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Entrevistas

Cynic: arquitectos da consciência

Paul Masvidal conta a história do novo álbum de Cynic e de como garantiu a continuidade da banda com novos companheiros.

Foto: Ekaterina Gorbacheva

O estado de desenvolvimento contínuo de Cynic enfrentou vários desafios ao longo dos anos, desde que a banda se formou em 1987, mas por entre furacões, separações e crises existenciais, Paul Masvidal mantém-se inspirado para criar.

Banda de culto, a paleta sónica de Cynic, com toda a temática espiritual que a envolve, exibe uma amplitude grandiosa que passa pelo prog, death metal, thrash metal, experimental, new age e jazz, com o álbum de estreia “Focus” (1993) a ser certificado como um clássico. Embora essa era tenha acabado cedo e transformado-se em Portal entre 1994 e 1996, os Cynic reuniram-se em 2006, lançando “Traced in Air” (2008) e “Kindly Bent to Free Us” (2014), com mais alguns EPs, compilações e singles pelo meio.

Agora, nesta recta final de 2021, o projecto liderado por Masvidal regressa aos discos com “Ascension Codes”, um trabalho que liga o artista a acontecimentos terríveis que o testaram como nunca.

O ano de 2020 fica para a história como um período tremendamente difícil para a população do planeta Terra devido à pandemia, mas para os Cynic a luta não se restringiu apenas à crise de saúde pública. Logo em Janeiro desse ano, fomos abalados pela morte prematura de Sean Reinert (48 anos), antigo baterista de Cynic e amigo de longa data de Paul. Depois, em Dezembro, chegou-nos a notícia da morte do baixista Sean Malone (50 anos). Em suma, duas perdas chocantes, não só para a família Cynic como para a comunidade metal e prog, que quase quebraram Paul Masvidal, mas as sementes já há muito estavam plantadas e o guitarrista/vocalista esforçou-se para ultrapassar a mágoa e incredulidade. «Queria fazer este disco logo após “Kindly Bent to Free Us”. Estava com energia, hiper-criativo, num completo estado de fluidez. E depois implodiu tudo», disse Masvidal através da Season of Mist.

Partes de músicas que compõem este “Ascension Codes” já estavam em gestação desde o início de 2014, com Masvidal a revelar que Reinert e Malone chegaram a ouvir elementos que acabaram por integrar a nova proposta. Vagarosamente, metodicamente e com deliberação cuidada, Masvidal finalizou o álbum em memória dos amigos, e embora honre as vidas e contribuições dos dois malogrados músicos, que representam o passado, “Ascension Codes” também valoriza a vontade de viver, como é representado ao longo de 49 minutos de música altamente cósmica e transcendental.

Com o futuro ainda incerto durante 2021, os Cynic têm em “Ascension Codes” o trajecto espiritual mais ambicioso da discografia através de novas músicas repletas de explosões coloridas, aventura, picos e vales emocionais, cenários caleidoscópicos e sequências matemáticas com Paul Masvidal a ser acompanhado pelo baterista Matt Lynch e pelo teclista Dave Mackay.

Dos novos membros de Cynic, Lynch foi o primeiro a ser recrutado após a saída de Reinert em 2015, e, através de uma dica dada por Dan Briggs (Between the Buried and Me), o baterista provou ser uma adição excelente para a banda, como Masvidal nota: «O moderno estilo híbrido de Lynch é como uma fusão de influências drum and bass com abordagens modernas ao jazz/prog. É original e é um baterista completo que constrói as suas partes com tanto cuidado como outro qualquer elemento composicional sempre presente num disco de Cynic. Cada nota e tom vindos dele nascem de precisão e inspiração.»

Substituir Sean Malone foi outra história totalmente diferente e colocar um novo baixista num álbum de Cynic foi um não redondo. Portanto, as linhas de baixo ouvidas em “Ascension Codes” são executadas pelo sintetizador de Dave Mackay, músico britânico apaixonado por piano, composição e produção. «Ele tem um vasto vocabulário harmónico de jazz, o que é preciso no contexto da música de Cynic», elogia Masvidal. «Eu sabia que nunca poderia substituir o Malone. Quem quer que encontrasse teria de tocar como ele, e isso não é justo para o outro músico. E as coisas estavam demasiado frescas para mim com a perda do Malone, portanto tive de me virar para algo novo. Com o Mackay, ouvi o seu groove e quão musical ele era por ter tocado com uma variedade de músicos e estilos. Percebi que ele poderia trazer algo refrescante, e deu-me espaço para recomeçar com instrumento completamente diferente e abdicar de ideias tradicionais que eu tinha quanto ao que as linhas de baixo em Cynic deviam soar. Em última análise, o Mackay excedeu as expectativas, com uma verdadeira consciência do papel de um baixista num contexto de trio progressivo ao manter a harmonia enquanto cria uma voz independente e dinâmica nesse espaço. O Mackay possui uma rara combinação de habilidades e uma onda que encaixou no Lynch com sons como uma secção rítmica vinda do futuro. Mais, o seu sintetizador Moog oferece uma profundidade low-end que nunca se ouviu nas nossas gravações.»

Todavia, mesmo que a tragédia tenha obrigado à adição de um novo membro, Mackay já estava na mira dos Cynic quando a 5 de Dezembro de 2019 partilhou o palco com Masvidal. Nessa noite, no baixo estava Sean Malone, que no final da actuação disse a Masvidal que tinham de trazer Mackay para o próximo disco de Cynic. E por razões tristes assim foi.

“Ascension Codes” foi misturado e co-produzido por Warren Riker, que já tinha colaborado com Cynic (na altura de “Traced in Air”) e com o próprio Paul Masvidal na sua trilogia acústica a solo. O mentor conclui: «O Riker é um feiticeiro que entra na música e que se compromete. Expande fronteiras como misturador, sempre à procura de impulsionar a sonoridade.»

“Ascension Codes” tem data de lançamento a 26 de Novembro de 2021 pela Season of Mist.

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