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Cannibal Corpse: epidemia de violência

Entrevista a Cannibal Corpse.

Foto: cortesia Metal Blade

«Não faz sentido lançarmos um disco e não o podermos vender por causa duma capa. E a versão não-censurada de “Violence Unimagined” é das mais intensas que fizemos até hoje.»

Alex Webster

É bom começar pela constatação do óbvio – não existem muitas bandas de death metal reconhecidas em todo o mundo com 15 discos em carteira. É algo de senso tão comum que nem precisámos de ir verificar esta afirmação. Tendo em conta as limitações do género, lançar um disco pelo menos competente (e que prenda o ouvinte) a cada dois anos perfaz um total de 30 anos de carreira, e isto é obra. Falando nisso, quantas bandas de death metal conhecemos que andam nisto ininterruptamente há 30 ou mais anos? É obra, sim, destinada apenas a uma mão-cheia de arquitectos. Já ouvimos tudo o que havia para ouvir sobre os Cannibal Corpse, desde o contributo umbilical para o death metal às queixas de soarem sempre ao mesmo. O que é certo é que, ao fim de 33 anos, estes norte-americanos conseguiram manter-se sempre relevantes fazendo o que fazem melhor, que é death metal clássico sem aditivos.

Prestando atenção a cada registo, conseguimos encontrar sempre algum pormenor que faz com que cada disco seja distinto, algo que faz com que o som dos Cannibal Corpse não estagne e que, dizemos nós, ajuda a manter a chama acesa junto dos fãs que os acompanham há mais ou menos tempo. Os tempos que vivemos não poderiam ser mais perfeitos para dar as boas-vindas a um novo disco dos nativos de Buffalo, Nova Iorque. Afinal, um mal nunca vem só e não existe nada melhor do que um novo trabalho de Cannibal Corpse para realçar a pandemia que nos fustiga desde o ano passado. Desta vez, o carcereiro escolhido para responder às questões da Metal Hammer Portugal foi Alex Webster, baixista da banda desde o primeiro minuto, pois, raramente o ouvimos anteriormente com tanta expressividade como em “Violence Unimagined”.

«É a minha primeira entrevista de hoje, vamos lá fazer isto!», começa por nos dizer o homem das quatro cordas. Isto faz-nos esfregar as mãos de contentamento, pois indica-nos que está cheio de paciência para responder a todas as perguntas que temos para lhe fazer. Claro que a primeira incide nas boas-vindas a Erik Rutan (guitarra, produção) às fileiras dos Cannibal Corpse. Rutan é um amigo íntimo da banda há décadas, tanto que produziu e colaborou como músico em vários discos do grupo. Depois, quase parece redundante indicar o contributo do guitarrista em colectivos como Morbid Angel, Hate Eternal e Ripping Corpse, o que fez com que a escolha lógica para substituir Pat O’Brien recaísse nele. Mesmo tendo tudo isto em consideração, é simplesmente incrível a marca de blackened death metal que Rutan deixa em “Violence Unimagined”. Posto de outra forma, “Violence Unimagined” parece um disco de Deicide no qual Glen Benton decide passar a falar sobre assassinos em série, psicopatas, sangue e entranhas. Fora isso, voltou a tratar da produção deste novo registo, imprimindo-lhe um som natural ligeiramente cru e momentos muitíssimo mais técnicos do que em discos anteriores. Claro que tudo isto parece indicar que Erik foi fundamental para o som e a elevada estrutura das composições que ouvimos em “Violence Unimagined”.

«Como sabem, ele já tinha produzido álbuns nossos, este é o quinto. Logo, essa familiaridade manteve-se. Ele compôs três músicas novas: “Condemnation Contagion”, “Ritual Annihilation” e “Overtorture”, já para não falar dos leads que faz noutras músicas. Assim como nós, o Erik construiu uma identidade musical muito particular ao longo das últimas três décadas; por isso, é natural que o seu contributo e o seu estilo se misturem com o estilo já existente dos Cannibal Corpse. Ele escreveu músicas especificamente para Cannibal Corpse, não foi como se ele se tivesse aproveitado de ideias guardadas para os Hate Eternal ou algo desse género – são três músicas novas. Acho que ele se integra muito bem. E quando tens do teu lado alguém tão bem-sucedido e criativo, sabes que ele vai ter impacto no teu som quando se junta à tua banda. Olha para o exemplo de quando ele se juntou aos Morbid Angel – teve um impacto tão grande. Connosco foi igual.»

A Metal Hammer Portugal teve a oportunidade de entrevistar Alex ou Paul (Mazurkiewicz, bateria) – uma escolha difícil tendo em conta o contributo tão forte de ambos os músicos em “Violence Unimagined”, mas seria muito difícil não escolher o primeiro ao ouvirmos o seu baixo mais nitidamente do que antes, mais técnico, a fazer lembrar bandas de death metal progressivo. Temas como “Follow the Blood”, por exemplo, são explícitos em relação a essas partes. Isto é engraçado e uma surpresa ao mesmo tempo, pois o trabalho de produção de Rutan costuma deambular entre os tons cavernoso e primitivo de forma positiva, o que contrasta com o som limpo de “Violence Unimagined”. Imaginamos que o baixista tenha ficado satisfeito ao ouvir o seu trabalho de forma tão clara no novo disco dos Cannibal Corpse.

Primeiro uma pausa, depois a resposta. «Como deverão calcular, fiquei mesmo muito satisfeito [risos], pois o baixo ouve-se claramente em toda a sua amplitude. Ficou óptimo. E resulta! Na verdade, eu nem sabia ao certo qual seria o som do baixo quando o gravei, pois gravei-o no meu estúdio no Oregon. Depois enviei os dois canais directos que gravei – um em overdrive e outro limpo – e o Erik acabou por utilizar apenas o limpo no reamping com um combo Ampeg que ele adora e com um pedal de overdrive Darkglass. O resultado é um bom tom de baixo e fiquei mesmo muito satisfeito. Parte dessa satisfação baseia-se no som de baixo que ele conseguiu, mas a outra, e regressando à primeira pergunta, é que ele agora é guitarrista e uma das coisas que impactou a nossa banda não foi só o que ele escreveu ou o seu estilo de guitarra lead, mas também o facto de que o som que ele gosta de extrair da sua guitarra é semelhante ao som que o Rob [Barrett, guitarra] gosta. É um pouco diferente do combo Rob/Pat – continua muito agressivo, mas, por outro lado, mais limpo. Em conjunto, alcançaram talvez o melhor som de guitarra de sempre dos Cannibal Corpse. E quando tens um som de guitarra rítmica tão bom, é muito mais fácil acompanhá-lo.»

A entrevista decorre de forma invulgar, com as respostas do baixista a parecer adivinharem as nossas próximas perguntas. Sim, o trabalho de guitarras em “Violence Unimagined” é incrível: maléfico (ao estilo dos já referidos Deicide), mas também muito melódico. Alguém menos versado no trajecto dos Cannibal Corpse poderá achar que se trata de algo trivial, mas as estruturas de guitarra no novo disco estão claramente distintas. Por outro lado, o trabalho de Paul na bateria ultrapassa a estratosfera. Tudo junto, gostaríamos de ter visto as reacções dos membros à medida que os novos temas iam surgindo.

«Claro que o Rob e eu já tínhamos escrito músicas com o Paul anteriormente, mas esta foi a primeira vez do Erik. Nós puxamos pelo Paul, sim, mas ele tem praticado como um maluco. Ele passa horas após o ensaio e pratica, pratica, pratica… Costuma ir sozinho para a nossa sala de ensaio várias vezes por semana e fica lá horas a praticar. Depois, bem… A chegada do Erik mudou o jogo. Ele está habituado a trabalhar com bateristas mesmo muito activos, rápidos, técnicos… Acho que isso é audível nos temas que o Erik escreveu, acho que o nível está mesmo muito alto. Por exemplo, eu nunca tinha ouvido o Paul como o ouvi em músicas como “Condemnation Contagion”, quero dizer… [pausa]… ele… [pausa] pá, os fills nesta música… e ele até faz solos! É um trabalho mesmo muito intenso!»

Entrevistámos muitas bandas desde que o mundo se vergou à covid-19 e quase todas confirmaram as nossas suspeitas – foram influenciadas pelos eventos desta praga e exprimiram-no em termos líricos. No caso dos Cannibal Corpse tudo muda, até porque as letras iniciais de George “Corpsegrinder” Fisher (voz), e mesmo as de Paul e Alex, fazem os acontecimentos e o morticínio trazidos pelos ventos da covid-19 parecerem um piquenique dominical em família depois da missa. Assim, apostámos que mais depressa a covid-19 se inspiraria nos Cannibal Corpse do que o contrário.

«[risos] Bem, o George costumava escrever as letras, mas entretanto eu, o Paul e o Rob passámos a escrevê-las, e desta vez o Erik é que as escreveu. Fazemos sempre da mesma forma: escrevemos as músicas e depois as letras. Já tínhamos a música composta antes da covid-19 atingir a sério os EUA e o resto do mundo. Escrevemos as letras em Março de 2020 e, sim, acho que o Erik se inspirou no contágio para escrever “Condemnation Contagion” – não propriamente na covid-19, mas foi uma inspiração forte.»

E é claro que a banda foi severamente afectada pelos acontecimentos. «Durante a pandemia estive sempre no meu estúdio caseiro. Era suposto ter-me juntado à banda em Abril de 2020 para as gravações, mas a coisa já estava de loucos. Gravei em casa e correu bem. Também só tínhamos digressões planeadas para Novembro, pois queríamos acabar o “Violence Unimagined” até Junho e lançá-lo em Novembro de 2020. Quando percebemos que não iríamos em digressão em Novembro, decidimos passar mais tempo de volta dele e lançámo-lo agora, em Abril de 2021. A única digressão que queríamos ter feito em 2020 era a de Novembro, e isso foi o que nos afectou mais. Muitas outras bandas amigas nossas cancelaram digressões em 2020. Agora, em 2021, claro que estamos a pensar em tocar ao vivo, mas o mais provável é que não aconteça. Isto afectou-nos em termos monetários, claro, e tivemos de apertar o cinto. É na estrada que fazemos dinheiro. Se vives da música, é muito provável que os teus rendimentos venham dos concertos e do merchandise – milhares de bandas dependem disso e fomos todas afectadas.»

Embora seja uma questão repetida ao longo das décadas e que acompanha os Cannibal Corpse desde a sua fundação, seria impossível não questionarmos a capa de “Violence unimagined”, definitivamente o trabalho mais grotesco dos nova-iorquinos desde “Butchered at Birth” ou “Tomb of the Mutilated”.

Os acontecimentos em torno dessas capas são lendários e envolvem rusgas da polícia na Alemanha, tribunais russos a proibirem as capas e a música da banda e até artigos no sempre atento The Guardian. Mas esta capa é realmente um passo à frente. «[risos] Pois, voltámos a ter problemas recentemente na Alemanha, em 2018 e 2019. Tivemos de alterar os nossos alinhamentos ao vivo à última da hora. É uma cena recorrente. Como a Metal Blade Europe é na Alemanha, se lá for banido, também deve ser em quase toda a Europa, não tenho a certeza. Deve ser complicado meter o disco com a capa original na Europa por causa dos problemas que temos com a censura alemã. A partir do “Tomb of the Mutilated” ultrapassámos este problema ao passar a encomendar ao Vince [Locke, artista dos Cannibal Corpse] duas capas: uma censurada e uma não-censurada. Podes chamar-lhes medidas de precaução se quiseres. [risos] Não faz sentido lançarmos um disco e não o podermos vender por causa duma capa. Enfim, queremos ter duas capas – uma bastante gráfica e outra moderada – mas sempre interessantes de se apreciarem. E o Vince tem feito um excelente trabalho. E a versão não-censurada de “Violence Unimagined” é das mais intensas que fizemos até hoje – portanto, certamente será censurada algures.»

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