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Bathory “Under the Sign of the Black Mark”: marca negra

Quando algumas bandas de black metal se estavam a formar no final da década de 1980 e a dar os primeiros passos atabalhoados – mas agora endeusados – para mais tarde se tornarem ícones da cena durante meados dos anos 1990, já Quorthon tinha lançado três discos gigantes com Bathory: o homónimo (1984), “The Return……” (1985) e “Under The Sign Of The Black Mark” (1987). Por essa altura, já o thrash da Bay Area, nos EUA, estava emprenhado em tudo o que era revista e sala de ensaio à custa de bandas como Metallica, Slayer e Megadeth que lançavam álbuns de sucesso praticamente pré-garantido. Na Europa, e ainda que houvesse Iron Maiden, era tudo um bocado diferente. Na Suécia havia um tal Ace Börje Forsberg, mais conhecido por Quorthon, e era mentor de uma banda com o nome de uma das personagens mais sanguinárias e lendárias da Europa do Séc. XVI-XVII – nada mais, nada menos do que Erzsébet Báthory, da Hungria. As palavras ‘satanismo’ e ‘satânico’ ainda não eram uma parte preponderante do vocabulário musical, mas Quorthon, com o seu cabelo glam, já aparecia de calça elástica rota, com pulseiras/cintos de espetos/balas e ossos ao pescoço. Mal se imaginava que, daí a poucos anos, de ossos em cinza seriam feitas as igrejas norueguesas.

“Under The Sign Of The Black Mark” não tem uma faixa épica como “Odens Ride Over Nordland”, do álbum “Blood Fire Death” (1988) mas tem uma passagem de clímax fúnebre em “Call From The Grave” que ficou bem marcada para a posteridade, não tem a produção melhorada dos álbuns seguintes mas tem a matéria-prima de se escrever um riff que já por si só é cortante, sendo-o ainda mais se captado em condições pouco evoluídas. Há neste registo um virtuosismo ímpar se falarmos mesmo em black metal e não em bandas híbridas que se baseavam muito em thrash metal – sim, pode haver riffs esgalhados e alternados em Bathory, pois Quorthon não inventou a pólvora sozinho, mas “Under The Sign Of The Black Mark” é, sem dúvida, um álbum de black metal. Tudo aqui soa ao grito dos corvos, desde a própria voz de Quorthon às guitarras geladas que arranham os ouvidos saborosamente.

Este álbum de 1987 é a Marca Negra de todo um movimento astuto que soube usar os escassos meios que tinha disponíveis.

Qualquer álbum da fase inicial de Bathory pode ser considerado uma inspiração para o que ainda estava por vir, mas se ouvirmos bem e com atenção este terceiro trabalho, vamos perceber que Euronymous (Mayhem) não compôs riffs à toa, nem por obra do espírito santo – coisa que não se adequa muito ao black metal, o espírito aqui é tudo menos santo. Há qualquer coisa na faixa “Equimanthorn” que nos faz sentir que o black metal norueguês nasceu aqui, mesmo sendo um tema de origem sueca. E não é muito difícil perceber do que se trata: a guitarra veloz, medonha e apunkalhada que te parte as trombas como nenhuma outra banda de metal tinha feito. Ponham a “Freezing Moon”, dos Mayhem, ao lado desta “Equimanthorn” e tirem as vossas conclusões.

Este álbum de 1987 é, sem sombra de dúvidas, a Marca Negra de todo um movimento astuto que soube usar os escassos meios que tinha disponíveis. Se hoje existe black metal – ainda que a actualidade do género não seja aceite por todos –, deve-se a Bathory, deve-se a Quorthon, deve-se à Escandinávia, deve-se ao frio do Norte. O que não queríamos era dever alguma coisa à Morte, mas mesmo essa foi exímia e repentina como Quorthon, pois levou-o cedo demais. Que se ouça Bathory enquanto estamos vivos, o resto é vácuo.

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