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Airbag “A Day at the Beach”

“A Day at the Beach” demonstra um traço ímpar de imprevisibilidade, mesclando sonoridades do progressivo com a insurgência da electrónica dos anos 1980, juntamente com elementos atmosféricos e da new wave.

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Editora: Karisma Records
Data de lançamento: 19.06.2020
Género: prog rock
Nota: 5/5

“A Day at the Beach” demonstra um traço ímpar de imprevisibilidade, mesclando sonoridades do progressivo com a insurgência da electrónica dos anos 1980, juntamente com elementos atmosféricos e da new wave.

Airbag, uma banda norueguesa de Oslo, tem criado a reputação de tornar cada álbum uma experiência auditiva inigualável com um rock progressivo bastante refinado e humanístico. Realmente, até o nome da banda não surpreende – pensado de forma cuidada e metafórica, não admirando aqui a rigidez nórdica que, no mundo da música, tem criado cultos por todo o mundo. “A Day at the Beach” apresenta-se como o quinto disco de originais do grupo liderado por Bjørn Riis, o génio que idealizou este grupo ainda na década de 1990, apesar da formação oficial ser, na verdade, de 2004.

O quinto longa-duração consegue inspirar só pelo título e, nem de propósito, o efeito colateral é imenso com uma visualização criada logo na capa com uma série de ursos de peluche de pernas para o ar e com a cabeça enfiada dentro da areia, quase alertando para a insurgência de algo que está a ser ocultado ou que é imprevisível.

O disco descreve mudanças que estão para acontecer, tal como as mudanças verificadas no seio do grupo, sendo este o primeiro álbum a contar com um trio e com a colaboração, no baixo, de Kristian Hultgren. A par da criatividade presente nos longas-durações anteriores, este “A Day at the Beach” demonstra um traço ímpar de imprevisibilidade, mesclando sonoridades do progressivo com a insurgência da electrónica dos anos 1980, juntamente com elementos atmosféricos e da new wave. O resultado instrumental é impressionante, cheio de surpresas e excelentes momentos de guitarra e passagens cénicas que confirmam a verdadeira ascensão desta que é uma das melhores bandas norueguesas de rock progressivo.

Os Airbag não se coíbem de transmitir igualmente uma sensação de realização na narrativa ao mesmo tempo que abrem espaço a sentimentos de perda e despedida, analisando profundamente os efeitos do desespero individual. Tal descrição seria já tocante, mas envolve algo ainda mais humano do que isso: um homem despede-se da família, na incerteza de um futuro por conhecer. O conceito é simples, mas tão complexo de igual modo. É, aliás, um futuro com o qual nos deparamos nestes momentos de maior incerteza e de pandemia. Curiosamente, o conceito não foi propositado, mas ouvir este álbum abre toda uma enchente de emoções que vicia em faixas épicas como “Machines and Men”, “Into The Unknown” e “Megalomaniac”, que contam diversas facetas duma história que se desenrola nas nossas cabeças desde os primeiros efeitos atmosféricos da faixa de abertura até aos últimos desvaires criativos de “Megalomaniac”.

“A Day at the Beach” não é longo, contando apenas com seis faixas, cada uma delas com uma narrativa surpreendente e iluminada. Igualmente, as passagens cénicas de “A Day at the Beach (Part 1)” e “A Day at the Beach (Part 2)” tornam a visualização da despedida ainda mais real, com o grupo a dar forte atenção à componente de inspiração na electrónica da década de 1980. “Sunsets” é um tema melódico, mas igualmente forte e poderoso, invocando o pôr-do-sol como metáfora para a inquietação do momento.

Os Airbag foram fantásticos! Não há muito mais que se possa dizer de um disco perfeito, sobretudo numa era em que criar música passou de ser uma arte para um incómodo temporal. O trio, também um quarteto, cria momentos de música viciantes e que nos fazem passar por diversas emoções, tanto positivas como negativas. Confirma-se o papel da banda na cena actual, conseguindo impor uma realidade para lá da realidade, juntando o progressivo ao atmosférico e à electrónica, com um toque de space rock e new wave. O melhor disto tudo é que o grupo parece ainda estar no início da viagem, depois dos quatro lançamentos anteriores. “A Day at the Beach” é um começo, não um fim, apesar da narrativa do adeus que apresenta, tendo tudo para ser um dos melhores lançamentos do ano.

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