemos ser ‘true’, ou ‘trve’, ou algo assim.»

As influências de Chopin e da música clássica em “Noktvrn” vão para além da cosmética superficial. Por isso temos guitarras acústicas, trompas que nos põem em sentido, black metal brutal, shoegaze e indie rock. E tudo culmina na temática da noite, como Kamprad descobriu muito cedo durante o processo de composição.

«A “Immortal” foi uma das primeiras músicas que compus para o álbum e foi muito estranho porque a compus quando era muito tarde, quando caí num ritmo nocturno que não era o meu habitual», recorda. «Senti que estava a ter diferentes tipos de sonhos e pensamentos. Às vezes estava meio acordado, meio a dormir, e não estava muito ciente do meu verdadeiro estado mental. Foi uma experiência que me fez pensar em dar a todo o álbum uma temática notívaga. Sou um dorminhoco muito apaixonado. Adoro dormir e sonhar, e sonhos são importantes para mim porque há liberdade neles. Neste ritmo da noite, a minha cabeça estava num estado diferente e quis criar neste estado porque era algo diferente para mim.»

Liricamente, em “Noktvrn” vemos Kamprad a dar passos para fora da sua zona de conforto desde que tomou conta do microfone após a saída de Jaschinsky em 2012. Este novo registo apresenta o artista a expandir-se para além da sua usual colecção de pensamentos pessoais e da língua-mãe, havendo um novo estilo e textura na maneira como expressa os seus significados, ideias e recordações.

«Normalmente, as letras são sobre mim, mas aconteceram duas coisas nos últimos dois ou três anos ligadas a ataques de ansiedade. Nunca vivi isso, mas algumas pessoas perto mim já. As letras para a “Am Rande der Dunkelheit” são baseadas nas experiências dessas pessoas e sobre o que me contavam quando pensavam que não conseguiam respirar, quando pensavam que iam morrer e que a vida estava a chegar ao fim. Através das letras tentei imaginar como se devem ter sentido. Tentei encontrar as minhas próprias palavras para descrever a experiência e ao mesmo tempo tentei descrevê-la como se fosse eu a viver isso.»

«Outra coisa completamente nova neste álbum são as músicas “Immortal” e “Haven”, que são em inglês, o que nunca fiz antes», continua Kamprad. «Sempre quis cantar em inglês desde que me tornei vocalista. Cantar é a expressão musical mais directa que sinto. Tocar guitarra é porreiro, mas cantar é mais a minha cena e sempre quis quebrar barreiras, portanto também implementei vozes limpas. Mas, para mim, fazer vozes limpas é muito desconfortável e difícil em alemão. Acho que cantar limpo em inglês soa melhor, porque alemão é uma língua complicada, que se encaixa perfeitamente nas vozes ásperas. Quis tentar e ver como ficava – e surpresa: ficou excelente! Gosto muito e imagino que tenhamos mais letras em inglês no futuro.»

«O novo álbum é o mais natural de Der Weg Einer Freiheit.»

Todos os lançamentos do projecto foram criados quase inteiramente por Kamprad ao compor, iniciar as vozes e tocar baixo e guitarra com Tobias Schuler a tocar bateria enquanto também produzia e misturava. Kamprad continua a ser o compositor-chefe, mas “Noktvrn” acaba por representar um significativo passo no desenvolvimento do colectivo ao incluir contribuições de outros membros da banda e uma gravação em modo ao vivo.

«O novo álbum é o mais natural de Der Weg Einer Freiheit», salienta. «A música hoje em dia, especialmente metal, pode ser demasiado difícil e técnica para as bandas tocarem e gravarem do princípio ao fim. Para mim, durante a composição, foi muito importante focar-me em tocar as músicas sem paragens. Isso criou uma fluidez muito natural. Ter a banda toda envolvida em todo o processo de gravação e nos últimos estágios de composição também foram coisas novas. Compor e gravar sozinho era muito cansativo, e após o “Finisterre” [2017] não o conseguia fazer mais e tive de mudar alguma coisa.»

«Continuei a escrever músicas no meu estúdio e depois mostrava-as», acrescenta. «Depois íamos para o ensaio e pré-produção, tocávamos e gravávamos as músicas, e analisávamos os pequenos detalhes – a repetição de partes, as transições, o som da guitarra, as batidas da bateria e tudo isso. O que daí resultou ainda eram as minhas músicas, mas com a contribuição dos rapazes. São as mesmas músicas, mas passar por todos os detalhes dá-lhes outro nível. Quando entrámos em estúdio, tudo o que tivemos de fazer foi focarmo-nos em tocar e mais nada, porque já estava tudo definido. Foi uma nova e muito boa experiência para nós enquanto banda.»

“Noktvrn” pode ser considerado um álbum que inclui saltos drásticos e riscos transformativos na carreira dos germânicos, mas Kamprad prefere referir-se à banda que fundou como «um passatempo muito profissional» em vez de um veículo de expressão pessoal. «Talvez o que há de especial sobre nós é que nunca parámos. Desde o início, não parámos e tentámos sempre estar presentes com digressões, concertos e festivais – portanto, nunca houve uma pausa.»

“Noktvrn” tem data de lançamento a 19 de Novembro de 2021 pela Season of Mist.

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