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COVID-19: como afectará o underground português?

O dia 2 de Março de 2020 fica marcado na História Contemporânea de Portugal como o dia em que a mais ameaçadora pandemia da última década entrou oficialmente no país.

C. Freitas (Notredame Productions), M. Fernandes (Bunker Store), Rick Thor (Ravensire, Filii Nigrantium Infernalium – foto: Marco Marouco)

O dia 2 de Março de 2020 fica marcado na História Contemporânea de Portugal como o dia em que a mais ameaçadora pandemia da última década entrou oficialmente no país. O homem que deu entrada no Hospital de São João, no Porto, com sintomas que mais tarde se confirmaram ser de Covid-19, tinha estado a trabalhar em Valência, Espanha, e terá sido lá infectado. Uma irónica finta do destino, quando todos os olhos estavam virados para quem regressava ou vinha de Itália, país onde a situação estava rapidamente a fugir ao controlo das autoridades de saúde.

«Abanou totalmente o meu quotidiano.»

Manuel Fernandes, da Bunker Store, sobre a pandemia

O portátil e alguns discos
Tinham passado dois meses desde que a China tinha reportado um surto de casos de pneumonia viral na cidade de Wuhan, na província de Hubei, e cuja origem foi identificada num novo coronavírus. Nessa altura, as notícias eram longínquas, os sinais de alarme eram ainda tímidos e o underground nacional estava longe de imaginar o terramoto que o viria a abalar.

«Sempre pensei – desde as primeiras notícias e erradamente – que o surto seria localizado, e que nunca chegaria à Europa e outras partes do mundo», diz Manuel Fernandes, proprietário da loja Bunker, ponto de paragem obrigatória na cidade do Porto para consumidores de underground. «A consciência foi tomando forma pelo acompanhar dos serviços noticiosos, mas sempre de forma gradual e nunca pensando que atingiria esta dimensão e quais serão as consequências futuras», continua. E as consequências, no caso de Manuel, foram nefastas. «Abanou totalmente o meu quotidiano. Tenho uma loja física, dedicada à venda dos formatos físicos musicais, que se encontra fechada desde o dia 20 de Março. Está localizada num centro comercial (C.C. Invictos) que foi encerrado compulsivamente na totalidade pela polícia, quando a pandemia começou a alastrar no nosso país, e foi decretado o Estado de Emergência. Aquando do fecho, apenas consegui resgatar o portátil e alguns discos. Agora, tenho tempo para organizar o stock e para lançar os discos nas plataformas de venda online, e não tenho acesso ao stock. A nível financeiro e empresarial tem sido terrível, com um afundamento nas vendas. Todavia o facto de ter uma estrutura legal criada, poder-me-á, eventualmente, dar acesso a algum tipo de apoio estatal. A ver vamos.»

«A quarentena virou a minha vida do avesso.»

Carlos Freitas (Notredame Productions)

Actividade parada a 100%
Se a vida de Manuel Fernandes foi praticamente posta em pausa, a de Carlos Freitas, fundador e gestor da Notredame Productions – que detém o Side B Rocks em Alenquer e organiza o festival Under the Doom, por exemplo –, não teve um destino muito diferente. «Todos os concertos que tinha em agenda entre os meses de Março e Agosto foram cancelados. Estamos a falar de quinze eventos em salas nas cidades de Lisboa, Porto, Leiria e Algarve, a grande maioria deles com bandas internacionais, que não são propriamente underground», refere. «A juntar a esses, foi toda a programação do Side B Rocks dentro do mesmo período, qualquer coisa como cinquenta e oito bandas que estavam agendadas para todos os fins-de-semana, e o encerramento do estabelecimento até novas ordens governamentais.»

E isto significa que, não apenas terão de ser feitas devoluções de dinheiro de ingressos, como existe um trabalho adicional de cancelamento de reservas de voos, dormidas, catering e todos os agendamentos ligados a cada produção, como se deita para o lixo todo o trabalho de organização e agendamento de produções que estavam anunciadas. Freitas não tem meias-palavras: «A quarentena virou a minha vida do avesso.»

«Cá estou em casa, em prisão domiciliária solitária há semanas, e tenho um novo itinerário diário.»

Rick Thor (Filii Nigrantium Infernalium, Ravensire, Perpetratör)

A entrega ao underground não tem abrandado
Rick Thor, baixista e vocalista de várias bandas nacionais – Filii Nigrantium Infernalium, Ravensire e Perpetratör –, foi apanhado pelo anúncio da quarentena… fora do país. Mais propriamente na Grécia, onde ia tocar com os Ravensire no festival Up The Hammers, numa situação que o próprio classifica como «já in extremis». E explica: «O festival foi cancelado mesmo em cima da hora. Passámos lá uns dias e ainda deu para visitar uns museus e tal, mas muito rapidamente tudo ficou interditado. Houve bandas que vinham a caminho e voltaram para trás. Creio que foram os Throne of Iron que estavam já a fazer escala na Suíça quando o Trump anunciou o fecho das ligações aéreas e regressaram imediatamente. Isto fora as bandas que tinham vindo a cancelar nos dias anteriores. Nós próprios tivemos de comprar voos para abreviar a estadia, no meio daquele caos.»

Para Rick Thor, arqueólogo e funcionário de um museu arqueológico em Sintra, o underground e a música não são o seu sustento. Por isso, as alterações provocadas pela Covid-19 foram mais ao nível de rotinas do que propriamente de incerteza em relação ao seu futuro profissional. «Neste momento cá estou em casa, em prisão domiciliária solitária há semanas, e tenho um novo itinerário diário. Estou aqui na sala a ouvir música, depois vou mandar uma mija à casa-de-banho, a seguir vou cozinhar o almoço… Mas na realidade não me faltam coisas para fazer.»

Rick divide agora o seu tempo entre arrumações adiadas, dactilografar («uma entrevista gigante que recentemente fiz ao Mantas»), redigir críticas discográficas e gravar as suas partes num novo disco. «É um projecto novo de speed heavy thrash ou algo por aí… Talvez um bocadinho à Iron Angel. Está tudo feito, menos o baixo. Espero desembrulhar a coisa desta maneira», diz. «Portanto, o confinamento não tem abrandado a entrega ao underground. Até me tem dado algum tempo extra para isso

«Não há dinheiro a fazer no metal que eu ouço.»

Rick Thor (Filii Nigrantium Infernalium, Ravensire, Perpetratör)

O underground é mais do que concertos
Nesta altura, convém fazer aqui um parêntesis para definir underground. É que, nos dias que correm, a barreira entre underground e mainstream é, se não ténue, etérea e imaginária. Rick Thor concorda: «Tenho uma certa dificuldade em saber já exactamente o que é underground ou não, e mais, o que é underground metálico. Creio que as acepções que ora grassam são muito mais inclusivas do que aquilo que considero legítimo.»

Ainda assim, e para efeitos de isenção, chamemos underground a tudo o que se move à volta de bandas amadoras – e as próprias – e que não tenham na música a sua actividade principal. Claro que teríamos de deixar Manuel Fernandes e a sua Bunker Store de fora do conceito, mas se considerarmos o tipo de material que podemos encontrar à venda por lá, assim como os eventos que a loja apoia com a sua presença e divulgação, aceitamo-lo de volta ao círculo; a ele e a inúmeras outras lojas de discos que dão apoio de vendas a bandas amadoras, como a Piranha no Porto, a Carbono na Amadora e Glam-o-rama em Lisboa, entre algumas outras.

«No meu underground pessoal, a verdade é que o apoio de que eu e as minhas bandas realmente precisamos é sobretudo a apreciação daqueles que gostam do som», diz Rick. «Faz parte da vitalidade da cena que quem gosta compre t-shirts e álbuns. Eu bem os compro das bandas que gosto, com o prazer duplo de apoiar a banda e de ter os objectos físicos. Portanto, é um grande prazer saber que há quem goste das bandas ao ponto de gastar o seu dinheiro connosco. E claro que é um apoio, porque é dinheiro que reinvestimos em ensaios, material e em mais merchandising», refere.

«É claro que é bom que nos convidem a tocar ao vivo e que haja interesse nisso. Mas nesta altura, as bandas em que toco especificamente já não precisam propriamente de apoio para sobreviver – tocamos porque queremos, gravamos porque queremos. Não há dinheiro a fazer no metal que eu ouço. Se precisasse de viver da música, teria de tocar outros estilos, de que não gosto ou gosto muito menos. Não seria propriamente um prazer nem um acto de criação artística, seria uma forma de pagar as contas», conclui.

«A recuperação será lenta e difícil.»

Manuel Fernandes (Bunker Store)

Muito sacrifício
Apesar de ser responsável por organizar concertos para milhares de pessoas, Carlos Freitas também não vive apenas da música. «Com muito sacrifício sempre mantive um emprego, noutra área e por conta de outrem», revela. «Não é fácil conseguir gerir tudo, especialmente em épocas de muitos concertos… No entanto, também não é cem por cento sustentável viver só das actividades da música e bar. Continuam a ser trabalhos um pouco inseguros. Há fases boas e fases más, e no meu caso, com família, dois filhos incluídos, todo o sacrifício é também em especial por eles, e para que nunca lhes falte nada.»

Esta visão adulta do underground como um sustento, como um negócio viável, é algo que Manuel Fernandes partilha. E assume sem rodeios que a Bunker é um projecto de vida. «Acompanha-me há seis anos, e é nele que tenho investido todo o dinheiro que tenho – e o que não tenho, em forma de investimento – e a minha energia. Tem sido difícil, e agora que estava numa curva ascendente, em que começava a ver resultados, a amortizar coisas do passado, vem este ‘fenómeno’ deitar por terra os planos e o investimento feito. Não quero crer que dê cabo do projecto – tenho essa esperança –, mas que vai abanar de forma negativa, isso vai. E a recuperação será lenta e difícil.»

«A seguir à crise pandémica, virá a crise económica.»

Manuel Fernandes (Bunker Store)

Plano B
Manuel assume que não tem plano B delineado, mas é rápido a responder. «Passará sempre pela venda online. Se as pessoas não puderem ir aos festivais ver as bandas e visitar as bancas dos discos e do merch, e se além disso estiverem impossibilitadas de ir às lojas físicas, seja pela restrição, seja pela distância, irão procurar a música online e nas redes sociais. As bandas poderão colocar e vender directamente a partir daí.» E acredita na sobrevivência de lojas físicas, de rua, de discos, como a Bunker. «Terão um papel complementar, ao reunir os trabalhos de várias bandas e editoras, e disponibilizar um vasto catálogo aos potenciais clientes e compradores. O melómano, além de ouvir e ver online, terá sempre a vontade e o gosto de ter o formato físico, e os ouvintes de heavy metal, nas suas mais variadas vertentes, têm provado ser consumidores fiéis e completistas – mais do que em qualquer outro estilo. Depois tudo depende do orçamento que os fãs tenham disponível para gastar naquilo que gostam. E estou ciente – todos estamos – de que a seguir à crise pandémica, virá a crise económica, e grave. E todos nós teremos muito menos poder de compra. Para tudo, claro, e se eu considero a música um bem essencial – e digo isto do ponto de vista do consumidor, não do vendedor –, há outros que pensam o contrário. De qualquer maneira terão de fazer opções entre o que consideram essencial e supérfluo.»

«Avizinham-se meses negros para o mundo da música em geral, em especial nos concertos ao vivo e todo o universo do espectáculo.»

Carlos Freitas (Notredame Productions)

Futuro próximo
Carlos Freitas partilha da opinião que o pós-isolamento será um período não menos negro. Mas comunga também de uma visão pouco derrotista do lojista do norte. «Na minha opinião, avizinham-se meses negros para o mundo da música em geral, em especial nos concertos ao vivo e todo o universo do espectáculo. No entanto será só uma fase, e deverá ser ultrapassada em menos tempo do que aquilo que se teme, e que se fala por aí.»

«Este ano será ainda complicado voltar à normalidade. O governo deverá levantar o Estado de Emergência em Maio, mas irá impor restrições no acesso aos bares, salas de concertos e casas de música ao vivo. Diria mesmo que estes só deverão retomar a actividade lá para Julho, e com lotação máxima inferior a 100 pessoas – se tanto –, devendo-se prolongar por um ou dois meses. A partir daí, e no que diz respeito ao movimento mais underground, deverá voltar à quase normalidade a pouco e pouco, na esperança, claro, de que a essa altura já exista uma boa evolução na extinção do vírus, quer em casos recuperados, quer em tratamentos da infecção, tendo nós de viver com ele até à vacina.»

Rick Thor partilha as esperanças, embora com uma perspectiva um pouco diferente. «Espero que não ecluda uma miséria extremada que aliene uma grande parte da população, e que não haja uma crise violenta que sufoque os demais. Mas isto prende-se com a nossa vida na generalidade, e não especificamente com a cena metálica. Imagino que as coisas ressurjam e continuem, e que as bandas continuem a tocar… Na realidade, um mundo pós-apocalíptico, seja agora ou daqui mais um pouco de tempo, talvez seja o ideal para que o metal volte a ser selvagem. Acho que vou ouvir um pouco de Carnivore para me preparar para o pior.»

«Espero que não ecluda uma miséria extremada que aliene uma grande parte da população.»

Rick Thor (Filii Nigrantium Infernalium, Ravensire, Perpetratör)

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