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Daemonarch: invocação da Lei de Talião

Paralelamente à promoção de “Sin/Pecado”, um disco que não fora muito bem recebido em alguns mercados, os Moonspell começaram a desenvolver um outro projecto – o muito secreto Daemonarch.

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«O disco de Daemonarch sempre foi um grande mistério.»

Fernando Ribeiro in “Lobos que foram Homens”, de Ricardo S. Amorim

Chegados a 1998, os Moonspell já tinham na sua discografia três álbuns importantes e diferentes entre si. “Wolfheart” (1995) ainda carregava a aura black metal e o misticismo ocultista e pagão, “Irreligious” (1996) abrandava e tornava-se um registo pioneiro do dark metal e “Sin/Pecado” (1998) enquadrava-se ainda mais no metal gótico com todo um conceito mais filosófico do que antes.

Paralelamente à promoção de “Sin/Pecado”, um disco que não fora muito bem recebido em alguns mercados, os Moonspell começaram a desenvolver um outro projecto – o muito secreto Daemonarch. Claramente em rota de colisão com a sonoridade que andavam a fazer naquela altura, Daemonarch era black metal à boa maneira antiga e escandinava.

«Daemonarch foi uma reacção ao “Sin/Pecado”, e a vontade que tínhamos de fazer música de acordo com as origens de Moonspell acabou por emergir», conta o teclista Pedro Paixão no livro “Lobos que foram Homens”, da autoria de Ricardo S. Amorim. Desse ímpeto nasceu “Hermeticum”, único álbum do projecto, lançado no Verão de 1998 pela Century Media Records. Com composições repartidas entre Ricardo Amorim (guitarra) e Pedro Paixão, o teclista diz que «aquilo era fácil de fazer e deu-nos muito gozo», continuando: «E só por uma questão de logística é que o Mike [Gaspar, bateria] não foi incluído nisso. O Sérgio [Crestana, baixo] só contribuiu em duas músicas, praticamente. O disco nasce com ideias novas, mas também volta a muitas coisas mais antigas.» De facto, as raízes da banda estavam lá com, por exemplo, uma versão de “Call from the Grave”, um original de Bathory, banda altamente influente na formação artística do vocalista Fernando Ribeiro. Por outro lado, os mais atentos poderão identificar em “Hermeticum” algumas bases para o que seria “Memorial” em 2006. Paixão corrobora: «A “Incubus” nasceu com uma série de samples, e acabaram por ser os mesmos samples utilizados na “Proliferation”, um tema que sai mais tarde no “Memorial”. A tecnologia estava-se a desenvolver, já tínhamos sequenciador e programámos a bateria, tudo aquilo foi feito num instante.»

Apesar do segredo, as fotos, por mais trabalhadas esteticamente que fossem, não deixavam margem para dúvidas – eram os Moonspell. Mas faltava ali alguém – Mike Gaspar. No livro de Ricardo S. Amorim, o baterista recorda: «Não participei porque nem sequer me foi dada a possibilidade, a Century Media queria o disco em tempo recorde e enquanto eles fizeram o disco de Daemonarch eu comecei a treinar taekwondo. Nós estávamos no registo do “Sin”, eu não andava a tocar aquele estilo de bateria, mas se tivesse tido oportunidade, claro que tinha tocado no álbum.»

Segundo “Lobos que foram Homens”, Daemonarch quase que tinha sido divulgado como um projecto a solo de Fernando Ribeiro, que aqui se voltou a apresentar como Langsuyar. O vocalista vetou o comunicado de imprensa. «Daemonarch não nasceu nos fiordes da Escandinávia ou num castelo da Baviera: as letras foram escritas num quarto na Brandoa e a música composta numa garagem em Alfornelos. Trve Amadora Black Metal», escreveu Ricardo S. Amorim.

«O disco de Daemonarch sempre foi um grande mistério», diz Fernando Ribeiro. «As pessoas pensam que foi uma resposta, e nunca pensei muito sobre isso, mas talvez tenha sido. Terá sido a nossa forma de dizer ‘we still got it’, pois éramos o tipo de músicos que achava ter toda a liberdade para fazer o que quisesse, e conseguíamos fazê-lo.»

Sempre pensado como um projecto e não como banda, até foram convidados para fazerem a primeira parte de Dimmu Borgir, mas a hipótese posta em cima da mesa nunca aconteceu. Uma banda quase secreta, um álbum one-hit-wonder, zero concertos – Fernando Ribeiro tem dificuldade em perceber Daemonarch. «Tinha toda aquela pompa», repara, «aquele peso ritualista de ser um disco isolado, que não seria tocado ao vivo, como Bathory, e pode ter sido uma resposta às reacções ao “Sin/Pecado”, mas foi também uma resposta a nós próprios, percebendo que aquele caminho delico-doce poderia ser uma fonte envenenada. E também era uma forma de dizer que nunca nos esquecemos das nossas influências, e até tem a nossa única versão de Bathory, pois nunca fizemos uma como Moonspell. Tinha escrito todas as letras há muito tempo, não escrevi nada de novo. Aliás, a “The Seventh Daemonarch” até era para ser uma música de Moonspell, e tinha tudo a ver, pois era um rip-off de Bathory».

“Hermeticum” ganha nova vida em 2020 com uma reedição disponível em CD, vinil e cassete. As pré-encomendas já se encontram disponíveis aqui.
O livro “Lobos que foram Homens” está disponível aqui.

(Agradecimento a Ricardo S. Amorim pela cedência das citações.)

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