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Cradle of Filth e “Existence Is Futile”: a morte é certa

Dani Filth sobre a criação de “Existence Is Futile” em isolamento, a nova face sonora da banda e o regresso de Doug Bradley à narração.

Foto: James Sharrock

«Todos sabemos que vamos morrer, portanto mais vale satisfazer a vida enquanto a temos.»

A comemorar três décadas de existência como Cradle of Filth (CoF), a banda de Suffolk é uma das gigantes incontestáveis do universo metal. Soberbos fornecedores de um metal extremo negro com raízes profundas no terror gótico e no ocultismo fantasioso, o grupo liderado por Dani Filth já passou por tumultos e provações, mas também por muitos e valiosos sucessos que garantiram uma reputação formidável.

De trabalhos primitivos, como a maquete “Total Fucking Darkness” (1993) que exibe a escola death metal, à maturidade ainda jovem de “The Principle of Evil Made Flesh” (1994), passando pelas abordagens conceptuais e teatrais de “Cruelty and the Beast” (1998) ou o sucesso mundial de “Nymphetamine” (2004), os Cradle of Filth foram construindo uma tendência de grandeza, tornando-se assim, ao longo dos anos, uma das bandas mais notáveis do Reino Unido e mesmo do mundo.

Depois de alguns passos em falso, como “Thornography” (2006), os CoF foram reencontrando a confiança e um som moderno com reminiscências do passado que os fãs tanto desejavam, resultando daí discos aplaudidos como “Hammer of the Witches” (2015) e “Cryptoriana – The Seductiveness of Decay” (2017). Tais conquistas levaram os britânicos a percorrerem o globo até que a pandemia travou tudo repentina e assustadoramente, mas, e apesar das consequências negativas, isto tudo só fez com que começassem a trabalhar arduamente num lançamento sucessor que fosse tão ou mais monumental como os seus pares mais recentes. Eis que surge “Existence Is Futile”.

Gravado durante 2020 em plena pandemia e isolamento no Grindstone Studios com o guru Scott Atkins, o novo tento discográfico dos CoF apresenta uma sonoridade altamente reconhecível, com composições perversas e brutais, e exibe também uma toada contemporânea com alguma reinvenção que flui com uma apaixonante facilidade.

«O álbum anterior era muito ornamentado e desconfortável, e serpenteava por todo o lado», nota Dani Filth através da Nuclear Blast. «Tentámos verter todos os ingredientes dos discos de Cradle num só álbum. E com isso fora dos nossos sistemas, desta vez empenhámo-nos em experimentar um pouco [com “Existence Is Futile”] – embora eu deteste essa palavra, porque sabes o que acontece quando bandas com uma boa continuidade anterior anunciam que vão experimentar! Habitualmente falha-se redondamente! [risos] Naturalmente, há músicas estupidamente brutais no disco, mas depois mandamos para a mistura algo mais baladeiro. Mas apesar dos extremos prevalecerem, continuámos a querer fazer algo realmente cativante. Portanto, também há – deus nos livre – coros de bradar aos céus!»

Sustentado por uma produção enorme e orgânica, “Existence Is Futile” é facilmente um dos álbuns mais inquietantes dos ingleses em alguns anos. Fugindo um pouco da narrativa por demais conhecida, que evoca a noite, o vampirismo e a bruxaria, “Existence Is Futile” debruça-se no abismo mortal e inevitável destruição da vida no planeta Terra que, adequadamente, releva o pesadelo que a humanidade tem vindo a enfrentar em 2020 e 2021. Ainda assim, Dani Filth insiste que não antecipou nenhuma pandemia global quando as músicas novas começaram a ser escritas.

«O álbum é sobre existencialismo, pavor existencial e medo do desconhecido.»

«O álbum é sobre existencialismo, pavor existencial e medo do desconhecido. O conceito não foi criado pela pandemia. Escrevemos tudo antes disso começar, mas a pandemia é a ponta da cotonete em relação à maneira como o mundo avança. Acho que o título soa um pouco mais mórbido. Mas é mais sobre reconhecer e dizer que tudo é permitido porque nada importa, o que reproduz a máxima de Aleister Crowley. Todos sabemos que vamos morrer, portanto mais vale satisfazer a vida enquanto a temos.»

Conceito e realidade lado a lado, Dani Filth confessa depois que o isolamento do resto do mundo foi o melhor incentivo para se cumprir esta nova tarefa. «Passávamos o dia inteiro no estúdio e não víamos ninguém, e depois voltava para casa através de uma terra totalmente deserta. Parecia que eu e o Scott existíamos num quarto auto-controlado. O sentimento foi excelente mas muito surreal. Trabalhámos durante todo o Verão, quando o clima estava fabuloso. Era só eu e o Scott, durante boa parte de cinco meses, a trabalhar nos confinamentos! O bom disso foi que, enquanto lá estávamos, pelo menos três das músicas foram alvo de uma reformulação completa. Ouvi as maquetes recentemente e pensei: ‘Caraças, por que é que não pusemos isto no álbum?’ Mas pusemos, só que lhes demos uma mudança total. Portanto, foi um bom resultado acidental do confinamento.»

Sonicamente falando, “Existence Is Futile” pode ser tranquilamente considerado um dos discos mais poderosos e dramáticos da banda, combinando a brutalidade anteriormente mencionada com arranjos labirínticos e bombásticos para que vivamos a melhor representação possível do que é Cradle Of Filth hoje em dia.

«O Scott inclinou-se a fazer um álbum que soasse o mais ao vivo possível», conta Dani. «Também trabalhámos para que os arranjos das músicas fossem bastante concisos. Se houvesse uma pitada de confusão, nós removíamo-la. Aspirámos fazer com que o “Existence Is Futile” fosse sonicamente massivo com o máximo de claridade, especialmente quando as músicas vêm atrás de ti a milhões de milhas à hora. “Crawling King Chaos”, “Black Smoke Curling from the Lips of War” e “The Dying of the Embers” são dignos atestados desse resultado.»

E porque as novidades não se encerram apenas na nova moldura sonora dos CoF, há repetições que são sempre bem-vindas – falamos então do regresso de Doug “Pinhead” Bradley, da saga “Hellraiser”, à narração no tema “Suffer Our Dominion” e na faixa-bónus “Sisters of the Mist”, que finaliza a trilogia iniciada com “Her Ghost in the Fog”, do álbum “Midian” (2000).

«Para isto tivemos alguma hesitação em alistar o nosso amigo e actor Doug Bradley para repetir o seu papel narrativo», revela Dani. «O Doug mora em Pittsburgh, portanto dirigimos a sua narração através de Skype desde o seu estúdio local. Ele adopta um papel quase à David Attenborough em “Suffer Our Dominion”, que é possivelmente a música politicamente mais astuta que escrevemos recentemente. Como banda, geralmente esquivamo-nos da política, mas é algo que tinha de vir cá para fora – pelo facto de que estamos a f*der a nossa ecologia e precisamos desesperadamente de falar da situação…»

Arrojado, corajoso, extremamente imaginativo e pesado, “Existence Is Futile” tem data de lançamento a 22 de Outubro de 2021 pela Nuclear Blast.

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