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Mayhem: como “De Mysteriis Dom Sathanas” mudou o metal

Mayhem é uma das bandas de black metal mais influentes do planeta, e o álbum “De Mysteriis Dom Sathanas” permanece um clássico atemporal.

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Mayhem é uma das bandas de black metal mais influentes do planeta, e o álbum “De Mysteriis Dom Sathanas” permanece um clássico atemporal.

É um álbum cuja importância, tanto dentro como fora do black metal, foi reconhecida por um manancial de bandas do metal contemporâneo, de Watain a Enslaved, e que levou Nergal, dos Behemoth, a proclamá-lo «o magnum opus do metal extremo». Mais de duas décadas depois de ter sido gravado, continua no topo das listas dos melhores álbuns por fãs de longa data do género, ao mesmo tempo que fornece inspiração primária para novas bandas cujos membros nem eram nascidos quando foi gravado. Muitos dizem que é o álbum mais importante do amplo e crescente catálogo do black metal, e muito poucos dizem que não é, pelo menos, um forte candidato a esse estatuto.

O disco em questão não é outro senão “De Mysteriis Dom Sathanas”, dos Mayhem, um trabalho marcante. É um álbum que não perdeu nem os seus devotos seguidores, nem qualquer da sua potência nos anos que se passaram.

Existem muitas afirmações ainda mais hiperbólicas (mas igualmente verdadeiras) que poderiam ser feitas em apoio a esta colecção única de músicas. No entanto, a maior prova do seu valor artístico é talvez o facto de que a discussão das suas qualidades de gravação, composição e performance continuam a superar as circunstâncias altamente notáveis da sua criação. Na verdade, é uma prova da importância dos Mayhem como força musical em que qualquer música foi capaz de superar todo o drama envolvido com a banda durante o período em questão. Pois – como a maioria dos leitores provavelmente saberá – este é também um álbum que capta a visão de um músico que não foi apenas abatido no seu auge, mas também abatido por um colega de banda que apareceu ao seu lado nesta mesma gravação.

O primeiro é, claro, o guitarrista e co-fundador dos Mayhem, Øystein ‘Euronymous’ Aarseth, que foi morto à facada no seu apartamento em Agosto de 1993 pelo segundo, Varg Vikernes, mais conhecido pelo seu projecto igualmente influente Burzum, mas também baixista de Mayhem durante a era de “De Mysteriis…”. O conflito fatal entre os dois homens é um episódio longo e complicado na história sombria do black metal que foi discutido longamente pelos fãs e pelos media durante duas décadas.

O que ainda vale a pena notar hoje, porém, é que as raízes do álbum estão intrinsecamente ligadas a dois membros que já partiram. O outro é o vocalista sueco Per Yngve Ohlin – também conhecido como Dead – e, na verdade, foi ele quem realmente criou o título: latim para “Dos Mistérios / Ritos Secretos do Senhor Satanás” é um título tirado, explicou, de um livro de ocultismo que tinha encontrado. O facto de Dead ter tirado a própria vida em 1991, e o álbum ser lançado em 1994, dá uma ideia de quanto tempo a estreia da banda esteve em gestação.

Certamente, foi longo o suficiente, pois o lendário álbum ao vivo “Live in Leipzig” (gravado em Novembro de 1990, mas lançado quase três anos depois) captou a banda (a formação era então composta por Dead, Euronymous, o baixista Necrobutcher e o baterista Hellhammer) a tocar nada mais do que metade das suas oito faixas. A aura opressiva, melancólica e sufocante encontrada naquela gravação, felizmente, permaneceria intacta após a transição dessas canções para o estúdio. A faixa de destaque óbvio, “Freezing Moon”, é um épico monocromático sombrio que permanece um favorito dos fãs até hoje – o sentimento profano e, bem, frio dessa música está também muito presente em “Funeral Fog”, “Pagan Fears” e “Buried by Time and Dust”.

Complementando essas antigas composições e, sem dúvida, dando ao álbum um carácter mais tridimensional, houve a incorporação de quatro músicas mais recentes, um pouco mais angulares e tortuosas, como a faixa-título, “Cursed in Eternity”, “Buried by Time and Dust” e “From the Dark Past”. A maneira de tocar de Euronymous tinha-se tornado um pouco mais calculada e considerada nesta altura, com a sua composição a ser significativamente influenciada pelo introvertido, mas talentoso, guitarrista Snorre Ruch, cuja abordagem única aos riffs na sua banda Thorns provou ser ridiculamente influente na cena norueguesa. Na verdade, Snorre (agora sob o nome de Blackthorne) seria incluído no grupo como um segundo guitarrista antes da gravação do álbum. Apesar de não aparecer no álbum, contribuiu com riffs inteiros de Thorns para várias músicas, com a sua presença a ser sentida não apenas durante esses momentos mas de forma mais geral através do seu impacto em grande parte do arrepiante trabalho de guitarra de Euronymous.

O seu outro papel seria reorganizar as letras de Dead em preparação para o substituto do falecido vocalista – Attila Csihar. Músico húngaro que era admirado na Noruega graças à sua curta mas seminal banda de black metal Tormentor, a sua nomeação e prestação espirituosa continuam a ser um factor determinante para o disco, o que provocou grande controvérsia na altura. Em contraste com os estilos vocais de black metal mais típicos da época, Attila introduziu uma abordagem excêntrica, sobrenatural e teatral, incorporando uma fala arrastada e oscilando entre gritos e silvos para uma forma quase operática de canto, que faz parte do seu distinto sotaque húngaro.

«Quanto à maneira de cantar, conversámos sobre como fazê-lo, claro», recorda Attila numa entrevista realizada em 2009. «Ouvi algumas gravações demo que tinham sido feitas pelo Dead e pelo [vocalista anterior] Maniac, mas eu gosto de individualismo… Portanto, quando conversei com o Euronymous no estúdio, eu disse: ‘Por que não tentamos outra coisa em vez de fazermos novamente as tradicionais vozes gritadas?’ Quando olhei para as letras da faixa “De Mysteriis Dom Sathanas”, havia uma linha em latim, por isso pensei: ‘Vamos fazer esta voz aqui.’ Surgi com os vocais baixos com mais melodias, e ele gostou tanto que fizemos toda a gravação dessa forma.»

Embora pareça um plano de longa data por parte de Euronymous, a decisão de usar Attila para esse papel provou ser uma surpresa, tanto para outros músicos da cena norueguesa como para a base de fãs dos Mayhem. Afinal, Euronymous não estava apenas rodeado de uma abundância de talentos locais, mas muitos dos vocalistas do país já conheciam as músicas do próximo álbum, tendo ouvido repetidamente uma fita instrumental que andava a circular há algum tempo.

«As pessoas ficaram um bocado chateadas por não terem recebido o telefonema», relembra Grutle, dos Enslaved, durante a mesma entrevista, «mas pensaram: ‘Bem, vai ser interessante’ – e foi! Na verdade, enquanto [o Attila] estava a fazer as vozes, o Øystein foi até à cabine telefónica, ligou-me e disse: ‘Ele canta como um padre doente, canta em latim, com sotaque, é incrível!’»

É claro que não se pode falar de “De Mysteriis…” sem se falar da percussão pujante e detalhada que o sustenta. Uma boa prestação de um dos bateristas mais conhecidos do black metal, Hellhammer (um homem que já tocou com inúmeras bandas, de Arcturus e Covenant a Dimmu Borgir e Shining), a sua bateria formidável, porém contida, é complementada por um baixo espaçoso, sombrio e estranhamente minimalista e uma produção poderosa e gloriosamente não polida. Esta última não é um factor pequeno no sucesso do álbum e foi, aparentemente, o resultado de uma quantidade considerável de trabalho por parte de Euronymous e do infame Pytten, um produtor que passou grande parte da década de 1990 a captar obras icónicas de lendas como Enslaved, Burzum, Hades, Gorgoroth e Immortal.

«O Euronymous tinha ideias específicas sobre cada instrumento e tinha ideias específicas sobre ecos», recorda Attila. «A bateria foi gravada numa grande sala de concertos, os solos foram gravados numa sala e ele andava dum lado para o outro a toda a hora, e a dizer: ‘Ok, aí está.’ Se ouvirem discos da época e depois “De Mysteriis…”, ouvirão que a produção é de longe melhor do que qualquer outra coisa.»

«O álbum inteiro foi gravado em áreas muito espaçosas», confirmou o produtor Pytten. «Øystein, Hellhammer e eu estávamos a andar dum lado para o outro, a falar sobre como fazê-lo e eu queria muito usar o palco para a bateria. Gosto muito de sons grandes – especialmente para a bateria – e reverb nos leads. Assim, a bateria foi tocada no palco, e [aquele sítio] tem nove andares, então fechámos a lateral da sala, mas mantivemos toda a altura.»

Não é apenas a bateria que utiliza um grande número de tracks. Outro ingrediente que define o álbum é a massa de guitarras com várias tracks, que criam uma enorme parede de som (ainda adequadamente gelada e pesada), um complemento perfeito para o bombardeio percussivo de tamanho semelhante. Na verdade, a combinação apenas acentua o carácter esmagador e malévolo de todo o álbum – com o efeito geral a ser um ataque denso e impenetrável aos sentidos, equilibrado apenas pelos surpreendentes toques de groove ao longo do álbum.

E esta é talvez a última coisa a sublinhar, especialmente para os recém-chegados ao disco. Embora seja inegavelmente uma obra de destaque, não é uma obra facilmente acessível – mesmo para os padrões do black metal – e não é necessariamente um álbum de entrada. Nem é para ser. É uma besta propositadamente sombria e agressiva, e que não faz concessões a estranhos – em vez disso, segue o seu próprio caminho obstinado e destrutivo sem qualquer pedido de desculpas. No entanto, dêem-lhe o tempo que merece e ficará convosco para sempre.

As entrevistas desta peça foram conduzidas originalmente para o livro “Black Metal: Evolution Of The Cult” onde aparecem de forma extensa.

Consultar artigo original em inglês.

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