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Akhlys “Melinoë”

“Melinoë” é uma soberba peça de música que tanto nos inflige horror como incende exaltação. É um álbum que faz bem-vinda a escuridão da noite porque encontrar os seus mistérios e as entidades temíveis que encerra revela-se uma vivência tão tremenda quanto fascinante.

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Editora: Debemur Morti Productions
Data de lançamento: 14.12.2020
Género: black metal
Nota: 4.5/5

“Melinoë” é uma soberba peça de música que tanto nos inflige horror como incende exaltação. É um álbum que faz bem-vinda a escuridão da noite porque encontrar os seus mistérios e as entidades temíveis que encerra revela-se uma vivência tão tremenda quanto fascinante.

Finalmente chegamos aos últimos dias deste 2020 exicial, recordando que de tenebrosos momentos surge a melhor arte – assim foi com a criação de Akhlys e com o seu novo álbum “Melinoë”.

O prolífero Naas Alcameth tem criado vários projectos, explorando temáticas específicas em cada um deles, e Akhlys surge inspirado nos episódios de paralisia do sono por ele vividos. Dessas experiências apresenta-nos uma interpretação profundamente esotérica, em que evoca a mitologia grega com a deusa Áclis a dar a tónica de um ambiente onde imperam as trevas, o medo, o caos e a morte. Após uma primeira experiência dark ambient, o segundo álbum “The Dreaming I”, de 2015, revelou-se excepcional, colocando uma fasquia bem elevada para tudo o que de Akhlys viesse depois disso.

Maravilhosamente retratada na capa, “Melinoë”, deusa grega dos fantasmas, dos pesadelos e da loucura, foi a musa escolhida para este registo e a sua aura envolve-o em todas as dimensões. A confluência dos vários elementos para o mesmo conceito – o que entendemos por álbum conceptual – encontra aqui um exemplo ilustre. O horrífico consubstancia-se para além da arte gráfica, do nome das faixas e das letras, pois Alcameth criou música que transmite verdadeiramente o tema do álbum.

A inconfundível assinatura deste músico está presente nos padrões hipnóticos das guitarras que, em vórtice, conduzem a alterações de estado muito próximas de um transe. Também a sua voz chiada reconhece-se de imediato, tendo sido mantida a combinação com um tom grave, medonho e transcendental, como se se tratassem de entidades alternantes, enriquecendo bastante as músicas. Mas dificilmente se falará de Akhlys sem se mencionar o trabalho de bateria. Ain já tinha impressionado e Eoghan (Aoratos) dá continuidade a esse legado com uma prestação impiedosa. A secção dos tambores é tão feroz e opressora que nos deixa estáticos, sem fôlego, e habilmente vai criando variações de forma a assumir uma matiz diferente a cada passagem. Sendo também marca do projecto, os sintetizadores actuam como o nevoeiro maligno da própria Áclis, envolvendo o álbum desde o início ao fim, e que se torna mais denso em “Succubare”.

Camadas sobre camadas criam a profundidade sonora deste álbum complexo que faz revelar segredos a cada audição. São apenas cinco músicas e cada uma foi detalhadamente construída, exigindo para si todo o foco de quem as queria apreciar em pleno. A estrutura do álbum foi melhorada relativamente a “The Dreaming I” pela forma como as faixas foram organizadas e se interligam. “Somniloquy”, sendo a primeira, faz uma ponte com o registo anterior através dos momentos de silêncio-explosão desconcertantes que lhe eram característicos. É uma fórmula eficaz para arrebatar o ouvinte e provocar uma sensação de vertigem a anteceder a colossal “Pnigalion”. Durante 12 minutos, amarras invisíveis impedem-nos de escapar desse pesadelo, enquanto ritmos esmagadores nos absorvem num ritual asfixiante. Com as duas primeiras faixas a serem totalmente arrasadoras, “Succubare” é um interlúdio dark ambient que nos traz o alívio necessário. Às vozes demoníacas que invadem a mente e corrompem o espírito, segue-se um ambiente tão sinistro que o simples acto de inspirar apresenta-se arriscado. Apesar do ritmo mais lento, percebemos que afinal não tão cedo nos serão dadas tréguas. Depois de “Ephialtes” recuperar de forma exímia as dinâmicas black metal, “Incubatio” vem encerrar o álbum. Nos momentos iniciais, a faixa aparenta ser instrumental, à imagem do álbum anterior e de muitos outros do universo metal que exploram o drone ou o dark ambient. Subitamente, recebemos um choque assombroso, acelerando a pulsação e espalhando ardor por todo o corpo. No final, a proeminência das teclas, a par do abrandamento de ritmo, dão-lhe um sentido de sagrado, como uma catarse sobre o medo, fazendo com que o título “Incubatio” e o lugar de última faixa lhe assentem perfeitamente.

“Melinoë” não se distancia dos ambientes que Alcameth tem criado nos seus diversos projectos, tal como não traz um salto evolutivo equiparado ao que houve entre “Supplication” e ”The Dreaming I”, mas é um aperfeiçoamento do que foi criado até agora. E se “The Dreaming I” já era excelente, ter conseguido superá-lo é realmente um feito admirável. A mestria musical que encontramos no álbum é irrepreensível, construindo uma narrativa que induz no ouvinte todo o imaginário e as emoções intensas geralmente associadas à paralisia do sono. Por isso, “Melinoë” é uma soberba peça de música que tanto nos inflige horror como incende exaltação. É um álbum que faz bem-vinda a escuridão da noite porque encontrar os seus mistérios e as entidades temíveis que encerra revela-se uma vivência tão tremenda quanto fascinante.

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