Entrevista a Artillery. Artillery: confiança no thrash
Foto: cortesia Metal Blade

«Teremos sempre saudades do Morten.»

Michael Stützer sobre o irmão guitarrista falecido em 2019

Década de 1980. Enquanto nos EUA rebentavam bandas como Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax, na Alemanha surgiam nomes como Kreator, Sodom, Destruction e Tankard. Por outras palavras, mais do que dois continentes, é o Big 8 do thrash mundial. Na Dinamarca também alguém andava a fazer das suas. Banda contemporânea destes gigantes, os Artillery lançavam o primeiro álbum “Fear of Tomorrow” em 1985.

Com dois hiatos pelo meio de uma carreira iniciada em 1982, os dinamarqueses continuam a lançar álbuns, como prova o décimo e adequadamente intitulado “X”. Tantos anos depois, o som dos Artillery continua implacavelmente pesado, cativante, melódico e puro. «Queríamos ter as marcas típicas de Artillery, como os riffs e os hooks na sua habitual combinação com agressão e melodia», comenta o guitarrista Michael Stützer através da Metal Blade Records. «Tentamos sempre combinar thrash metal melódico com elementos de sons pesados dos 70s e 80s. Não temos de nos esforçar muito quando escrevemos um disco porque adoramos o que fazemos.»

A alegria comemora-se, mas nem tudo é festa. Em 2019, Morten (guitarrista e irmão de Michael) faleceu aos 57 anos, afectando compreensivelmente a banda. Ao longo da sua estadia nos Artillery, ajudou a moldar o som do grupo e participou em todos álbuns até “The Face of Fear” (2018). «Foi duro – mesmo que ele já não tocasse ao vivo desde 2016, apoiou-nos sempre», afirma Michael. «O Morten era um músico e compositor único, e um tipo muito humorado, e após a sua morte foi a primeira vez que pensei em parar de tocar. Mas ele sempre disse que eu tinha de continuar com Artillery e continuar a tocar caso ele já não estivesse cá. Teremos sempre saudades dele.»

Por mais estranho que possa ter sido começarem um novo álbum sem Morten, Michael & Cia. prosseguiram com o desejo do amigo, recrutando Kræn Meier definitivamente, homem das seis cordas que já subia ao palco com a banda desde 2017. «O Kræn é um tipo excelente e um grande guitarrista, e contribuiu com algumas boas canções e alguns bons solos. Ele já era um grande fã de Artillery, portanto é óptimo tê-lo na banda.»

Enquanto o título do álbum se traduz por si próprio, o conteúdo lírico vai em várias direcções. Assim, o conceito do registo vai de faixas com teor mais complexo, como “Beggars In Black Suits” que questiona para onde realmente segue o dinheiro doado a causas, a assuntos mais mundanos, como o fascínio pelo satanismo (“The Devil’s Symphony”) e meras discussões interpessoais (“In Your Mind”). Michael explica: «Acho que injustiça social, corrupção, dificuldades pessoais e o absurdo da vida surgem frequentemente nas letras de Artillery. É sobre encarar o que receias, abordar a dor e, por vezes, pensamentos proibidos que possas ter.»

Entre o regozijo de se lançar mais uma colecção de músicas inéditas e a tristeza de se perder um irmão, os Artillery não deixaram que a chama se apagasse, e trabalhar no Meddley Studio em Copenhaga, Dinamarca, com Søren Andersen foi mais uma aceitação da realidade e vontade de se ir adiante. «Como sempre, divertimo-nos muito quando gravamos, mas claro que continua a ser profundamente sério. O Søren é um tipo excelente para se trabalhar e gosta de boas piadas, e quando acabamos as sessões temos tempo para uma cerveja e uma boa conversa sobre o dia de trabalho», confessa Michael.

Com uma carreira já longa e invariavelmente considerável, é Michael Stützer quem remata da melhor maneira: «É excelente e incrível andar aqui há quase 40 anos. Estou muito contente e tenho muita sorte por poder fazer o que amo – fazer álbuns e andar em digressão pelos nossos maravilhosos fãs. Se alguém me dissesse há 40 anos que teria feito 10 álbuns e tocado em mais de 60 países, não acreditaria.» Pode acreditar. Artillery ainda dispara.