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Bedsore: «Uma jornada íntima através dos reinos do sonho e da morte do coração humano»

Bedsore. De Roma chega-nos mais um acto que se junta à horda metal italiana na conquista do mundo.

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«Em última análise, queremos que a nossa música seja caleidoscópica, que faça com que o espectador se perca nos limites das paisagens mentais.»

Bedsore

De Roma chega-nos mais um acto que se junta à horda metal italiana na conquista do mundo. É uma banda recente e, à data desta entrevista, pouco destaque tem pela web, sendo exigida insistência para ultrapassar a ambiguidade com conceitos médicos. Contudo, logo no primeiro momento de contacto, foram proeminentes a habilidade musical e combinação bem-conseguida de diferentes influências. Bedsore revelava-se um projecto bastante intrigante, maiores atenções vislumbravam-se no horizonte, e decidimos então convocá-los ao diálogo.

Começando pelo princípio, procurámos desvendar um pouco os primeiros anos da banda e a formação da parceria com a editora americana 20 Buck Spin: «Bedsore nasceu por volta do Verão de 2017, quando J e S – membros já comuns de SVNTH – começaram a trabalhar no material que foi composto para a nossa primeira demo auto-intitulada cerca de um ano depois. Em Setembro de 2018, a demo foi lançada, e após vários concertos, G e D, no baixo e na bateria respectivamente, entraram na formação em definitivo. As gravações de “Hypnagogic Hallucinations” começaram em Março de 2019. Neste momento, estamos entusiasmados por fazer parte da família 20 Buck Spin, por ser o lugar perfeito para a nossa música e ideias. Conforme lhes enviámos a promo, a vontade de colaborar foi praticamente imediata. De qualquer forma, esta editora teria sido a primeira escolha para nós, dada a total afinidade entre a nossa proposta e a deles, e estamos satisfeitos com o andamento das coisas. Esperamos que esta colaboração nos possa levar a objectivos mais distantes.»

Na promoção que a editora enviou à Metal Hammer Portugal, vinha descrito que o som da banda poderia interessar a fãs de um grande rol de bandas como Ghastly, Morbus Chron, Venenum e Goblin, entre várias outras. De facto, podemos ouvir traços dessas influências, mas quisemos saber o que realmente os inspirou a criar a sua música singular e o que dela pretendem artisticamente: «As fontes de inspiração para a nossa música são variadas, e a nossa proposta pode ser resumida como uma mistura de death metal, experimental e obscuro, combinado com rock progressivo dos anos 1970. Alguns dos artistas que adoramos e seguimos são Dead Congregation, Necros Christos, Venenum, Obliteration, Reveal!, Phrenelith, Morbus Chron, Maggot Heart e Blood Incantation, mas também Emerson, Lake & Palmer, Magma, Genesis, King Crimson e Tangerine Dream. É difícil dizer o que realmente nos influenciou, pois inspiramo-nos directa ou indirectamente nos mais diversos ambientes, da música avant-garde à música cinematográfica. Em última análise, queremos que a nossa música seja caleidoscópica, que faça com que o ouvinte se perca nos limites das paisagens mentais que constrói enquanto a escuta.»

«A música e o cinema italianos são uma das maiores fontes de inspiração para nós.»

Bedsore

À partida, o metal é um estilo internacional mas, no decorrer da sua história, vimos repetidamente focos geográficos gerarem movimentos que transformaram para sempre a sua definição. Com o metal extremo proveniente da Europa Mediterrânica (além da Grécia) a ganhar cada vez maior prestígio e relevância, abordámos o tema da cultura local e o impacto que teve na banda: «Certamente, a música e o cinema italianos são uma das maiores fontes de inspiração para nós. Morricone, Goblin, Area, The Bronze Ballet, Semiramis e Premiata Forneria Marconi são artistas com quem crescemos e que ainda hoje nos influenciam fortemente. Uma componente progressiva vinculada à nossa cultura é inegável dentro da nossa música, mas mais do ponto-de-vista do prog rock do que do prog metal. Visualmente, como demos a entender, gostamos de associar a nossa produção ao cinema de realizadores italianos, como Dario Argento ou Luca Guadagnino, e, claro, também outros realizadores internacionais, como John Carpenter, Denis Villeneuve, Robbert Eggers ou Paul Thomas Anderson.

O EP que criaram em 2018 era composto pelas faixas “At The Mountains Of Madness” and “Brains On The Tarmac”, cada uma com mais de oito minutos de duração. Embora ambas estejam presentes no LP, quando as comparamos com as faixas mais recentes, notamos que estas últimas são bem mais curtas. Isso reflecte uma mudança, não compositiva mas resultante da evolução da banda: «Na verdade, achamos que a intenção entre a nossa primeira demo e o novo álbum não mudou em nada. Afinal, as duas faixas também estão presentes em “Hypnagogic Hallucinations” e cobrem quase metade da sua extensão. O que certamente mudou foram os meios de que dispusemos para produzi-lo e, portanto, a produção é muito mais poderosa e mais próxima da ideia que temos da nossa música, que é violenta, mas ao mesmo tempo rarefeita.»

Ouvir “Hypnagogic Hallucinations” tem algo de desafio, pois as composições sofisticadas apresentam-se-nos num som cru, ao que se aliam transições impiedosas entre um death metal esmagador e secções de delicada calma. Mas a aberração em que o álbum poderia cair foi brilhantemente evitada, graças a um processo criativo bem estruturado que a banda generosamente nos detalhou: «Sempre nos propusemos a fazer música de uma determinada forma, seguindo uma concepção que é mais filha de intuições progressivas e experimentais do que propriamente do metal. Por outro lado, queríamos também tocar música sombria, ocultista e sobrenatural; portanto, a componente mais extrema das nossas influências pareceu-nos o veículo mais adequado. O resultado é certamente algo difícil de catalogar. Obviamente, existe a intenção de alcançar essa fórmula específica, embora inicialmente cada elemento da banda tenha vindo de ambientes diferentes (mesmo que muito parecidos): alguns com uma predisposição mais progressiva, e outros mais orientados para o tech metal. A nível prático, o processo de composição é geralmente gerido pelo J [voz, guitarra e sintetizadores] e pelo S [voz, guitarra e teclados], que definem a estrutura e o arranjo das peças, de maneira mais ou menos definitiva. Numa segunda fase, passamos à integração do baixo e da bateria, que são reescritos, trabalhados e enriquecidos pelo G [baixo] e pelo D [bateria], de uma maneira completamente natural e espontânea. Para as letras de “Hypnagogic Hallucinations”, usámos alguns poemas não publicados de Ebe Paciocco, enquanto as outras foram quase inteiramente escritas pelo J com a colaboração do S. No que diz respeito ao conceito, as nossas imagens líricas são inspiradas no grotesco, em experiências lisérgicas e transcendentais. Uma jornada íntima através dos reinos do sonho e da morte do coração humano.»

(Lê a análise ao álbum AQUI)

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