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Brant Bjork “Brant Bjork”

Como sempre, e mais uma vez, Brant Bjork criou, com este álbum, um espaço para a contemplação da vida onde se amortece a desordem, onde a limpeza da mente se imprime pelo tema do homem em existência consigo mesmo no cenário do deserto.

Editora: Heavy Pysch Sounds Records
Data de lançamento: 10.04.2020
Género: stoner rock
Nota: 3.5/5

Como sempre, e mais uma vez, Brant Bjork criou, com este álbum, um espaço para a contemplação da vida onde se amortece a desordem, onde a limpeza da mente se imprime pelo tema do homem em existência consigo mesmo no cenário do deserto.

A eterna memória fantasma de Kyuss e um dos pais fundadores do stoner rock acrescenta um 13º LP a uma vasta carreira a solo, que largou a embraiagem em 1999 com o dignificante e promissor “Jalamanta”. Vale a pena dizer-se já que, dentro deste compasso de tempo dilatado, é ingénuo agarrar quaisquer perspectivas de imutabilidade de um artista como Bjork. Nesta altura da sua carreira, um álbum homónimo é não mais do que uma expressão da auto-perceção. É preciso manter isto em mente antes de nos introduzirmos a este álbum. As cores primárias estão lá, contrabalançadas por um conjunto de variáveis sonoras que não chegam a ser congestionantes. Ao falar sobre a sua táctica de composição, compreende-se que não se desgastou. É tão facilmente reconhecível que se torna confortável, sem chegar perto da insipidez da repetição. Visto de outro ângulo, Brant Bjork está numa incubadora perfeita de circunstâncias para ser mais um outro caso de ‘vamos fazer um álbum para continuar relevante’, o que não se aplica aqui. A magia de Brant Bjork funciona através da integridade para consigo mesmo, que é moderada pela tendência experimental, que vem manter a coisa interessante.

Sem dúvida mais comedido na sujidade com que tingiu os discos anteriores, estamos perante algo de mais sóbrio. Quando consumido em isolado, percebe-se que está encharcado de luz: é um álbum feel-good que cai bem, com um espírito vivo (ainda que um pouco) inquieto. O bom humor e o apreço despreocupado pela vida são o tema e a intenção. Também é verdade que quando pomos este álbum dentro da biblioteca discográfica de Bjork, não se faz inchar. Se alguém nos pedisse para listar títulos de álbuns de Brant Bjork de cabeça, talvez não fosse a quinta ou sexta menção, porque neste contexto acaba por não ser memorável. Este LP serve bem para um bom momento, é um foot-tapper crescidinho e é um híbrido amolecido dos seus precedentes.

O seu verdadeiro gerador é um groove genuíno e disciplinado. “Stardust Diamond Eyes” é o ponto de ebulição desta característica, onde o groove é encaminhado por umas baterias e linhas de percussão de inspiração brasileira severamente funky. A contar também com o arrancar de notas graves na guitarra, vai caminhando sem pressas até uma conversa articulada de instrumentos. Alarga-se num fuzz descontraído, a abrandar para dar entrada a uma melodia vocal melosa em aproximação. “Cleaning Out The Ashtray” segue o mesmo caminho, em que se destapa um solo psych que chega com uma tranquilidade imperturbável.

“Jungle In The Sound”, que abre o álbum, aparece como que um segundo braço a sair de “Jacoozzi”, com aquela mesma sensação nebulosa, nasty e sexy que se sustenta até à próxima faixa. Ambas incluem aquilo que são – poderá ser inoportuno dizer-se – uns solos com a cara chapada de QOTSA que acabam por viver uma vida muito curta. Em ambas as músicas há também uma textura dissolvida de maracas, mas que prova que estes detalhes fazem diferença. As secções rítmicas têm uma importância colossal para Brant Bjork, e este álbum não muda de figura. Aqui, esta preocupação espelha-se sobretudo nas texturas, embora não seja tão estremecido pela percussão como foi “Jacoozzi”. Ficou recatado a uma estrutura mais minimalista.

Falando na entrada de outras influências sonoras: se o seu precedente beneficiou de uma molduras jazzy aqui e ali, encontramos agora um foco de luz brutal no blues rock, que se entranha sobretudo em músicas como “Duke Of Dynamite” – ou, em caso de dúvida, “Jesus Was a Bluesman”. A base do stoner rock está como pano de fundo, segura pelo mostrar dos dentes da distorção. A base equilibra-se num baixo forte e uma bateria staccato e, a servir de elemento intensificador, temos uma pandeireta e o celebrar de um solo que escorre a grande e colorida Era dos 1970 por todos os lados – de qualquer forma, não foi com este solo que Brant Bjork nos conseguiu pôr de joelhos. Logo de seguida, “Shitkickin Now” segue o mesmo design, nitidamente blues rock com um grãozinho de country.

O álbum resolve-se com “Been So Long”, onde o minimalismo se afia. A força levitante que é a voz de Brant Bjork vê-se acompanhada unicamente por uma guitarra acústica a servir-lhe de pulso, num loop de progressão de acordes, para que a letra se torne na peça central. É sobretudo aqui que se consagra uma declaração objectiva de simplicidade.

Seria injusto acusar Bjork de fazer um álbum monótono, embora seja apetecível fazê-lo numa primeira escuta. É tão difícil evitar comparações como é gerir expectativas, sobretudo quando estamos a falar na ideia de um novo lançamento com o nome de Brant Bjork. Trata-se do eterno conflito de interesses entre o desenvolvimento do artista e a vontade de todos nós, junkies daquilo que nos foi dado com “Jalamanta”, “Saved by Magic” ou “Gods & Goddesses”. Quando ultrapassamos essa reticência, destapa-se a qualidade do trabalho de Bjork.

O stoner nasceu do isolamento inerente ao ambiente desértico. Porque o isolamento gera introspecção, força-se a atenção aos detalhes, que é crónica em Bjork. Essa atenção para com os detalhes não se desfez, mesmo que planeada de forma a que não sobrepovoe as faixas, com o objectivo de estimular um outro tipo de experiência. Como sempre, e mais uma vez, Brant Bjork criou, com este álbum, um espaço para a contemplação da vida onde se amortece a desordem, onde a limpeza da mente se imprime pelo tema do homem em existência consigo mesmo no cenário do deserto.

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