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Benighted “Obscene Repressed”

O novo disco dos Benighted tem todos os elementos necessários para conquistar novos fãs e manter os mais antigos sem dificuldade.

Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 10.04.2020
Género: death metal
Nota: 4/5

O novo disco dos Benighted tem todos os elementos necessários para conquistar novos fãs e manter os mais antigos sem dificuldade.

Ao nono álbum, Julien Truchan, vocalista e membro-fundador dos Benighted, é o único elemento que permanece da formaçãoinicial do grupo francês passados vinte e dois anos sobre a sua origem. Com “Necrobreed” (2017), o quinteto de Saint-Étienne atingiu patamares e audiências mais vastas dentro do panorama do death metal, talvez graças ao compasso mais slam desse registo e à enorme inspiração que o levou a criar temas que entravam nos nossos canais auriculares à primeira e de lá não mais saíam: “Reptilian”, “Psychosilencer”, “Leatherface” e a própria “Necrobreed” apresentaram o nome Benighted à primeira liga do metal extremo. Talvez por isso não fosse de estranhar a grande antecipação em torno de “Obscene Repressed”, o novo trabalho que tem a ingrata tarefa de suceder satisfatoriamente a um disco que assenta nos ombros de gigantes.

“Obscene Repressed” toma o mesmo caminho de “Necrobreed” em alguns sentidos, mas, na sua essência, trata-se de um LP deveras afastado do death metal relativamente tradicional desse registo de 2017. Desta vez, os franceses decidiram retomar as severas influências de hardcore que apresentaram em trabalhos como “Identisick” (2006) ou “Carnivore Sublime” (2014), e isso nota-se inicialmente na duração média de cada um dos 14 temas – só uns poucos ultrapassam a marca dos três minutos, já que os Benighted apostaram num som ainda mais agressivo ao misturarem grindcore com o death metal técnico e (ainda) com algum slam à mistura a que nos habituaram desde sempre. A mudança de percurso é bem-vinda quando pensamos que, de facto, é difícil manter os ouvintes atentos ao fim de três ou quatro músicas a soarem exactamente ao mesmo, o que também é capaz de ajudar a explicar a curta duração de cada faixa.

“Obscene Repressed” é um exercício de death metal moderno que pisca o olho a baluartes clássicos como Napalm Death ou a mais recentes como Cattle Decapitation, embora com a assinatura dos Benighted, e essa assinatura reside essencialmente nos dois integrantes mais expressivos, nomeadamente Truchan e Kévin Paradis (bateria). Ao longo de todo o registo, o vocalista oferece-nos o que tem de melhor e reveza-se entre os grunhidos inumanos, os gritos furiosos e os pig squeals perturbadores que apurou ao longo dos anos. Já Paradis esmera-se como poucos bateristas da actualidade o fazem. Sim, existem imensos percussionistas talentosos dentro do metal extremo moderno, mas muito poucos conseguem criar o nível de emoção auditiva que Kevin entrega naturalmente, das passagens elaboradas e atípicas à constante utilização do seu kit de forma muito variada, rica e técnica. A velocidade não necessita de ser referida – vem da mão do Kévin Paradis que conhecemos. Também o novo conjunto de guitarras exibe uma banda sem medo de se comprometer, desfiando estruturas complexas, plenas de ousadia e até groovy a tempos.

Além da vertente mais hardcore do registo, a banda apostou noutros truques para diferenciar “Obscene Repressed” de “Necrobreed”, nomeadamente alguns temas cantados em francês que resultam igualmente em termos de visceralidade e agressão. A título de exemplo, “Brutus” é uma descarga de altíssima velocidade e na qual a língua francesa nada atrapalha. Em “Muzzle” ouvimos uma passagem de jazz/flamenco a meio do tema, algo que confere uma melodia rara ao som dos franceses e que volta a captar a atenção dos ouvintes. No entanto, os valores nucleares dos Benighted continuam bem presentes, a começar pelo conceito macabro que a banda abraçou em 2006. Nada como um tema como “Nails” para aguçar a curiosidade dos fãs e dos futuros fãs, com uma história e um vídeo grotescos, mais uma das marcas clássicas dos gauleses.

O disco avança incessantemente e, quando julgávamos que o ritmo iria abrandar, é precisamente quando acelera e carrega no botão do nitrogénio. A final “Get This” exibe o típico humor franco e mais um pig squeal digno de nota. Ouvido “Obscene Repressed”, é claro que os Benighted não tentaram fazer o redux de “Necrobreed” e nem tiveram essa vontade em mente. Preferiram antes regressar às origens mais agressivas e incisivas do death/grind, incidindo sempre na fórmula que foram aperfeiçoando ao longo de duas décadas, e o resultado é um muito bom disco de death metal, com diversas notas que destoam da vulgaridade e que agradará aos fãs da banda. Tudo dito, o novo disco dos Benighted tem todos os elementos necessários para conquistar novos fãs e manter os mais antigos sem dificuldade, mas (provavelmente devido a diversas mudanças de formação recentes) falta a “Obscene Repressed” o negrume, a miséria e a ruína moral tão presentes em “Necrobreed”, o que acaba por retirar algo a um registo (ainda assim) à prova de bala.

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