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Como Marilyn Manson continua a enganar toda a gente

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Marilyn Manson (MM) é um shock artist nato, talvez mais ainda do que Alice Cooper – o aluno ultrapassou o professor, disso não há dúvida. Desde meados dos anos 1990 que MM exalta ódios e medos nuns e devoção noutros – caso para dizer que nem toda a gente aceita sentar, ouvir e interpretar, não só as letras como a própria estética mórbida e obscura que, claro, visa chocar mas ao mesmo tempo espelhar, de forma espampanante, a distorção humana.

MM é também um mestre na famosa art of deception – fá-lo desde sempre ao utilizar títulos enganadores que em nada fazem jus ao seu rock industrial sujo e às letras irónicas, sarcásticas e cheias de metáforas. MM é, de facto, um músico interventivo, só que em vez de organizar gigantes concertos solidários, pedir às pessoas que ergam os braços pela paz ou escrever versos fáceis e bonitos, o que ele faz é surgir numa forma medonha, cadavérica e chocante ou, noutras vezes, elegante e gracioso, porque o demónio também pode vestir Prada. E o mais interessante é que, em aparições em talk shows na década de 1990, aquela figura maquilhada e com roupas góticas apresentou argumentos muito mais robustos do que os engravatados e com canudo universitário. O mundo real é o de Marilyn Manson, não é o de Ed Sheeran ou Adele.

Em Setembro de 1996, um mês antes de lançar o álbum “Antichrist Superstar”, MM revoltava o mundo com “The Beautiful People”. «O que é que queriam? Hum? Queriam telenovela, era?», retorquiu uma vez o realizador João César Monteiro quando questionado sobre o filme “Branca de Neve”. Pois bem, “The Beautiful People” não era pop, nem para as massas da música ligeira, nem era uma ode positiva sobre a beleza da humanidade. A arte do engano dava os primeiros grandes passos na carreira de MM. “The Beautiful People” era, na realidade, uma música de rock bruto com laivos de industrial que tocava na ferida das grandes corporações e dos ricos que ostracizam os desajustados. «Capitalism has made it this way / Old-fashioned fascism will take it away» – era 1996, mas podia ser 2020. Porém, com este tema, MM também foi capaz de atacar os que preferem a postura do deixa-andar: «If you live with apes man, it’s hard to be clean». Ou como dizemos por cá: se vives com os porcos, vais cheirar como os porcos. “The Beautiful People” representa, por fim, um niilismo nu, uma sociedade sem salvação: «There’s no time to discriminate / Hate every motherfucker / That’s in your way».

Poucos anos depois, em 2000, saía “Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death)”, a grande obra-prima de MM, tanto musical como conceptual. Na ressaca do massacre de Columbine, o artista, ao lado de vários outros, como KMFDM, foi abruptamente perseguido pelos media. O massacre e todas as coisas horríveis nos EUA eram culpa de Marilyn Manson, o diabo incarnado num homem. Manson ripostou como melhor sabe: com choque e música. Num disco que critica ferozmente os EUA, da família conservadora (“Disposable Teens”) ao governo policial (“President Dead”), passando pelos media que sugam qualquer ocorrência por ratings astronómicos (“Lamb Of God”), MM usou novamente a arte do engano com “The Love Song”. Uma declaração de amor? Uma balada romântica? Por aquela altura já todos sabíamos que não. Esta é, de facto, uma música de amor – de amor às armas. Eis a resposta ao massacre de Columbine: «I got a crush on a pretty pistol / Should I tell her that I feel this way? / Father told us to be faithful». E num clamor de vozes, numa parada pró-armas, surge a Second Amendment em todo o seu esplendor: «”Do you love your guns?” Yeah / “God?” Yeah / “The government?” / “Do you love your guns?” Yeah / “God?” Yeah / “The government?” / Fuck yeah». Em 2020, crianças continuam a ser abatidas a sangue frio nas escolas dos EUA, porque é fácil comprar uma arma semi-automática… Mas a culpa era de Marilyn Manson.

Décadas depois dos primeiros êxitos, MM prossegue a sua empreitada musical camaleónica e conceptualmente enganadora. Enquanto com “The Pale Emperor” (2015) surgiu com um álbum baseado em blues rock enegrecido, com “Heaven Upside Down” (2017) voltou a ser violento com títulos como “SAY10” e “KILL4ME”. Chegados a 2020, vem aí “We Are Chaos”, com lançamento a 11 de Setembro. E o que há de tão importante a dizer sobre um álbum que ainda não assentou nas prateleiras? Apenas o single homónimo do disco que, novamente, exulta a art of deception de Manson. Musicalmente pop-rock e com noções dreamy, se a voz fosse de um Chris Martin (Coldplay), as letras seriam provavelmente sobre corações partidos. Mas estamos a falar de Marilyn Manson, e o que o norte-americano faz, como tantas vezes fez, é confundir os mais desatentos. Em toda aquela beldade sonora, tão comovente e até melancólica, Manson promove uma falsa segurança numa sociedade onde as ameaças estão à vista de todos. Os comprimidos são a salvação, mas até isto origina várias interpretações: tanto podemos estar a falar de antidepressivos como de reality shows e trash TV – cada um saberá qual o melhor remédio para a sua dor. Estamos tristes, desmotivados ou desajustados? MM tem a resposta: «If you say that we’re ill / Just give us your pill / Hope we’ll just go away» – Oh, Admirável Mundo Novo! E, outra vez, escondido nas bonitas camadas de guitarras acústicas e teclados, emerge o niilismo e a extinção iminente: «We are sick, fucked up and complicated / We are chaos, we can’t be cured».

Ao fim de 30 anos de carreira, Marilyn Manson continua a perceber o mundo como ninguém e continua a enfiar-nos a realidade pela goela abaixo sem dó nem piedade. Estaremos eternamente agradecidos.

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