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«Adoro estar a mijar na cara dos elitistas»: Corey Taylor tira pesos do peito

Depois de alguns anos turbulentos, Corey Taylor deixou os seus problemas para trás. Agora está de volta ao ringue com o primeiro álbum a solo.

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Depois de alguns anos turbulentos, Corey Taylor deixou os seus problemas para trás. Agora está de volta ao ringue com o primeiro álbum a solo.

Achas que conheces Corey Taylor?

Claro que sim. É um dos maiores personagens do nosso mundo. A grande boca do metal. O homem que gerou milhares de memes. Durante 20 anos, disse-nos exactamente o que pensa… sobre tudo. Vimo-lo a enfrentar haters, a reclamar sobre reality shows e até mesmo derrubar a Kanye West…

Portanto, quando anunciou o seu álbum de estreia a solo, “CMFT”, pensámos que seria seguro presumir que ficaria nalgum lugar entre as profundezas sombrias de Slipknot e o hino metálico da sua outra banda, Stone Sour. A 29 de Julho, Corey lançou dois singles para dar o pontapé-de-saída: o luzidio e melódico “Black Eyes Blue” e o arrogante “CMFT Must Be Stopped”. Quando o vídeo deste último chegou à Internet, os Maggots chocados uivaram para o vazio. Nele, havia mulheres a cuspir fogo e vestidas de cabedal. Letras iluminadas com três metros de altura a soletrarem as suas iniciais. Cameos de pessoal do metal – de Lars Ulrich a Rob Halford, Babymetal e Manson. Um verso dos artistas de hip-hop Tech N9ne e Kid Bookie, e, depois, o próprio Corey, em tronco nu, com um cinto de wrestling ao ombro, a rappar por cima de um bop arrogante que podia ser a banda-sonora de uma Royal Rumble. Nada discreto.

O debate online rebentou, com fãs a serem incapazes de decidir se Corey tinha acabado de entrar numa emocionante nova era ou se estava apenas a acabar com a sua carreira. Agora, Corey explode de riso com a resposta. «Todas as pessoas pretensiosas não suportam isto. Ou, mais precisamente, pessoas que detestam diversão», diz com um sorriso. «E todas as pessoas que eu pensava que iam detestar, adoraram. Adoro o facto de me estar a mijar na cara dos elitistas.»

Não intitulas o teu álbum a solo como “Corey Mother Fucking Taylor” a menos que: a) tenhas coragem; ou b) estejas à procura de uma reacção. No caso de Corey, são os dois. «Basicamente, sou eu gozar com a minha persona pública e a gozar com as pessoas que pensam que sabem exactamente quem eu sou», declara. Desde o início, deixa claro que este álbum é uma reinvenção: quer desafiar os nossos preconceitos de quem é Corey Taylor.

Dito isto, quando nos liga desde a sua casa em Las Vegas, cidade onde vive há 12 anos e que se encaixa perfeitamente na sua personalidade maior do que a vida, demora cerca de dois minutos para que a sua síndrome de soundbite infame surja. «Era só idiotas», diz, recordando a sua noite de núpcias com a esposa Alicia Dove passada no ARIA Casino na Strip, um inferno turístico que geralmente evita como se fosse uma praga. «Eu estava do tipo: ‘Mal posso esperar por simplesmente ir para casa.»

Até agora, isto é mesmo à Corey, mas a música surge como surpresa. Quando a COVID-19 atacou, enquanto a maioria das pessoas passava o tempo confinada a comer demais e a ver “Tiger King”, Corey foi para o The Hideout Studios, nos arredores de Vegas. Lá, o seu álbum a solo foi gravado, sob estrito distanciamento social, com o produtor Jay Ruston e com um grupo de amigos: os guitarristas Zach Throne e Christian Martucci (Stone Sour), o baterista Dustin Robert e o baixista Jason Christopher. Juntos, criaram um álbum que acena à essência do plug-in-and-go do rock n’ roll, com grandes refrãos e uma fanfarronice descomplicada e musculada direccionada directamente aos palcos dos festivais que fazem referência ao country e ao punk pelo meio.

«Realmente, não tinha uma visão clara [para o álbum], até que comecei a juntar as músicas», diz Corey. «E por ‘juntar as músicas’, quero dizer descobrir o que iríamos pôr no álbum, porque algumas dessas músicas são do passado. “Kansas” tem cerca de 15 anos. “Samantha’s Gone” tem 13 anos. Lembro-me de ter escrito os primeiros dois versos de “HWY 666” no 10º ano.»

Ao longo dos anos, Corey construiu um arsenal de faixas que não combinava muito com Slipknot ou Stone Sour, mas, surpreendentemente, não considerou seriamente um projecto a solo até recentemente. «As pessoas perguntavam-me sobre isso. Surgia em todas as entrevistas e com todos os fãs com quem conversei», diz. «Durante um tempo, foi do tipo: ‘Não, quão ganancioso se consegue ser? Tenho duas grandes bandas. Posso fazer praticamente qualquer participação especial que eu quiser.’ Então, quanto mais pensava sobre isso, eu achava: ‘Tenho todas estas músicas que são realmente boas. O que é que vou fazer com elas?’»

Entre os seus compromissos com Slipknot e Stone Sour, Corey sempre esteve muito ocupado para dedicar tempo e energia a um projecto a solo – mas há outra razão pela qual demorou tanto para seguir sozinho. Até recentemente, simplesmente não estava na mentalidade certa. Passou anos a lutar contra traumas pessoais. «Não conseguiria ter feito este álbum há 10 anos», diz severamente, «porque estava mesmo no meio da tempestade».

Quando encontrámos Corey no ano passado, vimos um vocalista sitiado em modo de combate a incêndios. Os Slipknot estavam prestes a lançar o ansiosamente aguardado sexto álbum, “We Are Not Your Kind”, mas as coisas no território da banda pareciam decididamente turbulentas após um período de mudança e instabilidade. O membro-fundador Chris “Dicknose” Fehn deixou a banda sob uma nuvem de animosidade e, mais tragicamente, a filha do percussionista Shawn “Clown” Crahan, Gabrielle, faleceu com apenas 22 anos.

Corey também estava em péssimo estado. Não estava apenas a recuperar de uma cirurgia ao joelho, mas também estava a promover um disco que catalogou um dos momentos mais difíceis da sua vida. Em 2017, entrou em profunda depressão após a separação amarga da sua segunda esposa, Stephanie Luby, mas devido aos compromissos de digressão para o sexto álbum de Stone Sour, “Hydrograd”, não teve tempo para realmente o processar. Para aumentar o peso emocional, pouco antes do lançamento do álbum, Corey apareceu no programa de TV norte-americano The Therapist, em que se abriu pela primeira vez sobre ter sido abusado sexualmente quando era criança. Sem surpresa, passou a digressão de “Hydrograd” «em estado de choque e a tentar descobrir quem porra era».

Quando se tratou de gravar “We Are Not Your Kind” com Slipknot no início de 2019, Corey despejou na música cada gota de desilusão, dor e raiva após o divórcio, uma catarse que agora descreve como «trabalhar com uma espécie de PTSD [N.d.T.: perturbação de stress pós-traumático]».

«Tenho sido reticente para entrar em muitos detalhes sobre o meu relacionamento anterior, mas era muito negro, muito tóxico e terminou mal», diz. «Decidi purgar. Tinha de o fazer. Tinha de deixar tudo sair e não conter nada. Como fui capaz de fazer isso, fui capaz de dar substância e peso à maneira como me sentia, as coisas pelas quais passei e todos esses problemas mentais que surgiram na sequência disso. Consegui realmente separá-los de maneira adequada, abandoná-los e seguir em frente.»

Tendo resistido à tempestade, agora, Corey consegue falar sobre coisas com uma sensação de distanciamento. Admite que permaneceu no seu relacionamento anterior durante muito tempo, sabendo que não conseguia salvá-lo, mas uma teimosia, que agora considera como «estoicismo do Centro-Oeste», impediu-o de parar. «Não queria sentir que tinha falhado duas vezes, embora sejam necessários dois para estragar alguma coisa», diz. «Não queria sentir que não tinha dado tudo o que podia. A coisa boa que saiu desse casamento é a minha filha. Isso é uma coisa que posso agradecer a esse relacionamento. Mais nada.»

Por mais dolorosos que sejam os rompimentos, raramente são uma completa perda de tempo, e Corey admite que foi um processo de aprendizagem. «Às vezes, não tens de aguentar. Às vezes, se o teu instinto está a dizer que as coisas estão más, ouve o teu instinto. Ignorei durante um tempo, a tentar fazer a coisa certa – seja lá o que for. Às vezes, a ‘coisa certa’ não é a coisa certa para ti.»

Demorou muito até que se sentisse ele mesmo novamente. Fez terapia, o que o ajudou a identificar e a erradicar presenças tóxicas na sua vida, incluindo o vício nas redes sociais. Em 2017, Corey costumava envolver-se em conversas e discussões com fãs aleatórios no Twitter, enquanto espalhava a sua vida privada no Instagram, partilhando de tudo, desde selfies no ginásio a vídeos a cozinhar e a peregrinação diária ao Starbucks. Porém, por detrás da aparência, revela que estava realmente à procurar de um escape.

«Foi, durante muito tempo, a minha única fonte de consolo», diz. «Como a minha vida pessoal era tão desprovida de sentimento de apreciação, o único lugar em que senti que tinha algum contacto real com as pessoas era nas redes sociais.»

Há um ano que não as usa, e tem sido brilhante para a sua saúde mental. «Foi uma das melhores coisas que podia ter feito», diz. «Tenho um amigo que gere o meu Instagram e o Twitter. Agora, olho para isso como uma camada extra de promoção. Digo-lhe para pôr lá coisas, mas fico longe disso e não leio os comentários. É um grande gatilho para a minha personalidade viciante.»

Falando-se agora com Corey, voltou ao seu carácter habitual e impetuoso: enérgico, excitável e cheio de positividade para a sua vida e nova música. Em Outubro de 2019, casou-se com Alicia Dove, líder do grupo de dança Cherry Bombs – as senhoras que cospem fogo no vídeo para “CMFT Must Be Stopped” –, com quem começou a namorar quando as Bombs, ao lado de Steel Panther, deram suporte aos Stone Sour na sua última digressão pelos EUA em 2017.

«Surgiu uma química instantânea, mas eu estava numa situação tão difícil que não estava pronto para namorar», diz, recordando as ocasiões em que ele e Alicia se encontraram antes da digressão. «Foi difícil afastarmo-nos um do outro, mas depois avançámos rapidamente para a digressão, quando nos vimos foi tão forte como na última vez em que falámos. No segundo em que nos encontrámos, as pessoas na sala conseguiam sentir isso. No final da digressão, estávamos juntos e estamos juntos desde então.»

Inequivocamente, Corey credita o relacionamento como a razão do seu actual estado de espírito. Alicia participou nas sessões de terapia de Corey e, juntos, o par trabalhou a sua escuridão, eventualmente emergindo do outro lado.

«Ela pode muito bem ser a pessoa mais divertida que já conheci», declara com felicidade. «Ela sorri desde o segundo em que acorda até ao segundo em que vamos para a cama. Rimos constantemente. Quando tens alguém tão animado com a vida, é contagiante. Percebo que era assim que eu costumava ser há muito tempo, e ter essa recordação na cara revigora a maneira como vês a vida.»

Se a COVID-19 não tivesse apagado o calendário de concertos de todas as bandas do planeta, no momento em que escrevíamos isto, estaríamos a dias do primeiro Knotfest, dos Slipknot, no Reino Unido. Em vez disso, este é o maior tempo que Corey está fora da estrada em 20 anos, embora admita que acabou por aproveitar o intervalo. «Isto deu-me a hipótese de fazer exactamente o que gostaria de fazer enquanto estava na estrada. Tenho conseguido passar um tempo muito bom com os meus filhos», diz.

Corey e Alicia tiveram finalmente tempo para se mudarem apropriadamente para a sua casa em Vegas, que está cheia de caixas desempacotadas desde o casamento no ano passado, enquanto Corey aproveita a hipótese de sair com o filho Griff e até mesmo para assistir a um recital de dança da escola com a filha mais nova, Ryan, quando as restrições da COVID no Nevada diminuíram durante o Verão. «Obviamente, não sou dançarino, mas divertimo-nos muito», sorri. «Divertimo-nos muito, conseguimos gravar um vídeo e vemo-lo a toda a hora.»

As constantes digressões tiveram as suas repercussões. Conforme o assunto da conversa se volta para os filhos e a filha mais velha, Angeline, a fachada cavalheiresca de Corey desaparece. «Ela e eu não somos muito próximos», diz calmamente. «Não quero dizer que tivemos um desentendimento, mas apenas nos separámos há alguns anos. Eu não estava lá quando ela nasceu. Ela nasceu cedo e eu já estava no trabalho quando aconteceu. Contudo, com o Griff é diferente. Eu estive lá desde o primeiro dia. Bem como com a Ryan.»

Quando fala novamente, a tristeza na sua voz é palpável. «É difícil. É uma coisa difícil de se lidar, mas tudo em que te podes focar são as pessoas tens, que estão mesmo ali, e torcer para que o outro esteja bem.» Faz uma pausa. «Definitivamente, sinto falta dela.»

Ainda assim, Corey apega-se aos aspectos positivos. Tendo passado a maior parte da sua vida a lutar contra um certo grau de depressão ou vício, está sóbrio há 10 anos. Tendo passado por dificuldades nos últimos anos, finalmente chegou a um lugar feliz, e pode ouvir-se isso na nova música. «Toda a minha mentalidade mudou», diz. «Antes de ficar tão cheio de mijo, vinagre e zangado com merdas, eu ria de tudo. Comecei a pensar: ‘Quem se importa? Importa realmente?’»

Será que Corey quis dizer que os salad days [N.d.T.: tempos jovens, inexperientes, entusiasmantes, idealistas] a reclamar com as Kardashians e com a ‘música inferior’ acabaram? «Não significa que eu já não seja um idiota quanto a isso», ri, e, apenas por um momento, com o temperamento de antigamente, levanta a cabeça. «Mas deixei de lado a energia necessária para ficar chateado por causa disso. Para mim, no final do dia, se alguém está feliz, tudo bem. Há muitas coisas pelas quais devemos lutar e tentar melhorar, e há muitas coisas que nos tentam separar. Se há um punhado de coisas que te fazem feliz, quem sou eu para questionar? E uma vez que deixei de lado um monte de tretas negativas, isso deixou-me feliz.»

Há pouca evidência da velha bagagem em “CMFT”. Num catálogo em que se passa a maior parte do tempo a remexer-se em remorsos do passado, esta é a primeira vez que Corey olha para o futuro, com uma visão clara e sem as nuvens dos demónios que têm sido uma presença constante na sua vida até agora. «Reavaliei o meu foco nas minhas prioridades», diz. «Consegui ligar-me novamente aos amigos. Dediquei-me a fazer parte da vida dos meus filhos. O meu casamento. Passar pelo que passei fez-me apreciar o que tenho. Ao deixar de lado o peso de toda aquela merda, fui capaz de transferir essa energia positiva e entusiasmo para estas músicas. É quase como um novo sopro de vida.»

Consultar artigo original em inglês.

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