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(0) “SkamHan”

Sendo um álbum de estreia, “SkamHan” é digno de atenção, concedendo-nos 48 minutos coesos e gratificantes.

Editora: Napalm Records
Data de lançamento: 24.04.2020
Género: black metal progressivo
Nota: 4/5

Sendo um álbum de estreia, “SkamHan” é digno de atenção, concedendo-nos 48 minutos coesos e gratificantes.

Uma banda metal sem rosto e sem história. Um nome que leva à dúvida e ao vazio. Que futuro poderia existir para este quinteto dinamarquês? Remetendo-nos à essência do que é a música, uma faixa como “(1136)” dá-nos evidências de que os “Parentes0parentes” sabem bem como articular melodia, ritmo, dinâmica e harmonia. Por isso, bastou-lhes lançarem um único EP para suscitarem o interesse da Napalm Records, que os apresenta como «o mais bem-guardado segredo do underground dinamarquês». Descrever a sua sonoridade como black metal progressivo é demasiado redutor. E assumindo o risco de continuar a sê-lo, outras etiquetas são-lhes associadas, como metal experimental, post, sludge ou drone. Ou seja, estamos perante música pesada, negra, de intensidade visceral e que não se confina em géneros.

Como pedra basilar, FJ (vocalista) entrega-nos sons guturais graves de forma consistente, sem ser monocórdico, criando variações que garantem expressividade e boa dicção. As letras são na língua materna, seguindo a tendência de muitas bandas de menor dimensão. A verdade é que acentuam a autenticidade do trabalho vocal e o carácter da música. O dinamarquês soa áspero e agressivo, combinando na perfeição com a temática sombria das letras, e cria contraste com os segmentos mais dóceis das guitarras. Curiosamente, a mesma banda que procura o anonimato, não hesitou em partilhar os conceitos subjacentes às letras – ver na descrição dos vídeos –, dando significado às metáforas e preenchendo o vazio individualista que caracteriza tantas letras do metal contemporâneo.

O equilíbrio de “SkamHan” foi alcançado pela alternância entre as faixas mais aceleradas e mais lentas, assim como pela definição clara de dois momentos. O primeiro engloba as três músicas iniciais – mais curtas, directas e de estrutura tradicionalista. É onde residem os singles de apresentação: “Tyndere end Hud” e “Skarn tyder” são energéticos, prolíferos em riffs viciantes, dedicados a cativar novos seguidores. “Sjælstjæler” faz um interregno melancólico entre ambos, conferindo-lhes ainda maior vigor.

No segundo momento, temos as fixas progressivas, logo, mais longas e de estrutura irregular. “Rød Glorie” é a mais longa do álbum, com uma secção instrumental a meio, que lentamente se desenvolve para um riff hipnótico e sobre o qual FJ nos revela melhor a sua extensão vocal. “Sortfugl”, extremamente melódica, impressiona como em menos de sete minutos nos faz passar por tantas dinâmicas e ambientes, rematados com um final explosivo que nos deixa sem fôlego e nos faz ouvi-la de novo com toda a urgência. Chegamos então a “SkamHan”, faixa homónima: inicialmente, podemos acreditar tratar-se de um instrumental, em cadências sustentadas por um solo emotivo. Porém, aos três minutos certos, percebemos que, afinal, era somente uma introdução, conforme a voz emerge e a música se expande para horizontes de natureza épica. Através de picos e vales, cumprindo com os preceitos do metal progressivo, os músicos mostram o seu esplendor, culminado num crescendo empolado por blast-beats – tinha de ser, claro!

O diálogo de estilos, usado no primeiro registo, dá aqui lugar a cenários, dinâmicas, riffs e licks diversos, mas numa coerência estilística tremenda. Excepção feita à sétima casa, ocupada pela instrumental “All renses”, assumidamente dedicada à experimentação e incursões drone.

Alguns aspectos do álbum ficaram aquém do esperado, começando pela capa que merecia ser tão ou mais intrigante que a do EP. O anonimato e ínfimas informações divulgadas sobre a banda careciam de uma forte iconografia como contraponto e que de alguma forma alimente a base de fãs. Musicalmente, há momentos em que o volume das guitarras ofusca os demais instrumentos e há várias transições que nos desiludem por sabermos que, atendendo à qualidade dos músicos, poderiam ser mais refinadas.

A música dos (0) pode não ser revolucionária, por ora. Contudo, JU (principal criador) tem admiráveis qualidades, como a intuição melódica e a capacidade de induzir emoções. É sobretudo quando a bateria e o baixo integram activamente as melodias que estas se revelam mais aliciantes e expressam a banda em plenitude. Sendo um álbum de estreia, “SkamHan” é digno de atenção, concedendo-nos 48 minutos coesos e gratificantes. Quanto ao futuro, apresenta-se deveras promissor, especialmente se aos riscos descomprometidos do EP inaugural, os (0) associarem a maturidade deste longa-duração.

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