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Como os Carcass distorceram o grindcore em novas formas repulsivas com “Symphonies of Sickness”

Com o segundo álbum “Symphonies of Sickness”, os Carcass colocaram o grindcore na trituradora – e fizeram um clássico do metal underground.

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Com o segundo álbum “Symphonies of Sickness”, os Carcass colocaram o grindcore na trituradora – e fizeram um clássico do metal underground.

«Vilely I defile, chastise, humiliate / Writhing, agonised as I violate to impregnate / With lathering soaps and suds I slowly enemize / Innards gurgulate as they’re sickly baptised…» – Carcass, “Excoriating Abdominal Emanation”.

«Era uma música de violação sobre um gajo a ser sodomizado», diz o baixista e vocalista dos Carcass, Jeff Walker, sobre a infame faixa de 1989. «Em vez de uma mulher como vítima, era um gajo para variar. Contudo, não era uma violação sexual – era mais um enema violento. O objectivo era fazer com que as pessoas se contorcessem.»

“Excoriating Abdominal Emanation” apareceu no segundo álbum do trio grindcore de Liverpool, “Symphonies Of Sickness”. Naquela altura, Jeff tinha 19 anos e uma carrada de dreads.

«Estávamos a reagir ao que percebíamos ser uma porcaria saloia, misógina e homofóbica», diz. «Parece em cheio e PC [N.d.T.: politicamente correcto], mas era o que sentíamos na altura. Parecia que o metal tinha sido tomado por uma mentalidade jock [N.d.T.: atletas do liceu]

O primeiro álbum de Carcass foi “Reek of Putrefaction”, de 1988. Gravado enquanto o guitarrista Bill Steer ainda estava em Napalm Death, é um dos álbuns mais underground de todos os tempos… literalmente.

«Foi arruinado por um engenheiro muito preguiçoso que não se importava», alega Walker. «É uma pena, porque tinha alguns riffs do caraças, [ficaram] turvos por causa da produção. Mas algumas pessoas adoram – conseguem imaginar como soam os riffs!»

Isto atraiu a atenção do influente DJ de rádio John Peel, que começou a passar coisas deliberadamente gráficas e conscientemente provocativas como “Genital Grinder” e “Vomited Anal Tract” no seu programa eclético. A capa do álbum não caiu tão bem no goto das maiores lojas de discos, pois apresentava uma colagem de carne morta real. As letras também eram uma leitura humoristicamente sinistra, com descrições clinicamente detalhadas das características menos agradáveis e fragilidades da anatomia humana.

«Nenhum de nós tinha conhecimento real dessas coisas», ri Walker. «O pai do Ken era veterinário e a minha irmã era enfermeira com um dicionário médico. O resto era apenas a nossa imaginação pueril!»

Embora Birmingham tenha sido o local de nascimento de “Reek…”, o seguinte seria enterrado numa cidade de duas ruas em East Yorkshire. Por acaso, um dos 10.000 habitantes de Driffield era Colin Richardson, um engenheiro do apropriadamente denominado Slaughterhouse Studios. O trabalho anterior de Richardson na celebrada estreia de Discharge em 1982, “Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing”, levou o proprietário da Earache Records, Digby Pearson, a contratá-lo para finalmente fornecer aos Carcass alguma qualidade sonora.

«Os Carcass disseram-me que não suportavam o som do primeiro álbum», recorda Richardson, que passou a trabalhar com Machine Head e Fear Factory, entre muitos outros, «porque parecia que estavam num armário com o microfone do lado de fora. Eles queriam tudo claro e directo».

Walker tem recordações vívidas das sessões de “Symphonies of Sickness”, que durariam apenas três semanas, entre Julho e Agosto de 1989. «Pedimos emprestada a bateria do Mick Harris, dos Napalm Death, e usámos o equipamento de baixo do Shane Embury [também dos Napalm Death]. O estúdio ficava do outro lado de uma boate onde todos aqueles Garys e Sheilas iam. A janela do nosso estúdio dava para a boate, então estávamos a gravar o álbum enquanto assistíamos aos militares da base local do Exército à porrada com os agricultores.»

«Driffield está uns 15 anos atrasada», recorda Richardson. «É claro que agora está cheia de miúdos que usam hoodies de metal, mas naquela altura a atitude em relação a eles era: a), nunca vos vimos antes, e b), tens cabelo comprido.»

Na verdade, os Carcass eram alvo de olhares de soslaio sempre que viravam a esquina para irem buscar hambúrgueres vegetarianos. Enquanto o Slaughterhouse Studios incorporava um bar e uma boate, álcool era a última coisa nas suas distorcidas mentes criativas. «Estávamos sóbrios», ri Jeff. «Eu não estava a beber por uma vez na vida!»

Walker também se recorda da banda contrair amizade com um metaleiro local com quem esbarraram na rua. «Ele ia ao Slaughterhouse e passava alguns vídeos de metal da velha-guarda: coisas como Venom e Tank.»

Richardson recorda os Carcass como sendo «bastante tímidos no início. Portanto – e é clichê dizer isto –, o humor seco de Liverpool deu ar de si. Acho que nos demos bem porque sou de Manchester. O Jeff era muito sarcástico, mas de um jeito doce. O Bill era calado, mas saiu das cascas, e o Ken também era tranquilo. Gajos porreiros. Não havia rock n’ roll a acontecer – muitas chávenas de chá foram bebidas!»

Enquanto “Reek…” foi gravado em modo ‘ao vivo’, Walker credita a Richardson o aguçamento das suas atitudes: «Tínhamos um monte de riffs e letras, e só queríamos gravar um álbum com um som decente», diz. «Nunca fomos ambiciosos – apenas fazíamos as coisas à medida que avançávamos. Fomos lá e começámos a gravar ao vivo, e não funcionou. O Colin parou a fita e disse: ‘Não se vão safar desta!’ Ele disciplinou-nos para fazermos isto correctamente – descobrimos a arte dos ‘drop-ins’ e camadas de guitarra, baixo e bateria, etc.. Percebemos que tínhamos de dar aos dedos.»

«Foi uma sessão bastante normal», diz Richardson, «mas lembro-me de ter pensado em como o Bill era um génio da guitarra. Ele praticava a toda a hora, e essa é a diferença entre alguém que apenas fala e alguém que realmente se dedica».

Digby Pearson costumava visitar os estúdios – por um lado, pela excitação do que estava a acontecer, e, por outro, para ficar de olho no seu investimento. Naquela altura, o orçamento de £3.000 poderia construir ou quebrar a Earache, dependendo das vendas. O centro de operações da editora era o quarto de Pearson, em Nottingham, e cada lançamento financiaria o próximo. «Eu não conseguia acreditar que estava a ter a hipótese de lançar este álbum», diz. «Eles tinham o seu próprio estilo – grind patológico, grind médico… Ninguém tinha inventado um nome para isso. O nome comum para bandas como Carcass era grindcore, mas eles eram a única banda que eu conhecia que estava a partir para toda essa cena de terror médico patológico.»

Os Carcass continuariam a trabalhar com Colin Richardsand em álbuns sucessivos – orçamentos maiores a traduzirem-se em melhor produção com mais clareza e profundidade. No entanto, “Symphonies of Sickness” continua a ser a sua obra mais selvagem e gloriosamente desequilibrada. A rodar ainda hoje, resistirá a qualquer outro disco de metal extremo / death metal que gostas de ouvir. Além de ser um ataque violento aos orifícios dos ouvidos, está repleto de passagens brilhantemente inventivas e melodias profundamente perturbadas – sem refrãos.

«Não há refrãos no álbum», observa Jeff, «porque pensei que era comodista tê-los, a repetir as mesmas palavras! É por isso que há a porra de tantas letras nele. É por isso que se é tão ingénuo com aquela idade: esqueces que os fundamentos da música existem por uma razão. Era pretensão geral – ter tantas palavras e ideias e tentar encaixá-las num espaço limitado».

Pretensioso ou não, isso fez de “Symphonies of Sickness” ser único. Outra das suas qualidades especiais era a abordagem vocal dupla: enquanto Steer emitia um rude gorgolejo de death metal, Walker optava por uma carranca. Neste caso, a variedade era definitivamente o tempero da morte.

«Eu nunca quis cantar», admite Walker. «Quando fomos a Birmingham para o primeiro álbum, as vozes eram inicialmente divididas entre o Ken e o Bill. Depois, suponho que o meu ego levou a melhor e comecei a fazer pequenas coisas. Acabou comigo e com o Bill a fazer aquilo, porque, por razões práticas, o Ken não conseguia ao vivo. Depois, o Bill já não queria mais cantar, mas no “Symphonies…” foi 50-50 entre nós. É um pouco menos idiota do que alguém a fazer vozes guturais e monótonas o tempo todo.»

Os Carcass tornaram-se numa das bandas mais importantes num novo movimento que estava a crescer em direcção à superfície do Reino Unido – com bandas também da Earache Records, como Napalm Death e Bolt Thrower. «Estávamos a rolar», diz Pearson. «Eu sabia que algumas coisas boas estavam a acontecer com a editora e com as bandas. Uma cena estava a crescer, do nada.»

«Por volta do final dos anos 80 e início dos 90, houve muitos lançamentos da Earache», diz Colin Richardson. «Olhando para trás, muitos deles resistiram ao teste do tempo. Houve um verdadeiro alvoroço sobre a música, antes de o death metal se consumir a si mesmo durante um tempo.»

Tipicamente, Jeff Walker minimiza as sugestões de que os Carcass estavam na vanguarda de um admirável mundo novo musical. «Quando estávamos a fazer o “Symphonies…”, provavelmente havia cerca de algumas centenas de pessoas no planeta que se teriam importado com aquele álbum. Naquela altura, as revistas de rock escreviam sobre a merda dos Guns N’ Roses e The Quireboys. É a realidade. Ninguém gostava de música como a dos Carcass. Não era nada como agora, quando a música extrema supostamente governa o galinheiro.»

Admite: «O nosso tipo de música começou a ficar mais popular, acho eu, mas ainda não era comercial. A tocar músicas assim, não ias começar a vender muitos discos. Mesmo a maior parte da música extrema, dos Slipknot aos Evanescence, têm hooks e sensibilidades pop suficientes. O “Symphonies…” não era pop, nem por um fio de imaginação! Era o tipo de música que tinhas de te sentar e estudar.»

Para evitar o boicote das cadeias de lojas de discos, a primeira edição em vinil do álbum trazia uma capa muito mais subtil, retratando uma cabeça rachada que havia sido artisticamente reduzida a obscuros pontos brancos. Dentro da sleeve, é claro que o sangue coagulado do estilo “Faces of Death” permaneceu – desta vez, com alguns pedaços de carne animal em boas doses.

No eventual lançamento em CD, o derramamento estava na capa – talvez porque, naquela altura, o CD não era um formato tão predominante. Os lançamentos posteriores esconderiam novamente o sangue lá dentro. Jeff Walker permanece inseguro quanto a isso: «Simplesmente não funciona como uma qualquer capa foleira», reconhece. «Não era assim. Se não consegues lidar com isso, não te chateies a olhar ou a ouvir.»

“Symphonies of Sickness” venderia mais de um quarto de milhão de cópias em todo o mundo – um número insano para um disco tão extremo. A banda separou-se em 1996, antes de se reunir 11 anos depois (infelizmente sem o baterista Ken Owen, que sofreu uma hemorragia cerebral em 1999 que afectou a sua forma de tocar). Desde então, lançaram um excelente disco no regresso, “Surgical Steel” de 2013, com um um sucessor tardio, “Torn Arteries”, a ser lançado em 2021. Mas, mais de 30 anos depois, “Symphonies of Sickness” continua a ser um marco para a banda e para o metal extremo como um todo.

Consultar artigo original em inglês.

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