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Carcass: no death metal confiamos

Jeff Walker sobre o novo álbum de Carcass, “Torn Arteries”.

Foto: Ester Segarra

«Tentamos sempre manter-nos criativos e ter um propósito válido naquilo que fazemos.»

Ferozes e únicos na arte de criar death metal, os Carcass são uma das excelências do género há mais de 30 anos. Com portentos discográficos como “Symphonies of Sickness” (1989), “Heartwork” (1993) ou mesmo “Surgical Steel” (2013), seria no Verão de 2020 que os britânicos voltariam a lançar um álbum, mas a pandemia trocou-nos as voltas e “Torn Arteries” teve de ser adiado para Setembro de 2021.

Com um título que se refere a uma velha maqueta criada pelo baterista original Ken Owen na década de 1980, “Torn Arteries” continua as ideias de “Surgical Steel” sem nunca descurar as origens sónicas do grupo. Contudo, por mais que seja a música que nos torna ávidos por estes veteranos do bisturi, a capa é um dos elementos que salta logo à vista, não só por ser uma das mais limpas de sempre na história visual da banda mas também pela formação de um coração através de vegetais.

Num visual criado por Zbigniew Bielak, que se inspirou na corrente japonesa Kusôzu (que significa “pintura dos nove estágios de um cadáver em decomposição”), o vocalista/baixista Jeff Walker comenta através da Nuclear Blast: «É muito clara, branca, o que nunca fizemos antes. Não parece malévola, ou tipicamente death metal, mas gosto de como é limpa.»

Quanto à música, “Torn Arteries” continua a gritar Carcass na sua plenitude, mas estamos em 2021 e, numa nova era, é expectável que vários aspectos, como produção, estética e composição, alcancem um nível mais contemporâneo. Walker corrobora: «Acho que este nosso sétimo álbum se destaca dos outros, tanto sónica como estilisticamente. Consegues dizer que é Carcass quando deixas cair a agulha no vinil, quando ouves o tom da guitarra consegues dizer que é o Bill Steer, mas cada álbum é um produto do seu tempo.»

Tendo-se em conta a observação de que isto continua a ser e a soar a Carcass mas que cada momento é uma novidade e uma interacção com o presente, a abordagem na hora da composição não mudou muito. «Na realidade não há um método idealizado», assegura Walker. «Ninguém compõe uma música, chega à sala e diz: ‘A música é assim.’ Muitas destas músicas são compostas à volta de um ritmo ou de uma ideia. Alguma vez tivemos uma música com este tipo de introdução? Alguma vez tivemos uma música com este tipo de bateria? Se não nos importássemos, faríamos a mesma treta genérica do verso-refrão, mas não nos queremos repetir. Tentamos sempre manter-nos criativos e ter um propósito válido naquilo que fazemos.»

Desse propósito surgiram pestilentas camadas distorcidas de guitarra e baixo que acumulam agressão mas também melodia, como é o caso da frenética “Kelly’s Meat Emporium” que combina as raízes obscuras dos 1980s com as harmonias dos 1990s. «O título provisório era “Stock Carcass”. Sabíamos que era uma faixa essencial para o álbum», revela Walker. Entretanto, ao longo de 10 faixas, deparamo-nos com mais surpresas, como a batida cativante de “Dance of Ixtab”, os quase dez minutos de “Flesh Ripping Sonic Torment Limited” ou a acostagem prog de “In God We Trust”. «Abordámos cada música com uma ideia definida. É tudo sobre: o que é que não fizemos antes?», diz Walker.

Sobre as letras, já sabemos qual é o cenário de Carcass – sangue, tripas, patologias, política e sociedade –, o que sempre conduziu os fãs da banda a terem uma afeição e fascínio muito próprios, e Walker escolhe aqui a máxima de que os versos desta dezena de músicas são para ser interpretados e não explicados por si. «Prefiro que as pessoas passem tempo a ver o disco, a ouvi-lo, a absorverem as palavras à medida que as ouvem, e daí tirarem as suas próprias conclusões em vez de as entregar num prato», remata.

“Torn Arteries” tem data de lançamento a 17 de Setembro de 2021 pela Nuclear Blast.

Lê também a entrevista “Palavra de Jeff Walker” aqui.
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