Anneke van Giersbergen, a mítica voz do período dourado dos The Gathering. Anneke: «Continuam a pensar que a minha vida é levantar tarde e consumir drogas»
Foto: Mark Uyl

Anneke van Giersbergen, a mítica voz do período dourado dos The Gathering, não estava a passar uma fase boa em 2019. O seu casamento não estava na melhor das fases e a sua banda recentemente formada – os Vuur – estava a absorver um grande investimento e, com apenas um disco editado, a retornar pouco dinheiro. Anneke refugiou-se numa pequena cabana de campo nos arredores de Eindhoven, onde vive, e compôs as músicas que agora são lançadas no seu novo disco “The Darkest Skies Are the Brightest” – uma colecção de canções despidas e honestas, editadas em nome próprio, e onde Anneke exorciza os seus demónios.

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Qual era o sítio mental onde estavas quando começaste a composição do disco? Consegues recordar os sentimentos exactos que tinhas quando escutas as canções agora?
Sim, apesar de entretanto ter passado pelo processo de resolver os problemas e enfrentar os desafios. Tudo isso muda depois de escrever canções sobre os temas. Quando escuto as músicas agora, tenho memórias com certeza, mas parece-me também que já sou um ser humano um pouco diferente de há um ou dois anos. Porque aprendi, passei pelas coisas… Então tornei-me um pouco mais sábia. [risos] Acho que mudamos sempre um pouco nas situações por que passamos.

Então olhas para os temas do álbum com um pouco de perspectiva, como se fosse uma foto.
Sim, exactamente.

Tinhas uma ideia clara de que estas músicas seriam um álbum assim que as começaste a compor ou não sabias na altura?
Sim, sabia. Na verdade estava a escrever para um novo disco de Vuur e, por isso, comecei por compor canções de metal. Mas tudo o que saía era muito melancólico, muito suave, em guitarra acústica e piano. E a dada altura não podia continuar a ignorar isso. Até aí pensava: ‘Ok, ponho-lhe um riff de metal, vai ficar óptimo.’ Porque queria fazer um segundo disco de metal com Vuur. Quando me apercebi que seria impossível, tive de seguir o meu coração e percebi que o meu disco seguinte seria um a solo, acústico e melancólico.

Estas coisas sobre as quais escreves no disco são sempre difíceis, mudam a vida de uma pessoa, mas também dão óptimos álbuns. O que achas que te teria inspirado se não tivesses passado por tudo o que passaste no momento em que compuseste o trabalho?
Acho que teria feito um novo álbum de metal, apesar de ter sido difícil começar de novo com uma nova banda, um novo nome e um álbum de estreia. Foi muito complicado manter a banda a rolar. É como um grande comboio a diesel… Se não o abastecermos, ele pára. Foi difícil… Mas a partir do momento em que pisávamos o palco, era fantástico sentir aquela bola de energia, sentir a energia do público, tocar nos grandes festivais. Adorei tudo isso. Nesse sentido, queria muito escrever um novo álbum de metal, porque adoro essa energia. Se não fossem todas aquelas coisas caóticas na minha vida, que precisavam de atenção, teria com certeza escrito um novo trabalho mais pesado. E acho que essas músicas ainda estão aqui algures, estão à espera de sair da minha caneta um dia destes.

O disco é um pouco inspirado por toda essa experiência que tiveste em montar a banda Vuur, em pôr o comboio em andamento e não deixá-lo parar. Será que isso te fez repensar o modo como a indústria musical funciona actualmente em oposição a como funcionava há duas ou três décadas?
Isso são as coisas práticas… O dinheiro e o tempo investidos, quer tenhamos ou não uma editora a apoiar-nos. Todas essas coisas fazem diferença e parece-me que talvez as editoras antigamente não tivessem tantos artistas mas gastassem um pouco mais de tempo e investissem um pouco mais em cada um. Mas hoje em dia passa-se muita coisa online, é preciso ter presença nas redes sociais, é preciso estar presente no Spotify… Mudou tudo nessa perspectiva. Cada vez que lançamos um álbum, temos de acompanhar o que se passa no mundo e na indústria musical nesse momento. Temos de ver o que as pessoas da nossa idade fazem, mas perceber também o comportamento do público mais jovem e de como está nas redes sociais. Existem muitas coisas em que pensar quando lançamos um álbum. Mas tento, tanto quanto possível, não pensar muito nisso… Apenas escrever canções e ver o que acontece. [risos] Obviamente, temos a editora, o management e todas as outras pessoas à nossa volta que pensam nessas coisas. Se for eu a pensar nessas coisas, é um pouco demais para mim, sobretudo em termos de negócio. Mas é um lado necessário e faço o que for preciso para lançar o meu álbum. Sou um pouco antiquada em muitas coisas, mas tenho de tentar ser inteligente nestas.

Como artista, é frustrante saber – ou sentir – que tens um bom disco, com excelentes canções, e que podes mostrá-las a qualquer pessoa no mundo, mas todas as pessoas do mundo estão tão inundadas de informação, novos discos, novos artistas, que dificilmente prestarão a atenção devida ao teu disco?
Sim e não. É fácil perceber que existem imensas bandas e artistas bons por aí e toda a gente quer o foco no nosso timeline das redes sociais, na loja de discos, nas playlists do Spotify e em todo o lado. Temos de trabalhar muito para sermos visíveis. No entanto, por vezes também não faz mal recuar um pouco, escrever música, totalmente concentrados em compor e gravar, sem estar sempre online. Porque as pessoas em geral e os artistas em particular também têm muito receio, como referiste, de serem esquecidos se não partilharem alguma coisa todos os dias [nas redes sociais]. Mas, de alguma forma, isso não me aflige. Por vezes desapareço um pouco, escrevo, gravo um álbum e depois apareço com algo que seja realmente bom… Pelo menos tão bom quanto possivelmente consigo fazer. Acho que se o meu foco estiver aí, terei melhores resultados, melhores reacções, melhores discos, melhores capas e uma performance melhor. E será honesto, será sincero… E essa energia vai transcender, vai ser melhor do que: ‘Ei, ela está todos os dias na minha timeline.’ Isso não é necessário, na minha opinião. Mas com cada novo disco pensamos: ‘Espero que gostem. Espero que percebam que saiu e que o oiçam.’ É claro.

Fazes sempre grandes parcerias de composição nos teus discos. Como foi o trabalho desta vez com o produtor Gijs Coolen?
Foi muito agradável. Conheço-o há muito tempo e ele costumava tocar na banda que me acompanhava a solo. É um fantástico guitarrista, compositor e produtor. Com este disco a ser tão suave e melancólico, ele era perfeito para ajudar-me porque é uma pessoa muito calma. Pensa nas coisas, demora o seu tempo. É muito honesto, não procura o domínio mundial, só quer fazer algo bonito. [risos] Era precisamente o que precisava com este tipo de álbum, tão pessoal e tão puro. Tinha de ter alguém ao meu lado que não me dissesse: ‘Se fizeres isto podes passar na rádio.’ Precisava de alguém que me dissesse: ‘Isto encaixa no espírito do álbum. Isto encaixa na tua personalidade.’ Depois precisava de ajuda com as partes de guitarra, com os arranjos das canções e com as componentes de percussão. Ele era a pessoa perfeita para isso.

Não contei, mas este é provavelmente o disco em que proferes mais vezes a palavra amor nas letras. Este abrir de coração faz-te sentir, de alguma forma, exposta ou a tua experiência faz com que consigas fazê-lo sem te sentires muito desconfortável?
As duas coisas. O facto de falar sobre as razões pelas quais escrevi este álbum ajuda. Muitas canções são sobre amor e sobre a vida e isso expõe-me e deixa-me um pouco vulnerável quando falo sobre isso. No entanto, notei que existem muitas pessoas a passarem o mesmo que passei, porque somos todos seres humanos com relacionamentos, trabalho, stress e família. E as coisas estão sempre a correr mal a toda a gente. Por isso, ao mesmo tempo, esta temática é algo que qualquer pessoa compreende. No entanto, quando entrámos na situação de confinamento no início de Março do ano passado, pensei ‘Ok, vou lançar um álbum nesta altura, que é principalmente sobre coisas que se passam na minha vida, mas o mundo está a arder, estão a passar-se montes de coisas importantes na sociedade.’ Estava relutante em falar das minhas coisas pessoais. Mas notei que, apesar de estarmos numa pandemia e em confinamento, as pessoas continuam a ter os seus próprios problemas pessoais. E sinto-me um pouco mais à-vontade a falar sobre isso, sabendo que as pessoas podem ouvir o disco e podemos partilhar as experiências em oposição a não dizer nada porque achamos que o mundo está voltado para outras coisas neste momento. Mas continuamos todos a viver as nossas vidas. Mesmo em confinamento.

É bom ter um pouco de luz no dia-a-dia, numa altura em que acendemos a TV ou olhamos para as redes sociais e é tudo muito sinistro. É uma maneira de equilibrar as coisas.
Penso o mesmo e sinto o mesmo em relação à música que ouço. Tenho essa experiência de ver que saiu um álbum novo de um artista de que gosto, ouvi-lo e perceber qual é a perspectiva dele sobre as coisas. O mesmo com autores ou pintores. Precisamos desse tipo de coisas nas nossas vidas.

Nos anos 40 e 50, o mundo também não estava a passar pelos seus melhores momentos e poucos anos depois a música transformou-se em algo mais psicadélico. Existe um padrão de comportamento que faz com que as pessoas queiram uma arte mais escapista de modo a poderem esquecer um pouco a realidade negra em que estão.
Que melhor forma do que a arte, a música e as artes visuais para enfrentar períodos difíceis? Como dito, existiu um período interessante em que as pessoas queriam falar sobre as coisas mas tinham medo delas ao mesmo tempo. Nos anos 70 existiam os hippies, todas as drogas e o escapismo… Mas por outro lado, eles estavam muito envolvidos politicamente. Enquanto espécie, nós, os humanos, tentamos sempre encontrar uma forma de passar aquilo por que temos de passar. Porque não há ninguém que não tenha desafios. Podemos escolher tentar evitá-los mas isso far-nos-á infelizes, por isso temos de encontrar uma forma de enfrentar o que quer que precisemos de enfrentar nas nossas vidas. Na sociedade, quando dizemos que somos músicos ou que vivemos da música, que é a forma como ganhamos dinheiro, temos muitas vezes a reacção: ‘Mas isso é um passatempo.’ Quando era mais nova passei muito por isso mas mesmo hoje em dia, em que já faço música profissionalmente há 25 anos, as pessoas continuam a pensar que a minha vida é levantar-me tarde e consumir drogas. É muito importante que as pessoas possam abrir o Spotify ou pôr um álbum a tocar para terem algum alimento para a alma. O mesmo se passa com a pintura e a arte em geral. Olhar para uma estátua e apreciá-la é uma forma de nos sentirmos melhor. E agora com a pandemia, em que os músicos não podem tocar ao vivo, as pessoas começam a sentir falta dos concertos e a levar um pouco mais a sério esta profissão.

As pessoas que costumam dizer ‘ok, és músico, mas qual é a tua profissão?’ são as mesmas que não são capazes de passar um dia fechadas em casa, em lockdown, sem nenhum tipo de arte: música, séries, filmes ou um livro.
Basta pensar nas casa em que estamos fechados. Muitas vezes temos salas lindas e muito funcionais e não pensamos que alguém as desenhou. Alguém fez um esforço consciente e profissional para que a nossa sala fosse bonita e funcional, de modo a que nós disséssemos: ‘Gosto disto, gosto das cores, é bonita e prática.’ Mas tudo na tua sala e na minha sala é pensado. Mesmo que seja estático. E tomamos essas coisas um pouco como garantidas. Acho que uma das coisas positivas deste confinamento é que as pessoas começam a apreciar um pouco mais e a levar mais a sério aquilo que fazemos na vida.

Como te tens aguentado nesta pandemia, sem concertos e sem o seu subsequente rendimento?
É desafiador. [risos] No meu caso, 90% do meu rendimento vem de tocar ao vivo e isso desapareceu tudo. Fiz este projecto de cantar em álbuns de outras pessoas, que é algo muito divertido e que me garantiu alguns fundos, o que foi óptimo. Fomos fazendo uns trocos aqui e ali com isso e algumas outras coisas, e não estamos tão mal como alguns artistas neste momento. Sei de algumas pessoas que estão totalmente derrubadas com isto tudo. Tivemos algum apoio da família e tínhamos algum dinheiro no banco, que agora se foi todo. [risos] Mas ainda cá estamos, o que é fantástico. Mas espero que a situação não se mantenha por muito mais tempo, senão muita gente – incluindo eu – vai estar em grandes apuros.

Achas que hoje em dia a indústria musical depende demasiado dos concertos enquanto aquilo que vai ficar aqui depois de os artistas desaparecerem – que são os álbuns – é um pouco desvalorizado?
Sim, isso é verdade. O meu álbum esteve em pré-venda. Então nesse momento fizemos um pouco de dinheiro com a pré-venda para podermos fabricá-los. É assim que tem funcionado. As pessoas ficam muito satisfeitas em apoiar-nos quando dizemos: ‘Ok, tenho algumas t-shirts. Tenho o álbum em pré-encomenda. Se me quiserem ajudar comprem algum merchandise.’ E as pessoas ajudam. É muito simpático que queiram ajudar. A nós cabe-nos facilitar esse processo – criar merchandise e vender coisas online como estamos a fazer agora.

Onde ficam os Vuur no meio disto tudo? Existe algum disco a sair em breve?
Neste momento estou a focar-me neste disco a solo. Quando tiver luz verde vou iniciar uma digressão grande, provavelmente sozinha – apenas eu e a guitarra. Mas quando tiver canções mais pesadas ou quando trabalhar com alguém mais do metal ou do prog, vou lançar essa música sob o nome Vuur. Por isso, o projecto ainda existe – está meio no background, mas posso voltar a ele quando quiser.