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Aborym “Hostile”

Um álbum bem-sucedido de acordo com o propósito anunciado e assumido pelo grupo: confundir o ouvinte.

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Editora: Dead Seed Productions
Data de lançamento: 12.02.2021
Género: industrial metal/rock, electro
Nota: 3/5

Um álbum bem-sucedido de acordo com o propósito anunciado e assumido pelo grupo: confundir o ouvinte.

“Hostile” é o oitavo álbum do projecto fundado pelo italiano Fabrizio Giannese em 1992. O black metal inicialmente praticado pelos Aborym chamou a atenção da crítica especializada, mas hoje em dia o grupo não se revê nas bandas de metal, apesar de manter algumas referências da música pesada. Fabrizio Giannese não quer investir por caminhos batidos, e, ainda que à distância de alguns movimentos de vanguarda, vem insistindo na exploração das novas tecnologias disponíveis ao serviço da criação musical. No mesmo ano, curiosamente, Simon Reynolds, um jornalista britânico com vários livros publicados sobre a cultura rave e a música electrónica, adivinhava o futuro: «Para além do acto criativo, os artistas vão desempenhar funções de curadoria, pegar nos recursos históricos dos arquivos, mexer nessa matéria, reorganizá-la à descoberta de diferentes combinações e justaposições, e ir ao encontro de afinidades inesperadas com um novo sentido.» Actualmente constituídos por Greco (baixo, guitarras), Catalani (bateria, electrónica), Aurizzi (guitarras) e Fabrizio (voz, teclados, sintetizadores modulares, programações), o projecto tem em “Hostile” uma miscelânea de electrónica com hard rock, prog rock, rock industrial, dark ambient e techno pop, na qual contam ainda com uma serie de músicos convidados.

Keith Hillebrandt (Stevie Wonder, U2, Consolidated, David Bowie) – produtor e programador americano especialista em software de estúdio – e Andrea Corvo (Synthesis Studio, Roma) – produtor de música electrónica, DJ de rock industrial, acid e progressive techno, e engenheiro de som –, que são responsáveis, respectivamente, pela produção e pela mistura e masterização, talharam a escopro e martelo, e por vezes a cinzel, a sonoridade das 14 faixas de “Hostile”. Uma operação delicada em que as combinações de guitarras e sintetizadores, caixa de ritmos, batidas programadas e bateria, basslines electrónicas e baixo eléctrico, ou o recurso a tablas, piano e saxofone, constroem as texturas sintéticas e atmosféricas, ou por vezes abrasivas, de suporte ao protagonismo das vocalizações ora limpas, ora processadas. Apesar do palavreado inicial, o resultado final do conjunto dos temas com a duração de pouco mais de uma hora assenta nas estruturas simples do formato canção pop-rock.

“Disruption” inaugura o alinhamento num registo inicial afecto ao spoken-word e evolui progressivamente da declamação sussurrada, por ritmos mid-tempo, para uma postura mais agressiva. De seguida, “Proper Use of Myself” acentua a tónica do rock industrial de uns Nine Inch Nails ou Ministry, e pilha inclusivamente uns bleeps à Prodigy dos primeiros dois álbuns. “Horizon”, a terceira faixa, hesita entre as ondas da electro-pop dos Depeche Mode, com refrãos e guitarradas grunge e o pulsar das raves com elementos techno e drum n’ bass. Segue-se “Stigmatized (Robotripping)”, uma extensão de “Proper Use of Myself”. Os três temas que se seguem, “The End of a World”, “Wake Up Rehab” e “Lava Bed Sahara”, descartam quase totalmente a electrónica industrial para se adoptarem formatos tradicionais do rock datado pela era grunge.

“Hostile” é um disco muito «temperamental, com canções complicadas, feitas por pessoas complicadas, sem qualquer intuito de agradar ou alimentar convencionalismos», tal como é assumido na press-release de 12 páginas. Caso haja dúvidas, o primeiro tema da segunda parte, “Radiophobia”, inverte a corrente e torna a agitar as águas com um pendor industrial, enquanto as restantes apontam numa direcção Lynchiana (como quem vai por “Mullholand Drive”) de regresso ao universo Nine Inch Nails, à excepção de “Nearly Incomplete”, com uma investida arrojada por territórios que vão do jungle ao gabber. A estética adoptada de post-industrial, (prog)rock/metal e coldwave tanto faz tangente ao universo de Ministry, Revolting Cocks ou Rob Zombie como ao synthpop dos Depeche Mode. O álbum é, também por isso, extremamente bem-sucedido de acordo com o propósito anunciado e assumido pelo grupo: confundir o ouvinte.

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