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Dawn of Disease “Procession of Ghosts”

“Procession of Ghosts” é o culminar de dez anos de trabalho, marcados pela gravação de cinco álbuns de originais, num registo muito esclarecedor e lúcido que evidencia arte, génio, e experiência. Um álbum a considerar nos habituais balanços e listas que se avizinham.

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Editora: Napalm Records
Data de lançamento: 01.11.2019
Género: melodic death metal
Nota: 4.5/5

“Procession of Ghosts” é o quinto álbum dos Dawn of Disease (DoD), o quinteto de death metal criado na Alemanha, em 2003, por Tomasz Wisniewski (voz) e Mathias Blässe (bateria), os únicos resistentes da formação inicial presentes neste registo. Desde a mudança de logótipo (demarcando-se do grafismo comum às bandas desta derivação do heavy metal), aos novos parceiros a refinar a produção (Fascination Street Studios), ao contrato com um novo agente (District 19) e visivelmente por uma nova estética na imagem de capa de “Procession of Ghosts”, tudo aponta neste novo longa-duração para um momento de renovação e mudança na carreira dos Dawn of Disease.

“Ascension Gate”, o álbum anterior, editado há dois anos pela Napalm Records, parece ter dado aos DoD uma nova orientação. «Gloomy autumn days and the sheer endless darkness of winter», segundo uma afirmação da banda, terá sido o mote que lhes serviu como fonte de inspiração. “Procession of Ghosts” segue a mesma orientação espiritual, como se constata na letra, e é lançado às portas deste Inverno, na ressaca da noite de Halloween, na sexta-feira, dia 1 de Novembro. É ainda de salientar uma edição limitada a 500 cópias, uma versão absolutamente luxuosa que inclui, entre outros itens, o LP e um 7″ exclusivo, embalados numa caixa de madeira.

O quinto álbum de originais dos Dawn of Disease apresenta, tal como o que o precedeu, um registo de death metal melódico que reflecte proporcionalmente a influência da NWOBHM e a da vertente sueca do género. “Procession of Ghosts” acerta em cheio no coração e na alma do grosso dos apreciadores mais renhidos da tribo de metalheads espalhada pelo menos pela Europa, senão pelo globo. Apesar destas duas escolas dominarem descaradamente a sonoridade geral dos DoD, a barca soma e segue viagem por novos e atmosféricos caminhos. Após uma atenta audição do álbum, podemos confirmar e concordar com Lukas Kerk, um dos homens à guitarra e um dos grandes responsáveis e artificies do som dos DoD, quando diz que este “Procession of Ghosts” não é apenas o novo álbum da banda – «It’s an epochal manifestation of passion and dedication embedded into a monumental, melodic and melancholic storm of relentless power.»

É notável a forma como os DoD dominam, com grande à-vontade, uma técnica que lhes permite usar de uma paleta sonora com diferentes nuances, mais ou menos brilho e opacidade, sobre tons de branco, preto ou cinza. As subtilezas que se podem ouvir em temas como “Shrine”, “Procession of Ghosts” ou “Autumn Days” evidenciam a forma como os DoD tão bem sabem aplicar inesperadas soluções na composição dos temas, e descobrem a luz no rock progressivo, no metalcore ou no black metal. Já as duas faixas-bónus, reservadas para os últimos lugares dum alinhamento com dez temas, assinalam um modo próximo do legado tradicional ao mais puro estilo death metal, com “Hypnosis” e, sobretudo, “In Death We Blast”, que é nada menos que s.u.b.l.i.m.e. – “There is one thing for certain / In death we blast / Watch the dawn / Of this disease (…) This union will last forever / In death we blast together”.

Sublime é também o desempenho da secção rítmica composta por Mathias B na bateria e Christian Wösten no baixo, impondo a cadência adequada às constantes variações de tempo e assegurando simultâneamente a violência necessária ao acompanhamento das letras gritadas por rugidos viscerais. O conteúdo e organização das letras das canções de “Procession of Ghosts” comprovam mais uma vez que nada foi deixado ao acaso – tudo nesta obra foi cuidado ao pormenor. A temática é lançada com o tema de abertura – “Lapsarian – Fallen from the skies / The spirits will arise / Fallen without belief / The ghosts have come / to relief us all”. O lapsarianismo consiste numa doutrina da teologia calvinista que aborda a ordem lógica dos decretos divinos anteriores à criação do mundo, segundo a qual Deus terá decretado a queda de toda a humanidade. Um conceito que envolve redenção e predestinação, remete-nos para a ideia do Triunfo da Morte acompanhado pela visão do Juízo Final, ou para a fantasia da Dança Macabra e todo o misticismo implicado – duas temáticas abordadas desde a antiguidade clássica à Idade Média, até à arte contemporânea em obras de Baudelaire, Don de Lillo ou Ingmar Bergman na realização do filme “O Sétimo Selo”.

“Procession of Ghosts” é o culminar de dez anos de trabalho, marcados pela gravação de cinco álbuns de originais, num registo muito esclarecedor e lúcido que evidencia arte, génio, e experiência. Um álbum a considerar nos habituais balanços e listas que se avizinham.

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