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Carcass “Swansong”: o adeus às armas

“Swansong” é um trabalho que encapsula toda a criatividade e vontade de progredir de um colectivo que, apenas cinco anos antes, ganhava a vida a escrever odes aos patologistas.

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“Swansong” é um trabalho que encapsula toda a criatividade e vontade de progredir de um colectivo que, apenas cinco anos antes, ganhava a vida a escrever odes aos patologistas.

Todas as bandas consagradas de heavy metal têm uma coisa em comum – não obstante o ano em que surgiram ou o género que praticam, a particularidade transversal que possuem é terem lançado um determinado disco que conseguiu a proeza de ser adorado por uns e odiado por outros. No caso dos Carcass, sem margem para argumentos, esse disco é “Swansong”, lançado em Junho de 1996.

“Swansong” é um trabalho que encapsula toda a criatividade e vontade de progredir de um colectivo que, apenas cinco anos antes, ganhava a vida a escrever odes aos patologistas. Os vapores exalados pelos cadáveres depressa foram trocados por temas mais generalistas, algo que tinha sido inicialmente explorado em “Heartwork” (1993). No entanto, o que realmente distancia “Swansong” de qualquer outro disco dos quatro fantásticos de Liverpool é o seu som novo, um híbrido entre death metal e rock n’ roll que ajudou a erigir um novo género ainda hoje praticado (e de onde origina a mot-valise death n’ roll) e o fim da colaboração com o eterno guitarrista Michael Amott, que saiu para formar os Arch Enemy.

Os Carcass foram sempre líderes, nunca seguidores. Embora “Swansong” não seja o primeiro registo de death n’ roll (título esse que cabe aos suecos Entombed e ao determinante “Wolverine Blues”), nem tão pouco tão bem conseguido quanto “Soul Survivor” (a obra-prima do género pela mão dos holandeses Gorefest), a qualidade dos temas nele apresentados é reconhecida pelos fãs e pelos pares da banda. No entanto, “Swansong” depressa se tornou num posto fronteiriço entre os fãs clássicos e os novos fãs. Para trás ficaram as letras mórbidas e o som doentio dos primeiros três discos e, em comparação com esses, “Swansong” parece aquele primo esquisito e meio estúpido que toda a gente tem e com quem tenta não aparecer em público. Mas, no fundo, sabemos bem que é um primo com muitas virtudes e de quem gostamos.

Humor, riffs enormes, ritmos descontraídos, peso e vozes de death metal são alguns dos pontos maiores de “Swansong”. Se “Keep On Rotting In The Free World” (corruptela do clássico refrão de “Rockin’ In The Free World”, de Neil Young) demonstra tão bem o humor inglês, aquele humor fino a que estamos tão habituados com Big Train, Little Britain ou Monty Python, outros temas há que marcam por outros motivos. “Tomorrow Belongs To Nobody”, “Black Star” e “Room 101”, por exemplo, apostam em riffs muito fortes, mas descontraídos, o que criou algo até então inaudito na carreira dos Carcass – um som catchy, fácil de assimilar e até agradável, ameno. Na verdade, existem apenas três temas em todo o registo mais orientados ao death metal: “Keep On Rotting In The Free World”, “Firm Hand” e “Don’t Believe A Word”, apontando todos os outros para um stoner/rock baseado em metal. Resulta.

Humor, riffs enormes, ritmos descontraídos, peso e vozes de death metal são alguns dos pontos maiores de “Swansong”.

Michael Amott foi (muito bem) substituído por Carlo Regadas, nitidamente à altura do desafio. Deste, nunca mais se ouviu falar, dentro ou fora dos Carcass. Pela primeira vez, ouvimos o baixo de Jeff Walker claro como água e os dotes de Ken Owen ainda não tinham sido afectados pela infeliz hemorragia cerebral que o faria reformar-se da bateria para sempre apenas três anos depois. Já os solos de Bill Steer desafiam o passar do tempo. A produção ficou, uma vez mais, a cargo do pródigo Colin Richardson, que fez apenas mais um truque de magia em “Swansong”.

Como o título do álbum indica (“Swansong” significa literalmente “última prestação”), foi o adeus dos Carcass à primeira-liga do metal extremo. Até nisso o quarteto entregou valor – sabendo que as coisas já não eram as mesmas, que os seus elementos tinham crescido pessoalmente, decidiram pôr fim de forma honrosa a um dos nomes mundialmente mais respeitados da cena.

Pese ser um disco que fez muitos fãs da velha-guarda colocarem a cabeça num incinerador aceso, mas que também fez uns quantos desses tempos aceitarem e até gostarem do novo som dos Carcass, a banda encerraria actividades durante 11 anos, algo que pareceu (mas não foi) definitivo. Naqueles tempos, não existiam últimas digressões e truques do género para ganhar mais uns cobres – quando uma banda acabava, acabava e seria pouco provável voltarmos a vê-la em cima dum palco. Posto tudo isto, “Swansong” foi uma declaração de querer e poder mudar da parte do quarteto inglês. Depois do sucesso comercial de “Heartwork”, a major Columbia Records pegou nos Carcass e, claro, começaram a ocorrer desentendimentos, até que a banda se afastou e regressou à Earache Records. Com o total apoio e confiança de Digby Pearson, “Swansong” acabou por tornar-se no último disco do período clássico dos Carcass. O que faz dele um clássico, com certeza.

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