O lendário guitarrista dos Iron Maiden e ávido pescador Adrian Smith partilha as lições que aprendeu ao longo de 40 anos... Adrian Smith (Iron Maiden): «Quando fomos para a América, começou a haver álcool e drogas, era uma muleta»

O lendário guitarrista dos Iron Maiden e ávido pescador Adrian Smith partilha as lições que aprendeu ao longo de 40 anos nas estradas e rios à volta do mundo.

Desde que ingressou nos Iron Maiden em 1980, Adrian Smith contribuiu com mais do que apenas alguns capítulos (e sucessos) para a carreira da banda com mais de quatro décadas. Com os planos de digressão para 2020 a serem arruinados, o guitarrista encontrou tempo para publicar o seu próprio livro sobre pesca, “Monsters of River & Rock: My Life as Iron Maiden’s Compulsive Angler”, com algumas histórias dos Maiden em boa dose, claro. A Hammer encontrou-se com Adrian para a pescaria.

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Nunca planeei escrever um livro
«Alguém me abordou para fazer isto. Disseram: ‘Sabemos que és um pescador experiente e que tens muitas histórias.’ Portanto marcaram reuniões com editores. Mas gosto mesmo de escrever e foi tudo feito ao longo de um ano e meio, principalmente escrito na estrada. Foi um grande projecto: mergulhar no meu passado, nas minhas experiências de pesca e coisas que aconteceram com a banda.»

Ter sucesso requer algum sacrifício
«Quando tinha cerca de 15 anos, parei de pescar durante um tempo. Tinha aquelas conversas sobre o que faria com o resto da minha vida, mais ou menos na mesma altura em que comecei a gostar de música. Pensei: ‘Se quero ser músico, tenho de me dedicar.’ Portanto parei de pescar e parei de seguir futebol – também era um fanático pelo Man. United. Lembro-me de poupar para comprar uma Les Paul e pensar que, assim que o conseguisse, soaria como Gary Moore. Mas primeiro tens de aprender a tocar! Ainda tenho essa guitarra, mas toco um pouco melhor hoje em dia. Ironicamente, foi só quando me juntei aos Iron Maiden, no início dos anos 80, que voltei a pescar, principalmente porque isso foi uma das primeiras coisas sobre o qual conversei com o Clive Burr [antigo baterista de Maiden]. Íamos com [o guitarrista dos Maiden] Dave Murray durante as digressões, porque naquele momento percebi que estava no caminho certo em relação à música – era tempo de revisitar coisas que adorava!»

Às vezes, os pais simplesmente não compreendem
«Os meus pais não ficaram entusiasmados quando eu disse que queria ser músico. Eles queriam que eu continuasse na escola e que arranjasse um bom emprego. Agora consigo simpatizar com isso, mas naquela altura os meus heróis tinham passado de George Best e Bobby Charlton para Black Sabbath, Deep Purple e Free. Fiquei abananado quando ouvi aquelas bandas. Sabia que era aquilo que queria fazer. Como muitos adolescentes, eu não tinha ideia do que queria fazer até ser atingido mesmo no meio dos olhos – andava um pouco perdido porque não estava interessado no lado académico da escola e no desporto era só futebol. Mesmo depois de me decidir, os meus pais ficaram um pouco preocupados – ‘É só uma fase, companheiro, não vais ganhar a vida com isso.’ E sabes, para 98% das pessoas estariam certos. Mas as coisas correram bem, felizmente.»

Gostar de rock nos anos 70 não estava na moda
«Uma das histórias no meu livro é sobre o encontro com o Dave Murray. Já naquela altura ele tocava muito bem e tinha aquele som distinto. Ele estava mais avançado a tocar guitarra, por isso disse-lhe que era vocalista, pois não conseguia tocar nada na altura! Abri caminho para tocar com ele e com um amigo dele, depois deixámos crescer o cabelo e tínhamos um visual, o que era muito estranho naquele tempo porque a cena ainda não se tinha espalhado, apenas parecíamos um pequeno culto!»

A depressão atacou-me em Maiden
«Não existem muitos livros sobre pesca que falam de depressão, portanto senti-me um pouco estranho ao incluir isso. Mas somos todos humanos e muito disso resume-se a como lidas com o stress. Não quero soar a ‘coitado de mim’, mas foi uma característica dos anos 80 para mim. O último concerto que dei antes de entrar em Iron Maiden foi num pub em Londres. Lembro-me de entrar no autocarro com o meu pedal wah-wah numa saca da Tesco – depois disso, a próxima coisa foi um grande concerto com os Iron Maiden. Grande salto! Consegui, com muita bravata, passar pela primeira digressão, depois começou a atacar-me um pouco – as pessoas pagam muito dinheiro para nos verem e há muitos músicos excelentes por aí, o que significa que é muito competitivo. Isso tomou conta de mim algumas vezes e, quando fomos para a América, as coisas começaram realmente a envolver álcool e drogas, usando-as como muleta. Mas tens de lidar com essas coisas, e saber disso agora significa que não tenho as mesmas dificuldades. Faz tudo parte do processo de crescimento.»

Ter um passatempo é uma dádiva
«Na estrada descobres que tens muito tempo para matar e tens de estar pronto a qualquer momento – portanto, geralmente, mantenho muitas coisas prontas na minha mala. Algo para fazer. Vejamos, fazer digressões pode ser muito, muito chato e acho que é por isso que muitas bandas mais antigas se cansam. Não me interpretem mal: o tempo que se passa em palco é óptimo, mas nas outras 22 horas do dia tens de viver a vida. Para mim, isso significa ir fazer algo de que gosto. É bom para a mente – como disse Billy Connolly: ‘Pescar é meditação com uma piada final.’»

Não há nada como fugir para o campo
«Ao crescer em Clapton, East London, muitos cursos de água estavam tão poluídos que conseguias sentir o cheiro a quilómetros. Ir para um lugar como Hertfordshire, para pescar, era como estar de férias, e adorava. O casulo de se andar do avião para a carrinha e para o hotel às vezes é um pouco demais, portanto é simplesmente excelente ir para o campo e libertar a mente, conseguir esse espaço.»

…Portanto temos de cuidar do nosso campo
«Já estive em todo o mundo, mas a Nova Zelândia é particularmente maravilhosa. É incrivelmente bonita e intocada, um pouco como a Inglaterra dos anos 40 ou o que quer que seja, com rios de cristal e sem lixo. Isso é uma das coisas que realmente me irrita neste país [Inglaterra], por mais que o adore: o lixo que as pessoas mandam fora e a falta de respeito pelo campo irrita-me a sério. Dito isto, os rios estão muito mais limpos agora do que quando era criança, porque endureceram as leis sobre poluição industrial e muitos clubes de pesca organizam grupos de trabalho – grupos de pessoas que dedicam o seu tempo para desbloquear rios e coisas do género. Algumas pessoas acham que pescar é apanhar, apanhar e apanhar, mas a maioria dos pescadores com alma deixam algo em troca. Se toda a gente fizesse um pouco disso, o mundo seria um lugar melhor.»

É incrível ver fãs de Maiden por todo o mundo
«Não importa onde vamos, vemos sempre o nosso merchandise. Uma coisa boa sobre esta banda é que vamos e levamos a música às pessoas, onde quer que seja. Fazer isso também significa que as pessoas têm-te apego. Dito isto, já passei por pessoas com aquelas camisolas sem fazerem ideia de quem eu era! Acho que o nosso merchandise funciona um pouco bem demais. Mas numa ocasião, eu estava a pescar na Irlanda com o meu pai. A palavra espalhou-se e os miúdos começaram a aparecer, todos com camisolas do Eddie, a observarem-nos das margens durante um bocado. Fui até lá e perguntaram se podíamos dar autógrafos, e, assim que o fiz, apareceram duas freiras! Olharam para o álbum, olharam para mim e acharam hilariante

As escoltas não são tão glamorosas como parecem
«Em lugares como Itália e México, descobri que as escoltas policiais conseguem ser um bocado… entusiásticas. Demais, pode-se dizer! As pessoas acham que é glamoroso ter essa escolta, mas pode ser muito stressante, especialmente quando ficas um bocado enjoado e o motorista pensa que está num filme de acção, a acelerar noite fora a 160km/h com óculos de sol!»

Nunca sabes quem vai explodir
«Há uns anos tínhamos bandas como Saxon connosco – nunca percebi como é que não ficaram grandes já que eram excelentes. Ghost é uma banda muito interessante e diferente. Dou valor quando uma banda abre para nós hoje em dia, porque significa que trabalharam muito para chegarem aí – e, definitivamente, os Ghost têm algo.»

Há sempre peixes maiores para fritar
«Mesmo agora, ainda há um pouco de insegurança e desejo de se provarem coisas às pessoas, fazerem-se coisas que não fizemos antes. É como pescar: há sempre peixes maiores e novos lugares para explorar, sempre algo pelo qual ansiar – é o que me faz continuar. Isso e coisas como jogar ténis com o Steve Harris, para me manter em forma. Não acho que nenhum de nós quer desacelerar – ainda queremos sair!»

Consultar artigo original em inglês.