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AC/DC “Back In Black”: Luto – o combustível da arte

“Back In Black”, dos AC/DC, foi lançado em 1980.

Dezanove de Fevereiro de 1980. Por volta das 20 horas, no número 67 de Overhill Road, East Dulwich (zona sul de Londres), Bon Scott, icónico vocalista dos AC/DC, é encontrado sem sinais de vida dentro de um Renault 5. O frontman encontrava-se na viatura desde as primeiras horas dessa manhã, só tendo sido descoberto quase ao anoitecer. Levado de urgência para o Hospital de King’s College, foi declarado morto à chegada. Causa da morte: intoxicação alcoólica aguda. Tinha 33 anos.

As lendas e mitos em redor da morte de Ronald Belford Scott ganharam vida própria ao longo dos anos e criaram um enredo que faria com que qualquer teórico da conspiração tivesse uma erecção – Alistair Kinnear, que encontrou o músico dentro do carro, desapareceu e nunca mais deu sinais de vida; não é certo que o carismático vocalista não tivesse usado heroína nessa noite; há quem jure a pés juntos que, quando saiu do bar onde se encontrava para recolher à fatídica morada, Scott não estava bêbedo. Tudo isto acrescenta pontos ao conto trágico do homem responsável por alguns dos temas de maior sucesso do grupo australiano de maior expressão a nível global, caso de “Highway To Hell”, “Whole Lotta Rosie”, “T.N.T.” ou “It’s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll)”.

A banda ficou devastada com a perda, não só do vocalista perfeito como também de um membro da família. Na realidade, a primeira reacção dos AC/DC foi encerrar a carreira, algo de amargamente sarcástico se tivermos em consideração que “Highway To Hell”, à época com apenas seis meses de vida, tinha sido a catapulta que projectou o quarteto da Oceânia para a fama mundial. Os pais de Scott insistiram que a banda deveria continuar, pois teria sido esse o desejo do malogrado vocalista, o que levou os três membros remanescentes a procurarem um substituto à altura de Scott e decidirem por Brian Johnson. Ironicamente, a maior tragédia no seio dos ACϟDC viria a ser o maior triunfo de vendas da história da banda. E da história de qualquer outra banda, na verdade.

Entre Abril e Maio de 1980, os reformados AC/DC dirigiram-se aos Compass Point Studios de Nassau, Baamas, para gravarem “Back In Black”. O título e a capa do disco (completamente preta) estavam carregados de simbolismo, um tributo singelo ao falecimento de Bon Scott. Tudo correu mal desde o início: tempestades tropicais, instrumentos retidos na alfândega, condições miseráveis no estúdio, o perigo real de os instrumentos da banda serem roubados por nativos e, por fim, o produtor responsável do disco ser Robert Lange, que quase levou o recém-chegado Brian Johnson à loucura devido ao seu rigor meticuloso e perfeccionista. Actualmente, a forma como Lange gravou “Back In Black” é seguida como um manual de instruções de como deve ser gravado um disco de hard rock – foi um trabalho assim tão inovador.

O estilo musical omnipresente em “Back In Black” é heavy rock, mais negro e pesado do que em qualquer disco anterior da banda. Ainda que a essência sonora se tivesse mantido, nenhum exemplo disto será melhor do que “Hell’s Bells”, pontapé de saída desta aula de rock: arrastado, pesadão, hipnótico, quase lamuriante e a dobrar finados por Bon Scott. “Shoot To Thrill” sucede-se de forma mais rápida e alegre, bem como as seguintes “What Do You Do For Money Honey” e “Given The Dog A Bone”, intercaladas por mais uma música lenta, “Let Me Put My Love Into You”. Por esta altura, o talento lírico de Brian Johnson começava a sobressair com metáforas sexuais, como «Let me put my love into you, babe,Let me cut your cake with my knife». Se o Lado A já era suficiente para inscrever o nome AC/DC no panteão dos deuses do rock, o Lado B revelar-se-ia um exercício de puro show-off.

Virando o disco (o CD só seria inventado dois anos depois), qualquer pessoa terá exactamente a mesma sensação ao ouvir o riff inicial de “Black In Black” pela primeira vez – assombro. Este riff ombreia (se é que não supera) com alguns dos riffs clássicos universais: “Enter Sandman”, “Smells Like Teen Spirit”, “Whole Lotta Love”, “Iron Man”. Trata-se de uma das bases harmónicas mais reconhecidas de todos os tempos e segue as duas regras caracteristicamente associadas a essas: é simples e memorável. Uma vez mais, os dotes de Johnson pagavam a aposta feita pelos irmãos Young, Malcolm e Angus:

«I kept looking at the sky cause it’s gettin’ me high
Forget the hearse cause I’ll never die
I got nine lives cat’s eyes
Abusin’ every one of them and runnin’ wild»

Os solos de guitarra de Angus, geralmente rápidos e relativamente caóticos, adequam-se à velocidade lenta do tema e, pela primeira vez na carreira da banda, percebemos que o homem das seis cordas não chama a atenção apenas pelo fato colegial que traja mas, também, por se ter tornado num guitarrista plenamente dotado.

Em seguida, “You Shook Me All Night Long” prova ser mais um sucesso instantâneo que acompanhará a banda até à actualidade (muito raramente não é tocada ao vivo), com diversas versões executadas ao longo dos anos por nomes como Shania Twain ou Celine Dion. A parte mais controversa do tema reside na incógnita de quem escreveu as letras, com muitos amigos e conhecidos de Scott a garantirem que a letra original foi escrita por este. “Have A Drink On Me” regressa ao andamento lento que intercala o disco com temas rápidos, caso do seguinte “Shake A Leg”. O disco termina como começou, de forma lenta, sorumbática e triste ao som de “Rock And Roll Ain’t Noise Pollution”. A pedido da editora e do management da banda, o que deveria ter sido um disco com nove temas acabou por ter dez com esta música final. Composta em estúdio em apenas 15 minutos e com uma letra inventada em cima do joelho por Johnson, acabou por fechar com chave de ouro um testamento musical que a banda nunca voltaria a repetir.

“Back In Black” foi responsável pela revitalização do interesse renovado no heavy metal tradicional como o conhecemos. Numa altura em que a orientação das bandas estava a seguir caminhos difusos e a afastar-se do espírito inicial do género, este álbum foi um dos grandes culpados em influenciar bandas futuras como Metallica. À data do seu lançamento, foi um sucesso em todo o mundo. Os números são expressivos: 22x platina nos Estados Unidos e 50 milhões de cópias vendidas desde a sua estreia fazem da obra-prima dos AC/DC o disco mais vendido de sempre por uma banda, ficando apenas abaixo de “Thriller”, de Michael Jackson. A recepção a foi tal que os registos anteriores “Highway to Hell”, “If You Want Blood You’ve Got It” e “Let There Be Rock” voltaram a entrar no top inglês, fazendo dos AC/DC a única banda a ter quatro discos no top 100 desde os The Beatles. Ao longo dos anos, as músicas do disco foram utilizadas até à exaustão em comerciais de marcas conceituadas como Motorola, Ford, Walmart, Chevrolet ou Nissan.

Do ponto de vista musical, não há como dourar a pílula – “Back In Black” é o melhor disco de rock de todos os tempos. Mais, “Back In Black” é um dos melhores discos de heavy metal de todos os tempos sem ser propriamente heavy metal, mas com todo o espírito selvagem do mesmo. Com 10 temas sem momentos menores, uma produção ainda hoje invejada pelos gurus da indústria e uma inspiração que o quarteto australiano nunca mais recuperaria no seu todo, “Back In Black” continua a ser o pináculo da música e lifestyle rock: hedonismo e sibaritismo aos litros, um vigor sexual que faria o Viagra tomar comprimidos de AC/DC e uma sensação de ordinarice constante, ingredientes essenciais para uma obra-prima do rock n’ roll. A transversalidade do disco agrupa metaleiros, rockers, punks e até outras tribos geralmente alheadas das tendências mais alternativas – quem nunca bateu com a mão na mesa a acompanhar a cadência de bateria da faixa-título que se acuse! Por fim, e entre muitas revistas de música, a Time elegeu “Back In Black” como um dos 100 melhores discos de sempre, o que em si mesmo é uma espécie de medalha. Nada mal para quatro miúdos que abandonaram a escola ainda adolescentes e que sempre insistiram que o rock não é poluição sonora.

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