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Black Rainbows “Cosmic Ritual Supertrip”

Inegavelmente divertido e interessante, com a atitude cool agarrada à pele.

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Editora: Heavy Psych Sounds Records
Data de lançamento: 01.05.2020
Género: stoner/psych rock
Nota: 3/5

Inegavelmente divertido e interessante, com a atitude cool agarrada à pele.

A arrastarem o arquétipo do rock’n’roll com aquele que é o romance psicadélico com o space rock, os Black Rainbows vieram a habituar-nos a discos que valem slow-headbang e o bater tenso do pé. Estamos a falar em 13 anos de carreira e em oito álbuns que tiveram como objectivo esmagar-nos com a facilidade de uma prensa hidráulica. “Cosmic Ritual Supertrip”, que não tem objectivos diferentes a atingir, salta sobre nós com velocidade e mojo e o mesmo compromisso religioso para com o fuzz.

Rapidamente, entendemos que a criação deste álbum assenta no proporcionar de uma viagem pungente, o que na maioria das vezes – entenda-se, na maioria das faixas – foi bem sucedido. Começamos com a extravagante “At Midnight You Cry”, uma música de pé firme, com uma pitada de blues rock, mas que não permite alimentar grandes esperanças imediatamente. “Universal Phase” reaviva os ânimos, com um riff sólido e escultural, com um break que se incendeia a si próprio e com o rasgar das guitarras que vivem o seu potencial stoner por inteiro. Citações de filmes vão zumbindo ao nosso redor, com mensagens obscuras agregadas ao tópico das viagens espaciais, uma das tendências comportamentais do space rock.

Os Black Rainbows são muito bons em deixar as músicas respirar naturalmente, em permitir que os hooks vibrem quando precisam, sendo que a favor dos earworms têm vindo a introduzir refrãos mais acessíveis, sarapintados pela estrutura do refrão pop, que se misturam com a estética da rebelião de raça pura. No que respeita a este tipo de inclinações pop-ish, “Radio 666”, quer pela sua estrutura e pela qualidade cantável do refrão, é a faixa em que estas inclinações vivem mais com maior consistência. Embora seja uma música que contagia com inquietação, aparece aqui desbotada, sem que esteja na posse total da capacidade de chamar à atenção no contexto do álbum. Falando numa certa descontextualização, o álbum parece consistir sobretudo na acumulação de faixas nascidas do fluxo livre de composição. Encontramos nele várias experiências de sonoridade e estados de espírito que vemos aumentar de grau em cada música. Se o blues rock estava nos contornos da “At Midnight You Cry”, volta em “Snowball” e a assumir o maior traço de personalidade da música, com um final sensacional a abrandar o ritmo cardíaco, e que transforma novamente a nossa experiência em algo de colorido e invulgar. As faixas correspondem mais entre si como consequência directa da sonoridade estabelecida pela banda do que necessariamente por meio de um tema generalizado. Esta inconsistência de humores no decorrer do álbum torna-o adaptável aos nossos próprios estados de espírito – qual é a música do “Cosmic Ritual Supertrip” que me sinto agora? Simultaneamente – e porque as expectativas e as formas de consumo da música por parte da cada ouvinte são únicas -, se o plano é deixar o álbum girar e deixá-lo acompanhar ou incorporar um momento, este tipo de estrutura pode tornar-se instável.

A nastiness no álbum vem em colheradas espessas e sem refinamento em faixas como “Isolation”, com um break que rompe a música num estrondo entusiástico de distorção. O mesmo acontece no final dorido, primitivo e encarniçado de “Master Rocket Power Blast”. Já a via do psicadélico começa com “Hypnotized by the Solenoid”, com quem nos encontramos numa queda em câmara lenta, onde está uma vaga (e talvez acidental) referência a uma letra de Jim Morrison, e um solo que é um retrato estonteante do hard rock e do heavy psych dos anos 1970. As coisas acalmam na faixa seguinte, pujante em emoção e onde a hipersensibilidade para com os detalhes melhor se faz explicar. Seguramente, era uma música da qual nos íamos lembrar se estivéssemos perdidos a pairar no espaço.

Faixas como “Snowball”, “Glittereyezed” ou “Sacreed Graal” já trocam o espaço pelo deserto. Soam instintivas, com progressões de acordes que ficam bem com insolações. “Searching For Satellites Part I and II” pertence à mesma geografia, uma música composta simplesmente por cordas acústicas, vocais em reverb e uma porção reduzida de teclas, a terminar numa conversa verdadeiramente brilhante entre instrumentos. Podia ser o cântico oficinal do culto que vive num rancho hippie americano e é um pico de beleza no álbum.

“Cosmic Ritual Supertrip” começa e acaba na mesma nota de rigidez, com um solo visceral e o mesmo tipo de gravações old-school a sussurrar sobre a morte novamente. O que se pretende é um fechar do pano forte. Apesar disto, o que resta depois de ouvir este álbum é a ideia de que não estamos tão saciados quanto era de esperar mas também já não temos fome. Não é um álbum que consiga comunicar connosco a um nível profundo, especialmente quando envergamos pelo jogo das comparações face a discos anteriores, feitos de rigidez, de vivacidade multifacetada e uma pesquisa incansável pela motilidade. Temos isso, mas sem tanto olfato. A verdade é que não revela nada a que o seu público-alvo não tenha sido exposto antes, seja através de Black Rainbows ou de outros artistas. Também é verdade que tem o potencial de nos conquistar os ouvidos através da repetição, o que não está a ser prometido é o amor à primeira vista. É inegavelmente divertido e inegavelmente interessante, com a atitude cool agarrada à pele, e é um diagrama estranho entre o que está gasto e o intemporal.

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