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A verdadeira história de “Hybrid Theory” dos Linkin Park

Chester Bennington e Mike Shinoda contam a derradeira história da criação do álbum mais vendido deste século.

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Chester Bennington e Mike Shinoda contam a derradeira história da criação do álbum mais vendido deste século.

A 24 de Outubro de 2000, uma banda pouco conhecida da Califórnia chamada Linkin Park lançou o seu álbum de estreia, “Hybrid Theory”. E embora o insuspeito sexteto não tivesse percebido na altura, aquele álbum tornar-se-ia não apenas no disco mais vendido do mundo no ano seguinte, mas também, e mais importante, um clássico do rock moderno que definiu uma geração.

A sua fusão de riffs metal afiados, batidas electrónicas astutas, rap tortuoso, berros de arrancar os olhos e sensibilidade pop sem esforço catapultou os seis zés-ninguém de nenhures para o estrelato do rock de uma forma que provavelmente nunca será igualada. Um disco absoluto sem medo, chamar “Hybrid Theory” de fenómeno seria quase menosprezá-lo.

No entanto, como um homem sábio disse uma vez, até mesmo a maior das jornadas começa com os mais pequenos passos, e a história da estreia mundial dos Linkin Park começa da mesma forma que a maioria das bandas – no quarto de uma criança.

«As primeiras incarnações das músicas do “Hybrid Theory” foram escritas na casa dos meus pais, quando eu tinha acabado o ensino secundário», lembra o rapper, teclista e mentor criativo Mike Shinoda. «“A Place For My Head” foi uma dessas primeiras canções, mas eu não estava a pensar em escrever um álbum – mal tinha pensado em começar uma banda!»

O ‘estúdio’ do jovem Shinoda era, na melhor das hipóteses, rudimentar. «Eu tinha um gravador de quatro canais, uma guitarra que ligamos directamente a um pequeno amplificador e um microfone para a voz», ri. «A configuração inteira talvez valesse $300. Na verdade, enviámos um monte de fitas dessas gravações, incluindo para um gajo que sabíamos que tinha assinado Incubus e Korn. Surpreendentemente, ele ligou-nos de volta! Quando lhe contei sobre a minha configuração, ele disse: ‘Isso não faz sentido nenhum – as músicas soam muito bem!’ E mesmo que ele nunca estivesse em posição de nos contratar, isso foi realmente o começo.»

Com a sua criatividade ambiciosa e práticas de trabalho espartanas já a obterem elogios, Shinoda começou a formar o núcleo do que se tornaria Linkin Park. Seguiu-se um carrossel de demos intermináveis, mas faltava algo na formação inicial. A resposta, como se revelou, seria encontrada na forma de um vocalista de cabelo flamejante do Arizona.

«Basicamente, decidi retirar-me da música», diz Chester Bennington, reflectindo sobre os seus frustrantes primeiros anos a tentar ter sucesso numa banda. «Consegui um emprego no sector imobiliário e pensei que, embora provavelmente ainda fizesse músicas para me divertir, precisaria de encontrar outra coisa para fazer a tempo inteiro.»

Esta é uma declaração bastante notável para alguém que, na altura, tinha acabado de completar 21 anos, mas Bennington, ao que parece, não era um homem que fazia as coisas pela metade. «Um gajo que estava a trabalhar com a minha antiga banda ligou-me a dizer: ‘Conheço uns tipos e estão a escrever música excelente, mas precisam mesmo de um vocalista.’ Imediatamente, comecei a fazer todo o tipo de perguntas: ‘Que idade têm? Há quanto tempo andam a fazer isto?’ Porque eu não queria perder a porra do meu tempo. Ele disse: ‘Bem, vou enviar-te uma demo.’ Tinha duas faixas de um lado e instrumentais do outro. Ouvi o lado instrumental primeiro e pensei imediatamente: ‘É isto, são estes.’ O que sei é que a seguir voei para a California e estava sentado ao pé da Zomba Music Publishing, à frente do Whiskey A Go Go na Sunset Strip.»

Esse rápido movimento, no entanto, significava que, neste estágio, Chester nem tinha posto os olhos nos homens que se tornariam os seus novos companheiros de banda. «Quando finalmente conheci os gajos, lembro-me que eles pareciam muito porreiros, muito inteligentes, muito sérios e, o mais importante, eles tinham um plano, o que era muito revigorante.»

Se para conhecerem o vosso vocalista através de equipas de A&R e de fato parece um pouco – ou talvez muito – profissional para vocês, então não estão sozinhos no pensamento. Quando “Hybrid Theory” finalmente explodiu de forma espectacular, a banda teve de se defender, por todos os lados, das acusações de serem fantoches corporativos.

«Conseguimos essa reputação por sermos um negócio em vez de uma banda», admite Shinoda. «Mas isso acontecia porque estávamos muito focados em fazer as nossas coisas. Não foi em nome da empresa – foi em nome da construção de algo em que trabalhámos muito para criar. Estávamos preparados para fazer de tudo ao nosso alcance para termos sucesso a todos os níveis.»

A prova da dedicação inabalável e singular de Shinoda, Bennington e companhia? Consideremos a fé inabalável que tiveram de mostrar enquanto tentavam conseguir o contrato que tornaria “Hybrid Theory” uma realidade. «Apresentámo-nos a todas as editoras que existiam», suspira Shinoda, «e todas nos rejeitaram».

«Ninguém nos queria, mas sabíamos que tínhamos algo muito especial», diz um desafiante Bennington. «Apenas continuámos a pressionar. Provavelmente, a maioria das bandas tenta chegar a três editoras, é rejeitada e desiste. A nossa atitude era: ‘Estes gajos são estúpidos se não conseguirem ver o que temos.’ Sabíamos o que tínhamos e nunca duvidámos disso.»

Felizmente, a fé da banda em si mesma seria recompensada, já que o responsável de A&R, que os conduziu por aquela série aparentemente infinita de demonstrações numa tentativa de conseguir um contrato com uma editora, tinha consigo um contrato para a Warner Bros. Como parte do contrato com a multinacional, ficou combinado que ele assinaria os Linkin Park como sua primeira banda. «Tivemos sorte», reflecte Bennington.

Ou assim pensaram eles. Na verdade, a batalha para divulgar “Hybrid Theory” da maneira que pretendiam estava apenas a começar. Para Shinoda em particular, foi um momento difícil. «Tivemos de lutar com unhas e dentes para manter a visão do disco até ao fim. A atitude da editora era: ‘Impressionem-nos e talvez consigam fazer um álbum’.»

A jovem banda recusou ser intimidada, mesmo na cara de uma direcção imbecil, continuando a travar uma guerra silenciosa para garantir que a sua música fosse ouvida da maneira que eles sabiam que deveria ser.

A gota d’água surgiria quando a editora, numa acção que agora parece inimaginavelmente ousada, tentou expulsar Shinoda da banda. «Os gajos sentaram-me e disseram: ‘Oh, tens uma voz incrível, podias dar uma estrela brilhante’», diz Bennington, audivelmente ainda irritado com o encontro. «Eles queriam ver se eu dava o golpe para tirar o Mike dali. Os gajos eram estúpidos como o c*ralho, pá. Disseram-me que eu seria a cara da banda e que o Mike não tinha hipótese porque ele era apenas um miúdo de Agoura – todas essas coisas estúpidas e superficiais. Eles queriam um rapper de Nova Iorque, que ninguém conhecia, para vir e fazer as vozes no álbum. Eu só queria mandar um murro na cara daqueles idiotas, porque eles não conseguiam ver a merda da tetina dourada de grandiosidade que estava mesmo à frente deles. O Mike é um dos compositores mais produtivos da nossa era, eu acho. Só deus sabe quantos Número Um já tivemos, mas se ele não estivesse na banda, não teríamos nenhum!»

Este é o tipo de demonstração de lealdade com a qual muitas bandas de irmãos de armas poderiam aprender muito, e que deita por terra a noção de que os Linkin Park são apenas um bando de mercenários reunidos para alcançar o sucesso global. No entanto, quando “Hybrid Theory” rebentou, infiltrando-se nas ondas de rádio com sua repercussão infecciosa, certas alas da imprensa foram rápidas a classificá-los como nada mais do que uma boy band do nu-metal. Tendo trabalhado tão incessantemente para chegar onde estavam, foi uma marca que ficou algo cravada.

«Sim, foi a sério durante um tempo, huh!», comenta Shinoda ironicamente. «Tínhamos que nos defender daquela merda absurda para sempre, mas estava completamente fora de questão. Nunca achámos que alguém pensaria algo tão ridículo, mas de repente as pessoas começaram a falar sobre isso!»

Ficaram irritados? Acreditem que sim. «Isso deu-nos algo a provar e impulsionou-nos, com certeza», observa Bennington. «Havia uma percepção muito falsa sobre nós, mas o que fizemos, em vez de falar sobre isso, foi fazer com que a nossa missão fosse esta: quando tocássemos, queríamos que todos os que tocassem depois de nós dissessem ‘foda-se!’. Queríamos ser a banda com quem ninguém queria fazer digressões, porque iríamos aparecer, dar cabo do público e, assim, todos iriam querer ir embora depois de nós. Queríamos acertar em cheio nas pessoas.»

O sexteto teria a hipótese de provar a sua reputação como show-stoppers à escala internacional ao longo de 2001, acumulando centenas de concertos em todos os cantos de um mundo cada vez mais obcecado pelos Linkin Park em promoção a um disco que estava a invadir as tabelas.

No entanto, essa determinação de roubar as luzes dos holofotes não caiu muito bem em toda a gente com quem eles foram para a estrada. Uma etapa malfadada no Reino Unido com os já estabelecidos Deftones surgiu quando estavam a surfar uma onda de sucesso, mas longos períodos em digressão já estavam a cobrar o seu preço.

«Essa digressão foi um dos períodos mais stressantes que já tivemos», confidencia Shinoda. «Basicamente, veio um inverno mundial que durou seis meses e estávamos todos sempre doentes. E, ainda por cima, os gajos de Deftones começaram a ficar com um pouco de ciúmes e a tratarem-nos muito mal. O Steph e o Chino disseram algumas coisas bastante desagradáveis em entrevistas. Tentámos não responder porque não queríamos mais tensão na digressão, mas foi muito triste.»

O sucesso pelo o qual a banda se tinha esforçado tanto para alcançar não estava a provar-se ser o mar de rosas que esperavam. «Até vi alguns fãs a mandarem heroína num desses concertos. Uma merda completamente horrível, pá. Foi um período sombrio no geral, embora as coisas estivessem, aparentemente, a ir muito bem.»

Então, o que levaria tanto a imprensa como os pares de Linkin Park a ficarem tão perturbados com seis gajos que estavam, para todos os efeitos, apenas a perseguir o seu sonho? Talvez fosse o consenso de que eles eram bons, trabalhadores, miúdos de classe média que não tinham nada com que se zangar. Ou talvez porque, em comparação a figuras gigantescas como Jonathan Davis e Fred Durst, parecessem, francamente, um bocado enfadonhos.

«As pessoas não nos conhecem, caraças. Ninguém me conhece. Não podes ver uma foto da nossa banda e chegar a uma conclusão sobre como é a nossa vida», rosna Bennington. «Queríamos criar uma arte que falasse por si: nada mais, nada menos. Sabemos que muitas pessoas não gostaram, mas isso alcançou outra coisa que adoro – quando as pessoas te odeiam tanto que não conseguem parar de falar de ti.»

Shinoda tem a sua própria opinião sobre a forma como a banda era vista. «Acho que a diferença entre nós e alguém como Korn ou Limp Bizkit é que, para mim, muita daquela música era feita para uma frat party, uma rixa de bêbados, vadios a tirarem as camisolas e a alimentarem-se da sua própria testosterona. O que não percebemos naquela cena é que não havia muito espaço para emoções mais introspectivas. As pessoas perguntavam-nos: ‘Bem, o Jonathan Davis praticamente cresceu numa morgue e foi abusado e todas essas coisas horríveis. O que é que te dá o direito de ficar com raiva?’ Mas não é preciso teres passado pelas piores coisas do mundo para ficares triste. Acho que isso é algo que realmente fez sentido nos nossos fãs: que não precisas de ser um pária e um idiota para tirar algo dessa música num nível emocional. Se isso nos torna enfadonhos, tudo bem.»

Deve ser dito, porém, que enquanto o álbum de estreia estava a quebrar recordes de vendas e ao mesmo tempo a converter uma geração de miúdos ao rock, os Linkin Park não estavam exactamente a ceder às fantasias de estrelas do rock que se podem imaginar. Mesmo quando receberam as chaves do castelo como a maior banda do mundo, isto ainda era um caso de se trabalhar duro ao invés de festejar duro. «Acho que, pela maioria dos padrões, éramos muito reservados. Estávamos a fazer tanto que não havia muito tempo para enlouquecer», brinca Shinoda. «Quero dizer, houve uma vez no Minnesota em que, no final da noite, mandámos um barril de cerveja pela janela do hotel e tivemos uma luta de bolas de neve na entrada, portanto não éramos completamente enfadonhos, mas estávamos muito focados em alcançar a próxima meta.»

Será que gostariam de ter sido um pouco mais malucos na época do seu auge? «Fizemos isso à nossa maneira e não mudaria nada», argumenta Bennington. «Nem uma coisa.»

Todo o enxerto, indiscutivelmente, valeu a pena. “Hybrid Theory” continua a ser o álbum de estreia mais vendido do Séc. XXI e a influência dos Linkin Park pode ser sentida palpavelmente em toda uma nova onda de artistas emergentes. Anos depois, como é que a banda reflecte sobre o disco que mudou as suas vidas irrevogavelmente?

«Ainda me sinto muito orgulhoso desse álbum», diz Bennington. «De vez em quando, ouço tudo o que fizemos e ainda gosto desse álbum.»

Para o perfeccionista Shinoda, ainda existem momentos específicos que deixam a sua pulsação acelerada. «”Papercut” é uma daquelas músicas que junta alguns dos meus tipos favoritos de rock e alguns dos meus tipos favoritos de dance music», entusiasma-se. «Eu e o Chester fazemos rap, ambos cantamos, e isso resume realmente o que a nossa banda era. É por isso que a pusemos no início do álbum, porque era uma óptima introdução a quem éramos e quem somos. Ainda adoro isso até hoje.»

“Hybrid Theory” é a coisa mais rara das coisas: um disco que é tão único como definitivo. «O que aconteceu com “Hybrid Theory” pareceu como se alguém me tivesse enfiado num buraco negro e me tivesse lançado para uma nova dimensão», diz Chester. «E sabes? Nunca mais foi a mesma coisa.»

Consultar artigo original em inglês.

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