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…and Oceans “Cosmic World Mother”

Quem valoriza o conforto das reminiscências do passado ou, simplesmente, solidez e boas composições, ficará certamente bastante agradado com este momento redentor.

Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 08.05.2020
Género: black metal
Nota: 3.5/5

Quem valoriza o conforto das reminiscências do passado ou, simplesmente, solidez e boas composições, ficará certamente bastante agradado com este momento redentor.

Um interregno de dezoito anos desde o último LP dos …And Oceans e as incursões dos elementos da banda por paisagens distantes do black metal sinfónico suscitaram bastante curiosidade sobre o que nos trariam de novo. “Cosmic World Mother” refere-se à grande divindade feminina à qual se associam conceitos como o poder da criação, espiritualidade e consciência universais. Assim, fazer recair a escolha sobre esse título e procurar manifestar tais concepções numa forma musical é algo ambicioso.

A sonoridade do álbum apresenta a conjunção entre os elementos sinfónicos, recuperados do passado, com o sentido inovador e electrónico dos trabalhos mais recentes da banda. Numa análise mais atenta, vemos que as composições assentam numa triangulação entre guitarras, sintetizadores e bateria. As guitarras garantem o black metal, inquietas e impiedosas, com elevado sentido estético e riffs que rapidamente nos enlevam. Por sua vez, o trabalho nos sintetizadores enfatiza a componente melódica das composições, conferem-lhe diferentes camadas e profundidade. Mais do que isso, estabelecem diálogo permanente com as guitarras, resultando no equilíbrio entre a secção melódica: se as guitarras assumem papel viril no álbum, pelo carácter térreo, bruto e energético, já os elementos sinfónicos e electrónicos transmitem a delicadeza, o etéreo e o místico em contraste. Evitando um protagonismo esmagador, Kauko Kuusisalo, na bateria, encarrega-se de dar sustentabilidade a esse duelo e revela-se como a real força motriz. Não só ao nível da dinâmica, mas como elemento agregador e, ainda, como foco de interesse em momentos de inércia nas músicas. Fazendo uso da totalidade do kit, entrega-nos um trabalho tanto astuto como subtil. O baixo manifesta-se como um ar pesado e invisível, ficando responsável pela densidade da música. Mas se em músicas como “Vigilance and Atrophy” e “The Flickering Lights” ganha forma, nas demais reserva-se a uma expressão em segundo plano. Inesperadamente, também a voz de Mathias Lillmåns ficou um pouco na penumbra, embora seja irrepreensível. Contrariando a estrutura tradicional das faixas, à voz e aos instrumentos foi concedido um nível de volume muito próximo. O resultado assemelha-se a uma ténue cortina de pó que impede distinguir-se com clareza os diferentes elementos, reduzindo o sentido de profundidade e de amplitude, próprios do cosmos, e que seriam indispensáveis ao conceito geral do álbum.

Certamente que a coesão na linguagem musical revelava-se um dos principais desafios, acentuado pela inclusão de novos elementos, mas a maturidade da banda fez aqui diferença: uma enorme coesão foi alcançada, não só na sonoridade como também nas estruturas, tradicionais, e até mesmo na duração individual das faixas. A homogeneidade e fluidez entre elas compõem uma das características principais do álbum, podendo mesmo perde-se de vista a diferenciação entre composições às primeiras passagens. Após a audição dos singles, que ocupam as primeiras três faixas, ficamos com um panorama geral do álbum que engloba vários momentos saudosistas. Com 11 faixas, é bem-sucedido por não ser demasiado longo, foi mantido o foco, e todas as faixas agem como mutações dum mesmo ser. A faixa-título aborda-nos com um início brutal e frenético, que julgamos ir abrandar com a entrada dos versos, mas, pelo contrário, continua. Mais uma vez, o risco de monotonia ou perda do efeito inicial é aqui controlado pelos discretos contratempos na bateria. Esta será das faixas onde são proeminentes os apontamentos psicadélicos, mas que num ápice são engolidos pela agressividade da voz e das guitarras. “One of Light, One of Soil” faz-nos uma síntese do álbum em apenas 3’17’’, sendo totalmente objectiva e dando ainda espaço para secções de diferentes dinâmicas. Em “The Flickering Lights” temos finalmente guitarras e sintetizadores em uníssono, a mid-tempo, para o abrandar da jornada e chegar à sua conclusão.

No final, percebemos que a disrupção que o nome do álbum insinua acabou por não se concretizar. O pioneirismo ou a inovação existem, mas muito discretamente. Portanto, o encontro com a Great Cosmic Mother significará aqui uma primeira etapa, o encontro do ser primário com o ser actual, restabelecendo-se a conexão entre ambos e o universo. Encontramo-nos numa nova década e num ano prolífero em desafiar concepções estabelecidas, transformando profundamente o mundo da música. A recepção e avaliação deste álbum serão condicionadas mediante os valores de quem o ouve. Para aqueles que encaram este momento como uma oportunidade para vislumbrar o futuro, para quem a originalidade é crucial, “Cosmic World Mother” não será satisfatório. Mas para quem valoriza o conforto das reminiscências do passado ou, simplesmente, solidez e boas composições, ficará certamente bastante agradado com este momento redentor.

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