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Cattle Decapitation “Death Atlas”

“Death Atlas” é um passo seguro e cauteloso no caminho traçado pelos Cattle Decapitation.

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Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 29.11.2019
Género: death metal
Nota: 4/5

Muitos ainda se devem lembrar do aparecimento do termo future metal, cerca de 1995, aquando do lançamento de “Demanufacture”, dos seminais Fear Factory. À época imaginava-se um futuro distópico no qual as máquinas se insurgiam contra a Humanidade e governavam o planeta quase sem oposição e de forma autoritária. Em 2019, quase 25 anos passados sobre a obra, o mundo como o conhecíamos é tudo menos o que foi previsto, ainda que o cenário de extermínio global seja ainda mais negro e, cada vez mais, uma certeza e não uma previsão – o que está em causa não é se irá acontecer, mas quando irá acontecer.

A ordem do dia passa por questões sociais cada vez mais complexas: vagas de refugiados um pouco por todo o globo, ascensão mais ou menos explícita de totalitarismos de direita e de esquerda, negação de factos invioláveis (a ida do Homem à Lua, a crise climática, etc.), crença em absurdos (terra plana, benesses da não-vacinação, etc.), cabeças de estados com formação pessoal, moral e academicamente duvidosas… Enfim, uma espiral descendente que se estima que culminará no próximo evento de extinção em massa, sendo que a principal espécie ameaçada é a humana.

Ámen dizem os Cattle Decapitation a isso em “Death Atlas”, um disco que nunca reunirá consenso intelectual ou artístico por factores diversos que discutiremos mais à frente. Ao contrário dos optimistas e dos zelotes da verdade absoluta, dos paladinos do bem e dos vilões, os Cattle Decapitation não só não possuem uma agenda como não andam aí para elevar o ânimo de ninguém, muito pelo contrário – o pessimismo niilista de Travis Ryan & Cia. prefere advogar que há coisas mais importantes do que lutar contra orientações políticas, contra discriminação racial e social e contra os poderes instituídos. Coisas mais importantes como avisar para a desgraça iminente que paira sobre a Humanidade, portanto.

A banda não quer mudar as pessoas, não quer apelar à mudança de mentalidades. Não. O que a banda quer é que a Humanidade se oblitere de vez e o quanto antes, até porque a palavra de ordem dos Cattle Decapitation é uma e é inequívoca: a Humanidade em geral é um cancro que floresce em metástases e que deve ser extirpado. Sem anestesia. Não há nada como o cheiro matinal a misantropia, nem mesmo o do primeiro café da manhã. No seguimento de obras maiores como “Monolith Of Inhumanity” e “The Anthropocene Extinction”, conceitualmente os Cattle Decapitation voltam a apontar as miras a nós próprios. O que mudou foram as armas, cada vez mais sofisticadas e selectas.

Mesmo com mais sofisticação, a mensagem não poderia ser mais directa com nomes de temas ou transições como “Anthropogenic End Transmission”, “The Geocide”, “The Great Dying”, “One Day Closer To The End”, “Bring Back The Plague” ou “Finish Them”. A palavra de ordem é a extinção da espécie porque a espécie o merece – simples «we desserve everything that’s coming» como podemos ouvir no tema-título. Chame-se-lhes loucos ou sanos, o que é certo é que a banda pegou num conceito praticamente único e dele fez bandeira, uma espécie de Greenpeace misturado com PETA do heavy metal contemporâneo. Musicalmente, por outro lado, a banda cada vez mais desrespeita padrões, géneros e convenções.

Os estilos que catapultaram os norte-americanos para a primeira liga do metal extremo foram o death metal e o grindcore. Ao fim de seis registos na mesma linha musical, “Death Atlas” apresenta bastantes toques de black metal nórdico, algo muito bem-vindo e que permite uma abordagem refrescada à fórmula gasta do costume. No entanto, o instrumento que causa mais fascínio neste novo disco é a voz de Travis Ryan. Como se não bastassem os guturais insanos de Ryan, o vocalista volta a experimentar como o fez em “The Anthropocene Extinction”, em que tem partes cantadas com uma voz atipicamente fina e que nos recorda do vocoder que os Cynic utilizam há décadas. Assim como com qualquer progresso, será uma característica que desagradará à maioria e que deixará estupefacta uma mão-cheia de gente. Mesmo sem essas partes mais audíveis, é claro que os restantes elementos acompanham Travis ao longo de todo o álbum.

Mesmo assim, o desempenho musical em “Death Atlas” é do mais alto nível e nunca ouvimos os Cattle Decapitation desta forma, tão coesos, tão agressivos e, ao mesmo tempo, tão progressivos. Após a intro, “The Geocide” entra a matar com os tais ares de black metal que depois adentram pelo pântano do death metal, embora técnico. Começam as vozes cantadas e o trabalho ganha uma aura única. “Be Still Our Bleeding Hearts” poderia ser uma homenagem aos Origin, ainda que menos caótica, o que indica death metal técnico de qualidade e alta velocidade. “Vulturous” começa com death metal e mais tarde experimenta com mais black metal – não cru, não sinfónico, a lembrar algo entre Myrkskog e Zyklon, e onde pontua um solo que só pode ter sido negociado com o Diabo.

O disco tem vários interlúdios e nenhum é menos sinistro que o outro, o que cria mais alguma curiosidade em relação ao tema tratado. Para alguns poderá ser indesejável, mas, para os mais curiosos, são excertos curtos que ajudam a enriquecer o conceito. “One Day Close To The End” começa com um riff espesso como combustível fóssil, pouco menos do que slam death metal, o que lhe confere um ritmo e groove que ajudam ainda mais a não cair no marasmo criativo. Depois entra o refrão com as vozes cantadas e por esta altura já começam a entranhar-se, erodindo os nossos filtros auriculares pouco a pouco, mas com dedicação. “Death Atlas” decorre desta forma do início ao fim, sendo um álbum acima de sólido, mas que também não consegue ser um novo evangelho dentro da música extrema.

Para isso contribui um dos seus principais defeitos: a ausência de inspiração. É verdade que é um disco muito rico em técnica, inovação, conceito e a impressionante gama vocal de Travis Ryan… Mas sentimos que lhe falta inspiração, algo que nos leve a suspirar pelo fim dos tempos, algo que nos convença que o melhor que nos poderia acontecer neste instante seria a obliteração da nossa espécie, algo tão inspirado que nos levasse a desejar pelo nosso próprio fim. “Death Atlas” era esperado com imensa antecipação devido aos dois discos grandiosos que o antecederam, principalmente o anterior, mas, em comparação, trata-se de um registo apenas muito acima da média. Para os Cattle Decapitation é o mesmo que dizer “meh, não é mau…”.

“Bring Back The Plague” e “Absolute Destitue” fazem lembrar Emperor e Immortal a tempos, o que é fantástico. A inclusão de tantos elementos de black metal é uma aposta ganha, pois imprime maior agressividade ao som da banda, e, pasme-se, soa muito bem. “Finish Them” volta a trilhar os caminhos do slam death metal – soa bem e faz abanar a cabeça com facilidade. “With All Disrespect” é mais uma descarga de black metal nórdico impiedoso, assim como a final “Death Atlas”, que remetem de novo para Emperor. “Death Atlas” possui 14 temas que nos fazem sentir raiva, desespero e até algum medo, bem como muita melancolia e tristeza (muito graças às partes cantadas). Aplaudimos o esforço criativo e técnico dos norte-americanos da mesma forma que ficamos meio decepcionados pela ausência de uma chama que brilhe mais do que as outras, de algo que nos faça querer repetir e repetir novamente o disco. Ao fim de três audições, é certo que encontrámos uma música ou outra que nos apetecesse ouvir novamente, mas, uma vez mais, não estamos a falar de uma banda genérica da segunda liga, e sim dos Cattle Decapitation. “Death Atlas” é um passo seguro e cauteloso no caminho traçado pelos Cattle Decapitation, algo a que já não estamos habituados por parte da banda há bastante tempo. Não é uma desilusão, mas sentimos que houve algo que ficou por dizer.

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