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Cradle Of Filth “Cruelty and the Beast”: crueldade bela e bestial

Os primeiros dez anos da carreira dos Cradle Of Filth são de um pináculo criativo inegável e invejável. Na maré do black metal norueguês e da transformação inglesa do death misturado com doom metal (Paradise Lost, My Dying Bride, Anathema), os jovens Cradle Of Filth combinavam death metal e teclados, eternizando tal conjuntura na demo-tape “Total Fucking Darkness”. Todavia, a sonoridade rapidamente se altera e, em vez de death, temos cada vez mais black metal no debutante “Principle of Evil Made Flesh” (1994), mais gótico em “Dusk and Her Embrace” (1996) e mais precisão/maturação em “Cruelty and the Beast” (1998), que em 2019, com um ano de atraso devido a problemas legais, ganha uma nova vida com uma versão “Re-Mistressed”, uma reedição que se deve não só à celebração dos 20 anos do disco, mas também à ideia de se dar uma superioridade auditiva, já que, como muitos de nós temos vindo a notar nas últimas duas décadas, a captação da bateria não fazia jus à perfeição executante de Nicholas Barker, tido sem dificuldades como um dos melhores bateristas de black/death metal.

Enfeitiçado pela macabra história/lenda da condessa húngara Erzsébet Báthory, Dani Filth & Cia. elaboraram assim, com “Cruelty and the Beast”, o primeiro álbum conceptual de Cradle Of Filth, o que se repetiria em 2003 numa reinterpretação de acontecimentos descritos no Velho Testamento com “Damnation and a Day” e em 2008 com Gilles de Rais como inspiração de fundo para “Godspeed on the Devil’s Thunder”.

Lançado a 5 de Maio de 1998, pela altura em que banda era detida no Vaticano, Dani Filth conta, num texto presente na edição de 2019, que “Cruelty and the Beast” é «historicamente astuto e ficcionalmente correcto», sendo o resultado final proveniente de «um ano de trabalho de amor doloroso, um ano de intensa composição no meio de popularidade crescente e distracção».

Portugal acaba por estar ligado a “Cruelty and the Beast” porque foi com uma garrafa de vinho do Porto que Dani Filth soltou a voz, resultando numa «lendária ressaca no dia seguinte».

Originalmente iniciado através de um single na gaveta, de nome “Cruelty Brought Thee Orchids”, mais temas surgiram e acabámos então por estar perante um conceito voraz, belo e sexual, mas também sangrento e horrorífico, que nos ofereceu das melhores letras escritas por Dani Filth. Musicalmente, e o que será obviamente discutível, o terceiro disco dos britânicos poderá ser visto como o magnum opus que se materializa no gothic black metal melódico de faixas como “Thirteen Autumns and a Widow”, na fúria de “Desire In Violent Overture” ou na teatral “Bathory Aria”. «A música era um diorama perfeito para o drama revelador das letras e a banda fez um trabalho monumental na composição de canções que possuíam uma narrativa fluida», escreveu Dani Filth, caracterizando o material como «elegante, romântico, vicioso, delicioso».

Gravado no estúdio DEP International, que agora não passa de um parque de estacionamento, era Lecter (teclista) quem transportava a banda na sua carrinha, e Dani relembra outros episódios cómicos como quando, com Nicholas Barker, comeu cogumelos mágicos enquanto via filmes de Vincent Price ou quando Ali Baxter (UB40) estava a apreciar o que ouvia durante a sessão de mistura. Numa outra história, Portugal acaba por estar ligado a “Cruelty and the Beast” porque foi com uma garrafa de vinho do Porto que Dani Filth soltou a voz, resultando numa «lendária ressaca no dia seguinte». Ainda assim, a «memória mais encantadora» presente na mente do líder do grupo prende-se na participação de Ingrid Pitt (actriz no filme “Countess Dracula” de 1971) que emprestou a sua voz para a narração ouvida em “Bathory Aria”. Dani recorda: «Enervada por estar atrasada e claramente a sentir-se fora do seu espaço, ela acertou as falas assim que se ambientou a toda a gente que, ali sentada, estava agarrada a cada palavra sua. Foi uma óptima tarde na sua companhia teatral; a participação de Ingrid no disco cimenta enfaticamente a ponte entre as nossas músicas e o cinemático.»

“Cruelty and the Beast” chegaria ao top 50 de várias tabelas europeias, incluindo a almejada inglesa, e instalava fortemente os Cradle Of Filth como uma das bandas mais importantes e relevantes com origem no Reino Unido. Seguir-se-ia “Midian” (2000), álbum que comummente é visto como o encerrar de uma era que só seria reavivada nos anos 10 do Séc. XXI com os discos “Hammer of the Witches” (2015) e “Cryptoriana – The Seductiveness of Decay” (2017).

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