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Desavenças, falências e traições: como Burton C. Bell escapou aos destroços de Fear Factory

Da ascensão de Fear Factory a acções judiciais, amizades rompidas e um ousado novo começo, Burton C. Bell relembra a sua vida repleta de acontecimentos.

Da ascensão de Fear Factory a acções judiciais, amizades rompidas e um ousado novo começo, Burton C. Bell relembra a sua vida repleta de acontecimentos.

No início dos 90s, antes de serem famosos, os Fear Factory foram processados por Ross Robinson. O futuro produtor de Korn tinha produzido o que deveria ser o álbum de estreia da banda de LA, mas uma disputa com o contrato resultou num processo indesejado. «Isso prenunciou toda a carreira dos Fear Factory», diz Burton Cc Bell ironicamente.

Não está a brincar. O homem que, entre saídas e regressos, fronteou os pioneiros do metal industrial durante 30 anos passou a última década atolado numa série de ações judiciais tortuosas e rancorosas com vários ex-companheiros, o que resultou em dois pedidos de falência. Finalmente, em Setembro de 2020, Burton anunciou que estava de saída da banda para sempre, deixando o guitarrista tornado antagonista, Dino Cazares, para fazer o que quisesse com o álbum por lançar que a dupla gravou em 2017.

Considerando tudo por que passou, Burton está de bom humor. O lado bom disto tudo é que agora é capaz de se concentrar totalmente em Ascension of the Watchers, a banda tingida de gótico que formou com o ex-associado de Ministry, John Bechdel, no início dos anos 2000 durante o primeiro hiato de Fear Factory. No ano passado, os Watchers lançaram o segundo álbum, o taciturno “Apocrypha”, o tardio sucessor de “Numinosum” de 2008. Mesmo que tenha surgido antes de Burton deixar oficialmente Fear Factory, parece o trabalho de um homem a traçar uma linha com o passado. «É uma sensação libertadora poder seguir em frente com isto tudo», diz enquanto se prepara para olhar para trás, para uma vida que repleta de acontecimentos.

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Por que é que reactivaste Ascension of the Watchers agora?
Na minha mente, nunca acabou. Tenho trabalhado na música há algum tempo, construindo-a com o John [Bechdel], com o Jayce [Lewis, baterista/programador/co-produtor] e com o [guitarrista] Mark Thwaite. Eu estava a trabalhar com Fear Factory, porque era a minha principal fonte de rendimento, mas estava a tentar conseguir um contrato para esta banda a toda a hora, a tentar atrair o interesse de editoras e agências, mas simplesmente não tive sorte.

Por que é que achas que foi assim?
Tenho as minhas suspeitas, mas acho que o facto de o último álbum não ter sido promovido pela editora em que estávamos e não ter vendido por causa disso foi o principal motivo. Para além disso, eu sabia que teria de gravar este álbum da maneira que o queria ouvir, para que uma editora pudesse dizer: ‘Oh, então é assim que soa.’ Fui apanhado por tantos processos legais, mas é um novo início. Controlo o meu próprio destino.

Parece que algumas das músicas em “Apocrypha” são cantadas para uma pessoa ou para pessoas específicas. É isso?
Absolutamente. Pelo menos quatro das músicas são escritas sobre alguém em específico. “Ghost Heart” foi escrita para a minha esposa, “A Wolf Interlude” é para o meu filho, “Honoree” é para a minha filha mais nova. “Key to the Cosmos” é para o meu melhor amigo, que faleceu vítima dum tumor cerebral há alguns anos. É o disco mais pessoal que já lancei. É sobre o amor e todos os seus aspectos – a sua ausência, a sua novidade, a sua morte, o amor que te rodeia, quer o vejas ou não.

Sempre expressaste o que cantas em conceitos elaborados. Foi estranho colocar estas coisas assim tão directamente?
Na verdade, achei era mais difícil pôr os meus sentimentos pessoais de lado quanto a Fear Factory e pôr tudo na terceira pessoa. Pessoalmente, estava a prestar um péssimo serviço a mim mesmo nesse aspecto. Mas sim, estava apreensivo, porque é muito diferente de Fear Factory, mas vem tudo da mesma mente e da mesma inspiração.

A última faixa do álbum é uma cover de “Sign Your Name”, o êxito soul pop de 1988 de Terence Trent D’Arby. Porquê essa música?
É uma música de amor muito boa. Lírica e musicalmente, senti que podia torná-la um pouco mais profunda e um pouco mais sinistra – quase como um cântico fúnebre desagradável.

Onde vês os Ascension of the Watchers a encaixarem-se? Não é uma banda metal, não é uma banda industrial, não é uma banda gótica…
Não queria tentar encaixar-me em nenhum género. Queria criar algo novo para mim. Fui inspirado e influenciado por muitos tipos diferentes de música ao longo da minha vida, e o meu objectivo sempre foi criar um amálgama disso tudo. Não me encaixar num género é melhor do que ficar preso a um estilo de música.

O que te fez querer ser vocalista?
Adoro música desde criança. Sempre quis estar numa banda – tive um gosto disso por pertencer a coros de igreja e de escola. Foi apenas algo que ficou em mim.

Quando é que subiste a um palco pela primeira vez?
Foi em Hollywood e eu estava com a minha primeira banda, os Hate Face. O primeiro concerto foi no local onde agora filmam o programa do Jimmy Kimmel. Estávamos a abrir para os LAPD, a antiga banda do Fieldy dos Korn, e eu estava nervoso como o caralho. Eu morava em Hollywood há seis ou oito meses, ia a concertos, fazia novos amigos. Um amigo que tinha o mesmo gosto musical disse: ‘Ei, por que é que não fazes uma audição para a minha banda?’ Eu digo: ‘OK.’ Então, encontrei-me com eles e começámos a tocar. Tive algumas ideias para letras e foi assim que aconteceu.

Como é que foste parar a Hollywood?
Eu nasci em Houston, mas mudávamo-nos muito. Fui aceite na escola de artes em Washington DC, mas a música e a vida nocturna estavam a tornar-se mais importantes do que a escola, e desisti. Seis meses depois, um tipo com quem trabalhei numa loja de discos disse: ‘Vamos para Los Angeles!’ É disso que me lembro. Ele ainda é um dos meus melhores amigos e jura que eu lhe disse que estava a mudar-me para LA para ser uma estrela do rock.

Como era LA quando lá chegaste?
Cheguei lá no Verão de ’89, e toda a cena glam metal ainda era grande, mas estava a deteriorar-se lentamente. Nunca foi a minha praia. Nunca gostei de Warrant. Eu gostava de coisas mais rijas como Blast First, Amphetamine Reptile, Wax Trax!, Sub Pop. Eu gostava de toda aquela música vinda de Seattle, que era pré-Nirvana, mas também ia aos locais do underground industrial.

Onde conheceste o Dino Cazares?
O guitarrista e o baterista dos Hate Face moravam numa casa grande, no meio de Hollywood, com umas outras 11 pessoas. Eu tinha um quarto no andar de baixo e certo dia estava em casa quando de repente ouço uma guitarra a rebentar lá em cima. Eu estava do tipo: ‘Que merda é esta?’ E lá estava o Dino a tocar guitarra no seu quarto.

Relacionaram-se com o quê?
Música. Especificamente o primeiro álbum de Godflesh. O Dino estava na cena death metal/grindcore, eu estava na cena rock industrial/noise. Godflesh era do que gostávamos. Eu disse: ‘Se gostas disto, devias ouvir a outra banda do Justin [Broadrick, Godflesh], os Head of David.’ E ele disse: ‘Bem, se gostas disso, já ouviste Carcass ou Bolt Thrower?’ Death metal e grindcore era estranho para mim.

Formaram Fear Factory juntos. O som estava lá desde o início?
Na verdade, em primeiro, o Dino começou a tocar na minha banda Hate Face. Depois ele disse: ‘Vamos fazer algumas músicas juntos, vamos fazê-lo com um novo nome.’ Éramos os Ulceration. A primeira música que escrevemos acabou a tornar-se a “Big God”, do primeiro álbum dos Fear Factory [“Soul of A New Machine”, de 1992]. Mas demorou um bocado para se encontrar o nosso som.

Na verdade, gravaram um álbum, o “Concrete”, com um Ross Robinson pré-famoso em 1991, mas nunca saiu. O que é que aconteceu?
O Dino e o Ross eram amigos há algum tempo. O Ross estava a começar a sua própria editora e queria que os Fear Factory fossem a primeira banda nela. Então gravámos 16 músicas numa semana, estávamos a arrasar. De repente, o Ross deu-nos uns contratos. Um amigo do Dino, que mais tarde se tornou nosso agente, disse: ‘Eu não assinaria isto.’ Portanto, o Ross disse: ‘Não podem ter o álbum se não assinarem o contrato.’ O Ross processou-nos, o que prenunciou a carreira inteira de Fear Factory. [risos]

Depois o Ross foi produzir Korn. Houve algum ciúme da tua parte, do tipo: ‘devíamos ter sido nós…’?
Talvez inveja e um pouco de raiva pela maneira como as coisas aconteceram. Eu gostava de trabalhar com o Ross, ele era um tipo de pessoa eclético, mas pegou na música que gravou com outra banda e disse: ‘Ouçam isto, vocês podiam soar assim.’ E, claro, essa banda tornou-se Korn. Eu pensei: ‘E se tivéssemos assinado o contrato do Ross?’

As coisas explodiram com o segundo álbum dos Fear Factory, o “Demanufacture”. Por que é que as pessoas se relacionaram com ele?
Era definitivamente um novo som, totalmente diferente de qualquer outra coisa na cena. Tinha a combinação de guitarras pesadas e elementos industriais e electrónicos. E a minha voz era parte disso – ninguém estava a misturar aquele tipo de voz limpa e pesada ao mesmo tempo. Durante muito tempo, as pessoas pensaram que eram dois vocalistas diferentes.

Como é que sucesso do álbum mudou as coisas para ti?
O “Demanufacture” definiu a minha carreira. É assim que vejo. As pessoas não sabiam o que fazer com o “Soul of A New Machine” – era death metal, industrial ou thrash? Para além disso, a voz confundia as pessoas. E depois fizemos um álbum de remisturas, o “Fear Is the Mindkiller”, e isso deixou toda a gente ainda mais confusa. Mas o “Demanufacture” foi o álbum que fez os Fear Factory serem os Fear Factory. Foi o nosso momento decisivo. Isso deu-nos um som e quase criou um novo género. Acho que muitas pessoas tentaram copiar, mas nunca conseguiram.

Como quem?
Bem, sabes, os Linkin Park fizeram uma versão diluída do “Demanufacture”.

O que pensaste quando ouviste o “Hybrid Theory”?
Eu não era fã. Respeito o que fizeram, mas para mim soou a um “Demanufacture” para crianças.

«Eu já não conseguia trabalhar com o Dino. Não dava mais.»

Burton C. Bell sobre a saída dos Fear Factory em 2002

Os Fear Factory separaram-se em 2002. Nunca ficou claro porquê. O que aconteceu realmente?
Bem, honestamente, eu já não conseguia trabalhar com o Dino. Não dava mais. As pessoas mudam – eu mudei e ele também mudou. Ele simplesmente tornou-se alguém com quem eu já não conseguia trabalhar. Portanto, eu disse-lhe: ‘Nunca mais vou trabalhar contigo, por isso boa sorte.’

O que é que ele estava a fazer que te irritava? E talvez vice-versa?
Bem, há muitas coisas pessoais a acontecer. Não quero estar a acusar as pessoas de tudo, porque não sou psicólogo, mas a pessoa em que ele se estava a tornar – eu simplesmente não estava a gostar. Ele não estava a ser uma pessoa porreira.

Reformulaste a banda sem ele alguns anos depois. Foi uma decisão fácil?
Não, não foi. O Raymond [Herrera, baterista] e o Christian [Olde Wolbers, baixista] tiveram mesmo que me convencer. Eles tinham um plano, mas precisavam mesmo de me convencer que tudo correria bem. Eles disseram: ‘Bem, ele já não vai estar na banda, nós temos algumas músicas novas – então, o que achas?’ Eu fiquei do tipo: ‘Bem, não sei’. Não fui convencido com facilidade. Tinha começado Ascension of the Watchers, mas fazer com que as pessoas se interessassem por isso era difícil, porque as editoras ouviam a maquete e diziam: ‘Bem, isto não soa a Fear Factory.’ Bem, a sério? É por isso que tem um nome diferente…

Então, voltaste para Fear Factory sem o Dino para o bem de Ascension of the Watchers?
Para mim, sim. Para que pudesse lançar alguma coisa. Sentia que teria de fazer outro álbum de Fear Factory. Eu também tinha uma família a caminho, portanto disse: ‘OK, vou fazer isto acontecer.’ Mas vi isso como uma oportunidade para divulgar os Watchers. Era onde o meu coração estava.

Houve outra reviravolta no final dos anos 2000, quando o Christian e o Raymond saíram e o Dino voltou. Teve a ver com dinheiro?
Teve. Lamento dizer. E quando fazes isto por dinheiro – vê o que aconteceu.

Reacenderam a vossa amizade?
Sabes, reacendemos. Com alguns anos separados, pensei que tínhamos aprendido algo e mudado. No início estava a correr bem, mas os indícios do velho Dino ainda lá estavam e, com o passar do tempo, foram ficando cada vez maiores.

Gravaram três discos – “Mechanize”, “The Industrialist” e “Genexus” – antes das coisas voltarem a dar para o torto. O que é que aconteceu desta vez?
E há este quarto que deve sair também. Tudo começou a dar para o torto durante a gravação do “Genexus”. As coisas começaram a correr mal. Andámos à porrada durante a gravação, porque ele disse algo que não devia e eu tive de ver como era.

Se isso não bastasse, havia uma situação legal em andamento com o Raymond e o Christian, que começou no início de 2010. Não deve ter ajudado muito.
Não. Temos lidado com ações judiciais desde 2009 por parte desses gajos. Havia um advogado muito tenaz.

Nalgum momento, já pensaram sentarem-se os quatro à mesa e dizer: ‘Somos homens adultos, o que raios estamos a fazer?’
Nunca estivemos os quatro na mesma sala. Eu, o Christian e o Raymond tínhamos uma forma de mediação – era para sermos os quatro, mas o Dino não apareceu. Eu estava ali a tentar defender-me sozinho. Mas são todas essas coisas pessoais e profissionais que realmente levaram ao meu fim – 30 anos depois, eu estava do tipo: ‘Já chega.’ Não parecia ter fim.

«Eu estava a gravar o novo álbum e a lidar com processos judiciais e falências… Estava tudo fora de controlo.»

Burton C. Bell sobre a sua saída de Fear Factory em 2020

Em Setembro de 2020 anunciaste que tinhas deixado Fear Factory. Qual foi o ponto o teu ponto crítico?
Andei a pensar nisso durante muito tempo – quatro anos, desde o último disco. Eu estava a gravar aquele novo álbum, a tentar gravar e a lidar com processos judiciais e falências… Estava tudo fora de controlo. Pessoalmente, pedi falência há nove anos. Mas depois disso, a última rodada de processos, mais a falência do Dino, fizeram-me ir à falência novamente. Definitivamente, rebentou-me a nível financeiro.

Foi fácil afastares-te disso tudo?
Trabalhar com alguém em quem já não confias e estares num negócio onde todos andam atrás de ti… Não valia a pena. Eu estava do tipo: ‘Foda-se, podes ficar com isso, leva tudo.’

Qual foi a última conversa que tiveste com o Dino?
Não sei se posso contar. Foi um telefonema há três anos, talvez. Ele disse-me algumas coisas que me fizeram ficar do tipo: ‘É fodido… Isso só não te fode pessoalmente como fode o negócio ao mesmo tempo.’ Ele disse que me procurou para lhe ligar, mas se queres mesmo falar, não me mandes uma mensagem para te ligar. Que se foda.

Se agora o Dino, o Raymond ou o Christian entrassem na sala, o que lhes dirias?
Simplesmente levantar-me-ia e iria embora.

Então, nunca mais vais reacender aquelas velhas amizades?
Não tenho motivo para isso. Nem todas as amizades são feitas para durarem. Há uma música de Ascension of the Watchers chamada “Residual Presence” – é sobre nada durar para sempre. Mas aqueles álbuns fazem parte do meu legado. E os fãs de Fear Factory, deus os abençoe, quando dizem que já não há Fear Factory, eu fico do tipo: ‘O que é que estão a dizer? Existem 10 álbuns para ouvirem! E vocês só ouvem dois deles!’ [risos]

Deixaste claro que Ascension of the Watchers é o teu único foco actualmente. Quais são os planos? Serão mais 12 anos até ao próximo álbum?
Não, definitivamente não. Queremos ter outro dentro de dois anos. Queremos fazer uma digressão, quando eventualmente pudermos fazer isso novamente – nos concertos é onde quero que as pessoas ouçam esta música. São os concertos que influenciaram o som deste novo álbum, portanto vejo que é assim que as pessoas o têm de ouvir. Pessoalmente, vou continuar trabalhar nos Watchers, e tenho outros planos para diferentes ideias musicais.

Tipo o quê?
Estou a pensar em fazer uma digressão a solo em que toco músicas de todas as bandas com as quais estive associado, desde Fear Factory a GZR, City of Fire, The Watchers e Ministry. Tenho mais ideias literárias em andamento. Estou a trabalhar numa história para combinar com este novo álbum. Tenho outra história: o seguimento de “The Industrialist” numa edição ilustrada que eu fiz – tenho isso em andamento. Tenho algumas exposições fotográficas que quero fazer. Para mim, o meu objectivo principal é apenas ser criativo e pôr cá fora tudo o que quero fazer, porque tenho 51 anos e quero fazer isso.

Todas as cenas negativas à volta de Fear Factory arruinaram-te tudo?
O negócio e os aspectos pessoais? Não. Consigo ver que os Fear Factory criaram algumas músicas excelentes. [risos] Também fizemos algumas músicas questionáveis, mas 90% das músicas que fizemos são muito boas e muitas pessoas foram influenciadas por elas. Deixou uma marca indelével e tenho orgulho disso.

Consultar artigo original em inglês.

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