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Carcass: palavra de Jeff Walker

Jeff Walker sobre o aborto sónico que é “Reek of Putrefaction”, os supostos milhões à custa de “Swansong”, a separação em 1996, a reunião em 2008 e a responsabilidade pelo nu-metal.

Foto: Ester Segarra

Com um altamente aguardado novo álbum, intitulado “Torn Arteries”, a sair em meados de Setembro de 2021, o frontman dos Carcass, Jeff Walker, chegou à fala com a Metal Hammer para relembrar alguns momentos da carreira de uma das bandas seminais do grindcore e death metal melódico.

O primeiro grande momento dessa conversa recai em “Reek of Putrefaction”, o álbum de estreia lançado em 1988, um clássico. «É um aborto sónico. A produção é uma merda», atira Jeff. «Gostaria de o regravar, apenas para provar que podia ser um álbum do caraças, porque tem bons riffs. Com o “Symphonies of Sickness” [1989], basicamente refizemos o primeiro álbum, porque tinha sido tamanha desilusão. E pela altura que fizemos o “Necroticism” [1991], já não éramos vistos como uma banda crusty/grind, éramos vistos como uma banda de metal. Lembro-me do nosso antigo agente dizer: ‘Sim, o meu período favorito é antes de serem esta banda metal da treta.’ Talvez ele tivesse razão.»

Depois, em 1993, com “Heartwork”, foi quando os Carcass começaram realmente a dar nas vistas globais, além-fronteiras do Reino Unido. Jeff regressa a esse tempo: «A Earache [Records] tinha licenciado o álbum à Sony/Columbia na América, e vendeu algo como 70.000 cópias no primeiro ano. Hoje em dia, uma banda mataria para vender tanto, mas na altura era do c*ralho. Falhámos na Sony. O primeiro álbum que gravámos para eles foi o “Swansong” [1996], e conseguimos ser despejados antes de ser lançado.» O que aconteceu? «Estávamos sem contrato com a Earache, por isso assinámos directamente com a Sony. Estávamos na capa do Liverpool Echo, a dizer que íamos ganhar 7 milhões de dólares com o acordo – como se! Mas lá para o fim da sessão, vimos que as editoras começaram a ter pouca confiança no metal – as grandes bandas estavam a ser dispensadas. Perguntámos ao nosso A&R se seríamos dispensados. Ele sabia que a editora não estava interessada em nós, portanto negociámos. Pagaram-nos para sairmos do contrato sem se lançar o álbum.»

Ao contrário do pavoneado no jornal de Liverpool, os Carcass não fizeram tanto dinheiro como disseram, mas, mesmo assim, não saíram de mãos a abanar. «O avanço para o álbum foi provavelmente £100.000. Tínhamos algum dinheiro dessa altura para se viver, e acho que nos deram mais £10.000 só para nos pormos no c*ralho. E depois a Earache pegou no álbum e pagou-nos mais dinheiro para o lançar.»

“Swansong” foi lançado, mas a banda acabou antes do disco chegar às lojas. «O Bill [Steer, guitarra] saiu. Se ele não tivesse saído, provavelmente teria eu», assegura Jeff. «Depois da cena com a Sony, era do tipo: ‘Onde vamos agora?’ O Bill estava a entrar noutras cenas, e eu também. Começámos a não nos podermos ver um ao outro. A diversão tinha diminuído. Não conseguíamos ver futuro nisto.» Ainda assim, Jeff salienta: «Nada de grandes discussões e essas tretas. Apenas uma serena compreensão de que as coisas tinham chegado ao fim.»

Para regozijo dos fãs, os Carcass reuniram-se em 2008 – e tudo (re)começou com uma SMS. «Vi os Emperor em LA e mandei uma mensagem ao Bill, a dizer: ‘Não quero ser inconveniente, mas devíamos mesmo pensar em reunir Carcass.’ Andava a tocar com Brujeria e os promotores perguntavam-me por Carcass. Foi daí que pensei: ‘Porquê ser um hired-gun quando procuram pela minha própria banda? O Mike [Amott, ex-Carcass, Arch Enemy] também nos falava – acho que as pessoas também o andavam a chatear. Portanto, nós os dois começámos a chatear o Bill. Começámos a receber ofertas monetárias que nunca tínhamos visto na vida. Não sabíamos quão importante era a banda para as pessoas.»

O passo óbvio, ou pelo menos o exigido pelo público, seria um álbum, que surgiu apenas em 2013 na forma de “Surgical Steel”, e os Carcass voltaram a tomar (se é que alguma vez deixaram) o trono do death metal melódico com espasmos de grindcore e punk. «O narcisista em mim assume que era o meu destino», atira Jeff sobre o nome estabelecido que é a sua banda. «Mas acho que por causa de termos feito algo diferente, obviamente tivemos impacto nas pessoas e noutras bandas. Não temos crédito por isso, mas não quero saber.» Será que não quer mesmo saber? «Só chateia se outros obtiverem crédito por isso. Baixámos a afinação para Si e, quanto sei, a modos que apresentámos isso ao mundo do metal. Talvez tenha havido alguém que afinou para Si, mas não me lembro de ninguém. Isso teve alguns efeitos desastrosos, como o nu-metal.» Está Jeff Walker, o gutural patológico de Carcass, a defender que deve ser creditado pelo nu-metal? «Nalguns aspectos, somos responsáveis», chuta sem rodeios. «Todos trabalharam com o Ross Robinson, e ele era fã de Carcass. Muitas dessas bandas afinaram para Si. Mas, na metade do tempo, não sabem por que é que o fazem.» Palavra de Jeff Walker.

“Torn Arteries” tem data de lançamento a 17 de Setembro de 2021 pela Nuclear Blast.

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