«É muito importante que Cruz de Ferro tenha refrãos fortes. Temos sempre os nossos fãs a cantar connosco!» Ricardo Pombo Do... Cruz de Ferro: «O maior elogio que nos podem fazer é dizer que aprenderam algo connosco»

«É muito importante que Cruz de Ferro tenha refrãos fortes. Temos sempre os nossos fãs a cantar connosco!»

Ricardo Pombo

Do centro de Portugal com Portugal ao centro, os Cruz de Ferro velam as suas armas ao som do heavy metal que criam, com a batalha do amanhã a ferver no coração e na alma. “Leão dos Mares” é a nova proposta discográfica da banda de Torres Novas e o seu aparente foco é Afonso de Albuquerque, o Júlio César do Oriente, mas todos sabemos que ouvir Cruz de Ferro é como estar numa aula de História – por isso, dos Descobrimentos vamos mais atrás, até à fundação de Portugal, com Gonçalo Mendes da Maia, tutor de D. Afonso Henriques que, reza a lenda, derrotou os mouros em Beja com 90 anos de idade. «As propostas temáticas ficam a cargo do historiador Eurico Dias», diz-nos o baixista João Pereira. «É ele que nos propõe os temas e desenvolve o grosso da letra. Não existe uma linha temática ou conceito por si neste trabalho. O que existe é uma linha musical que retrata os Cruz de Ferro de 2020, que é acompanhado por estas letras. Gostamos de trazer alguns episódios da nossa História, que se afiguram menos conhecidos, como aliás o fizemos com o D. Duarte de Almeida, o Decepado, que deu o mote à capa do álbum “Morreremos de Pé” [2015]. Desta vez, abordamos concretamente estas duas figuras históricas mas também passamos por outros costumes, como o nórdico abandono dos proscritos na “Nau dos Loucos” ou o ritual de velar as armas na véspera da batalha [“Velada de Armas”]

Cruz de Ferro é uma banda de heavy metal, disso não há dúvida, mas com “Leão dos Mares” incorporam novidades que dão muita cor às suas presentes músicas, como blast-beats, segmentos de death metal e algum groove metal. «Os Cruz de Ferro têm tido ao longo dos anos uma evolução natural na composição das suas músicas e também senti uma evolução enquanto compositor», esclarece Ricardo Pombo, vocalista, guitarrista e membro original. «Nunca quisemos estar muito presos a um rótulo, e, apesar de na altura do “Guerreiros do Metal” [2017] termos ficado muito conotados com o heavy metal tradicional, a verdade é que o álbum “Morreremos de Pé” já mostra uma abordagem bem diferente do nosso heavy metal. E músicas como a “Imortal” são disso um exemplo! Neste novo trabalho decidimos realmente diversificar mais as músicas e, acima de tudo, conseguirmos uma sonoridade mais actual. Saliento também o excelente trabalho de bateria do Bruno e o sangue novo do guitarrista Riccardo Teixeira, que vieram ajudar bastante a conseguirmos o objectivo pretendido! Acho que este trabalho é o mais coeso da banda. Foi importante mantermos o nosso ADN, e as pessoas perceberem logo que é Cruz de Ferro que estão a ouvir – essa personalidade da banda é um dos nossos pontos fortes! Existe neste momento uma grande diversidade de gostos no seio da banda – apesar de ser eu a fazer as músicas, cada um consegue meter um pouco da sua identidade pessoal na execução do seu instrumento, e um bom exemplo disso são os ritmos do Bruno Guilherme, que é um apreciador de black metal, e a maneira de tocar guitarra do Riccardo [Teixeira], que é um apreciador de metal mais moderno.»

Enquanto a táctica para a batalha foi inteligentemente modificada e melhorada em relação à ortodoxia para desbaratar os cépticos, o grito de guerra continua o mesmo: altivo e memorável. O marchar seguido do trote é importantíssimo para organizar as fileiras e encarar o inimigo, mas a rixa, quanto todos os corpos se encontram a brandir armas, é o clímax. Na música também é assim: a entrada e as primeiras estrofes preparam e criam antecipação para o refrão, o pico da emoção. «Uma das primeiras coisas que me fascinou no heavy metal, quando comecei a ouvir com apenas dez anos, foi precisamente os refrãos cativantes que eram normais no metal mais clássico», entusiasma-se Ricardo Pombo. «Aquela ansiedade de estar a ouvir um vinil pela primeira vez, seguir as letras sempre à espera que chegasse o refrão e ver até que ponto a música crescia! Para mim é muito importante que Cruz de Ferro tenha refrãos fortes, e, para isso, o truque que costumo usar quando componho uma música é imaginar o refrão a ser cantado pelo público, que é outra das nossas imagens de marca quando tocamos ao vivo. Temos sempre os nossos fãs a cantar connosco! O aspecto melódico é essencial no nosso som, tento sempre que haja um bom equilíbrio entre peso e melodia.»

«Já nos conotaram com ideologias fascistas, extrema isto, extrema aquilo. Uma vez até nos apelidaram de uma cambada de bebedolas! Dizem tudo.»

João Pereira

Portugal sempre foi um país de death e thrash, e cada vez mais black metal nos últimos anos. O heavy metal, especialmente o do underground, fica invariavelmente um pouco para atrás. Por exemplo, sabemos que Espanha tem mais população, mas a verdade é que o heavy metal lá tem mais peso do que em Portugal, e isso vê-se pelo público que vai aos concertos, em maior número pelas terras vizinhas do que por cá. João Pereira não se mostra muito preocupado, pois acha que «existe espaço para todos e cada banda escolhe o estilo em que se exprime melhor». Continua: «Parece que o heavy metal mais clássico tem perdido algum entusiasmo por cá, havendo uma maior prevalência de outros géneros. Não acho que nos enquadremos nessa categoria. Aliás, no panorama nacional, estaremos mesmo numa categoria única. As nossas harmonias melódicas recordam o heavy metal, mas os riffs não. Em que metal encontras uma bateria destas? A voz, e cantar em português, isola-nos num patamar único no metal nacional. Se isto é bom ou mau, fica para quem nos ouve decidir. Quando tens uma sala com o público de braços no ar a entoar os teus temas, isso só significa que o teu som está vivo e de saúde, seja qual for o estilo. Não me preocupa qual o estilo que terá maior expressão, desde que exista diversidade na música, e se apenas ouvires black ou thrash estás a deixar de lado muitas boas bandas.»

Para o fim deixámos um assunto inflamatório, talvez não tanto para a própria banda mas para a sociedade que opina a toda a hora. Confunde-se patriotismo e narrativa histórica com nacionalismo e fascismo, e bandas com conceitos como os de Cruz de Ferro são muitas vezes conotadas ao extremismo nacionalista. João Pereira atira de imediato quase sem preparar o arco: «Hoje podemos dizer tudo atrás de um teclado – as maiores verdades mas também as maiores barbaridades. Já nos conotaram com ideologias fascistas, extrema isto, extrema aquilo. Uma vez até nos apelidaram de uma cambada de bebedolas! Dizem tudo. Cada um vê o que quer ver.» Mas nada que o apoquente, como sublinha: «Quem nos conhece sabe que não incutimos quaisquer ideologias, políticas ou religiosas, à nossa música. Sempre fomos bem recebidos de norte a sul do país, sem quaisquer reservas. E, por certo, as nossas letras são hoje mais ricas em léxico, em figuras e detalhes históricos do que em muitas outras bandas. Talvez o maior elogio que nos podem fazer será dizer que aprenderam alguma coisa connosco. E isso não é de somenos.»

Lê a review a “Leão dos Mares” aqui.