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At the Gates: filosofia do pessimismo

Entrevista a At the Gates.

Foto: Ester Segarra

«”The Nightmare of Being” é profundo, negro e filosófico, portanto pudemos ir mais longe com as ideias progressivas que sempre quisemos incluir.»

Tomas Lindberg Redant

Mestres incontestáveis do death metal sueco, os At the Gates, formados em 1990, sempre foram uma força criativa destemida. Nos primeiros seis anos de carreira, que antecederam um hiato terminado definitivamente apenas em 2010, a banda ofereceu ao mundo do metal álbuns como a estreia experimental “The Red in the Sky Is Ours” (1992) e a mudança de paradigma “Slaughter of the Soul” (1995). Só em 2014 voltariam a lançar um disco, com “At War with Reality”, seguindo-se “To Drink from the Night Itself” (2018).

Avançando-se para 2021, os At the Gates regressam em grande com “The Nightmare of Being”, um álbum conceptual que explora as negras revelações contidas na filosofia pessimista. O vocalista Tomas Lindberg Redant conta de onde vem o conceito: «Tinha lido algo de Thomas Ligotti. Ele escreve terror e há ali muita coisa de Lovecraft e filosofia negra – a filosofia do pessimismo. Depois descobri que escreveu outro livro chamado “The Conspiracy Against the Human Race”, que é uma biografia do pensamento pessimista. Pensei: ‘Uau, que porreiro…’ Entretanto comecei a ler – era ele a defender a sua visão do mundo e a ir ao detalhe sobre outros autores pessimistas e como podem ser ligados ao género do terror. Ele deu tantos nomes nesse livro que isso foi um ponto de partida para descobrir outro material, e depois percebi onde queríamos ir com este disco.»

Diferente de outros trabalhos na discografia, “The Nightmare of Being” desce às profundezas do existencialismo na ala lírica e conjura uma musicalidade inventiva e ousada que une as marcas sonoras de At the Gates a desvios ao prog e a arranjos orquestrais. «Disse ao Jonas [Björler, baixo] que queria que isto fosse um disco realmente negro», recorda Tomas. «O anterior era negro, mas talvez mais agressivo. Era mais sobre dificuldades e resistência. Este é mais profundo, mais negro e mais filosófico, portanto disse ao Jonas que ele podia ir mais longe com este, com as ideias progressivas que sempre quisemos incluir. Muito cedo, ele apareceu com os primeiros esboços para a “Garden of Cyrus”, que é a faixa mais King Crimson do álbum. Depois demos conta que conseguíamos fazer isto e nada mais nos travou. Claro, não é o álbum mais comercial, mas nenhum dos álbuns é, e são todos diferentes.»

«É um bocado estranho sermos julgados pelo “Slaughter of the Soul” porque todos os outros álbuns são muito mais interessantes.»

Tomas Lindberg Redant

“The Nightmare of Being” é o resultado de uma fase criativa muito fértil com o compositor principal Jonas Björler a aceitar entusiasticamente as ideias líricas de Tomas. Embora continuemos a ouvir o death metal contundente, este sétimo álbum dos nórdicos apresenta-se mais imaginativo com temas prog, como o mencionado “Garden of Cyrus”, e outros influenciados pelo krautrock, como “Cosmic Pessimsm”. Tomas recorda a facilidade com que tudo se desenrolou: «A meio do processo de composição demos um concerto no Roadburn 2019. Foi o maior projecto que já fizemos e achámos que as pessoas estavam nisso. Abrimos com uma música de King Crimson e fizemos um cover de Philip Glass – as pessoas não recuaram e acho que isso nos disse que ninguém iria achar isto demasiado estranho se fôssemos com tudo no disco. Acho que um verdadeiro fã não ficará chocado com um saxofone. Compreenderão completamente que adoramos Coltrane e Crimson, portanto é lógico. Tivemos um violino no primeiro disco há 30 anos – percebes o que quero dizer?»

Gravado em vários estúdios, “The Nightmare of Being” pode soar colossal mas ao mesmo tempo há nele onda onda que tanto é íntima como opressiva. Com o guru Jens Bogren a supervisionar a bateria de Adrian Erlandsson e o lendário guitarrista Andy La Rocque a tomar conta das guitarras e do baixo, o álbum acaba por ser um esforço colaborativo. «Quando percebemos que íamos por este caminho com arranjos esquisitos e que íamos mergulhas nestas águas escuras, pensámos que talvez devêssemos ter um toque mais natural e analógico, mas que também fosse nítido para que se possam ouvir todos os detalhes», relembra Tomas. «O Jens tratou da bateria, e ele é muito dado a detalhes. Mas depois quisemos gravar todas as guitarras e baixo com o Andy porque ele tem um grande ouvido. E traz ao de cima os riffs e os solos tão limpos quanto possível porque é um guitarrista doutro nível. Ele toca o solo da [faixa] “Spectre of Extinction”, o que é excelente, claro.»

Trinta anos depois é impossível não se olhar para trás, mas Tomas, em jeito de conclusão, não é homem de ficar preso ao passado, tecendo até críticas ao álbum mais bem-sucedido dos At the Gates. «Sim, para algumas pessoas somos a banda com um só álbum de 1995. A sério, o “Slaughter of the Soul” destaca-se na nossa carreira como o disco mais unidimensional que alguma vez fizemos! [risos] Por isso, é um bocado estranho sermos julgados por esse álbum, porque todos os outros são muito mais interessantes, e o novo é o mais interessante de todos. Acho que a maturidade de se estar aqui há 30 anos tem algo a ver com isso. Não podíamos ter feito isto antes. Mas vamos sempre em frente.»

“The Nightmare of Being” tem data de lançamento a 2 de Julho de 2021 pela Century Media Records.

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