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A Constant Storm “Lava Empire”

Um álbum que respira bem naquele ponto de equilíbrio entre a melodia e a agressividade. Daniel Laureano tem a alma portuguesa na caixa da guitarra.

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Editora: independente
Data de lançamento: 12.06.2020
Género: melodic black/death metal
Nota: 4.5/5

Um álbum que respira bem naquele ponto de equilíbrio entre a melodia e a agressividade. Daniel Laureano tem a alma portuguesa na caixa da guitarra.

A Constant Storm é um projecto artístico e musical nascido no Porto, em 2013, liderado Daniel Laureano aka Stormbringer, um dos guitarristas de Moonshade. “Lava Empire” vem colocar em evidência Daniel Laureano como um músico e compositor multifacetado, que assinou a totalidade do alinhamento de dez temas num álbum conceptual, cujo conceito tem estado envolto em mistério e só futuramente será revelado. A energia criativa que emana da música registada em “Lava Empire” é obra deste verdadeiro one-man-show.

A gravação de “Lava Empire” decorreu entre Janeiro e Novembro de 2019 com a participação de dois outros membros de Moonshade: Pedro Quelhas produziu o álbum e gravou teclados e bateria adicionais, e o Ricardo Pereira, o vocalista secundário desta formação, co-autor das letras de “Babylonian Complex” e “Pinnnboard”. Inês Rento, o elemento feminino, é a soprano que se destaca pela suavidade atmosférica e pela dimensão quase celestial que confere aos temas em que participa, e que harmoniza com Daniel quando este se encontra na função de vocalista principal. Enorme sensibilidade e inteligência num momento inspirado.

A Constant Storm já leva uma experiência considerável nas edições de autor e dispensa essas convenções – veja-se a discografia: o primeiro EP intitulado “Storm Born” (2014) segue uma linha de orientação apostada no black metal, o álbum de estreia “Storm Alive” (2016) tomou de imediato outro rumo de encontro ao metal melódico, o mais recente EP “Live At Greenhouse” (2017) regista igualmente uma nova orientação estética vocacionada para aventuras acústicas de carácter exploratório, “Lava Empire” muda tudo outra vez propondo um conjunto de novos temas enraizados na velha escola do heavy metal e sujeitos à infiltração e influência de diversos outros estilos musicais. A Constant Storm é, nas palavras do seu mentor, um projecto em permanente evolução, e agora o resultado está à vista nesta curiosa amálgama de gothic metal, black & death metal, que incorpora alguns elementos da folk, world beat ou jazz de fusão.

“Lava Empire” é um álbum de metal moderno, diversificado, inesperado e grandioso. A caixinha de surpresas abre com o single que dá título ao álbum. Uma entrada forte para o que se segue é talvez o que melhor sintetiza e transmite a essência dos restantes temas. Para além disso, o talento da vocalista Inês Rento dá-se a conhecer à primeira, o que é um extra. Segue-se “Hollow Days” no lado mais ruidoso e agressivo, um tempo mais up-beat, teclados a criar uma atmosfera de contornos góticos e a presença do segundo vocalista a enegrecer tudo à volta. “Pendulum Heart”, com aquele trecho de guitarra a abrir o tema que depois se vai repetindo até ao final melodioso já em modo acústico, ganhou. No tempo das rádios, isto seria malhão para galgar na playlist.

A canção que se segue, “Pyramid At Sunset”, destaca-se pela simplicidade e também sobe ao pódio entre as melhores. A agilidade de Daniel na guitarra acústica cria uma ambiência exótica meio oriental ou arábica, lado-a-lado com o som de violoncelos sacado aos teclados e embalados por uma cadência ritualista emparelhada com a secção rítmica. “Babylonian Complex” é um tema esquisito, mid-tempo, com uns coros masculinos a entoar uma ladainha de monossílabos sacro-diabólicos, ao mesmo tempo que Daniel vai cantando de uma forma quase teatral.

Notamos ao fim de umas quantas audições que a produção deu umas fífias num tema ou noutro. “Atlantis” não chega a ser bem um instrumental porque Inês faz uma entrada um minuto depois do início enquanto uma guitarra semi-acústica debita umas notas longas com lentidão sobre um fundo de ruído, e isto acaba por funcionar como um interlúdio algo desolador. “Draconian Trials”, o tema mais longo de todos, retoma a pujança de “Babylonian Complex” ou “Hollow Days” a puxar pelos growls de Ricardo, e quebra para dar lugar a um momento mais calmo e suavizado por nova prestação. De seguida volta tudo ao normal, com um andamento bem puxado. “Blood Moon” é mesmo um interlúdio, um instrumental com guitarra acústica em que Daniel vai sussurrando umas palavras durante um minuto e meio. “Pinnnboard” inicia numa toada fantasmagórica e ritualista e prossegue sensivelmente até meio do tema para começar a rasgar no prego com a entrada da voz de Ricardo. “Glory To The Sun” é talvez o melhor do álbum, um tema muito simples e sugestivo dos primordiais cultos pagãos à natureza, amparado pelas sonoridades sobrepostas de duas guitarras acústicas embaladas num ritmo suave e encantatório que sobe de tom com a entrada dos três vocalistas. Acontece também noutras faixas que as entradas de Inês Rento são sempre indiscretas, sendo uma voz que paira acima das guitarras acústicas.

“Lava Empire” é muito bem estruturado e foi bem feita a gestão do alinhamento ao intercalar temas mais pesados com outros mais atmosféricos ou acústicos. É um álbum que respira bem naquele ponto de equilíbrio entre a melodia e a agressividade. Daniel Laureano tem a alma portuguesa na caixa da guitarra.

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